Pedro Chagas Freitas defende escolha de Rafael Leão: «Acima da felicidade não conheço nada», assinalou.
O escritor reagiu às críticas dirigidas ao internacional português depois da transferência para o Galatasaray e questionou a exigência constante por títulos, dinheiro e reconhecimento.
A transferência de Rafael Leão para o Galatasaray provocou críticas entre os adeptos que consideram que o internacional português poderia continuar num campeonato mais competitivo. O clube turco já incluiu o avançado no plantel e atribuiu-lhe a camisola 27. Galatasaray
Perante as reações, Pedro Chagas Freitas publicou uma reflexão sobre a forma como o sucesso dos outros é medido pelo número de títulos, golos e prémios conquistados.
«Rafael Leão foi para o Galatasaray e logo as caixas de comentários se encheram de frases que parecem ser sobre futebol, mas que são sobre nós», começou por escrever.
«Tanto talento desperdiçado»
O escritor contestou a ideia de que Rafael Leão terá desperdiçado o talento ao escolher o emblema de Istambul. Para Pedro Chagas Freitas, existem fatores pessoais que não podem ser avaliados através das estatísticas de uma carreira.
«‘Tanto talento desperdiçado’. Desperdiçado por quem? Se alguém consegue ganhar 10 milhões e decide ganhar 5 para ter uma vida de que gosta, desperdiçou 5 milhões? Se um escritor poderia escrever 10 livros e escreve 5 porque prefere passar tardes com os filhos, desperdiçou 5 livros?», questionou.
O autor lembrou que as tabelas não contabilizam a satisfação pessoal: «Contamos golos; não contamos tardes felizes, ou gargalhadas, ou jantaradas, ou o valor de gostarmos da nossa vida. Se houvesse uma Bola de Ouro para o homem mais feliz, suspeito que Leão era um candidato».
«Andamos todos num elevador doente»
Pedro Chagas Freitas respondeu também a quem considera que o jogador já não conseguirá chegar ao ponto mais alto do futebol.
«‘Não vai a lado nenhum’. Onde fica esse lugar? Na Bola de Ouro? Nos cem golos pela seleção? Onde é esse misterioso sítio a que temos de chegar para podermos dizer que chegámos a algum lado?», perguntou.
Para o escritor, a sociedade está excessivamente presa à ideia de evolução constante: «Estamos doentiamente viciados na ideia de que toda a gente tem de subir, progredir, crescer, melhorar, faturar, conquistar. Andamos todos num elevador doente: continuamos a subir sem sabermos o que existe no andar de cima».
«Quando surge alguém que parece não estar tão interessado em subir todos os degraus, ficamos furiosos. É uma pessoa perigosa para nós; faz-nos perguntar: e se não for obrigatório?», acrescentou.
Felicidade acima dos prémios
A reflexão prosseguiu com uma crítica à procura permanente por dinheiro, estatuto, produtividade e reconhecimento.
«Mais: eis uma palavra destrutiva para tantos. Mais dinheiro, mais títulos, mais seguidores, mais reconhecimento, mais produtividade, mais património, mais estatuto, mais golos, mais prémios. Mais, mais, sempre mais, estupidamente mais», escreveu.
Pedro Chagas Freitas contrapôs essa ambição com outras formas de viver: «E se for mais alegria? E se for mais tempo com os amigos? E se for mais dança, e mais orgasmos, e mais samba, e mais liberdade? E se for mais nada?»
A terminar, deixou uma mensagem diretamente dirigida ao novo jogador do Galatasaray.
«Leão nasceu com um dom. Quem disse que o talento é uma dívida? Um dom pode ser liberdade; não tem de ser uma hipoteca. Parece-me um puto feliz, um craque da vida. Gosto dele por isso. Que merda interessa o resto quando se é feliz? Acima da felicidade não conheço nada», afirmou.
«A melhor vida não é a que tem os melhores prémios; é a que tem os melhores dias. Faz o que te fizer bem, Rafael. Diverte-te. Se possível, diverte-nos, que bem precisamos. Deixa-nos discutir o que poderias ter sido. Tu vais estar ocupado a ser o que escolheste ser», concluiu.
Veja a publicação AQUI.
