Pedro Chagas Freitas escreve sobre mulheres silenciadas: «Há frases que são gaiolas vestidas de conselhos», considerou.
Pedro Chagas Freitas voltou a usar as redes sociais para partilhar uma reflexão sobre a condição feminina. No texto A Mulher, o escritor aborda a perda de liberdade, a anulação pessoal e a recuperação da identidade.
Através da imagem de uma águia transformada num “canário de sala”, o autor retrata uma mulher que foi levada a esconder a própria força. A mudança não aconteceu de forma repentina, mas através de palavras apresentadas como proteção e prudência.
Uma mulher ensinada a voar mais baixo
Pedro Chagas Freitas começa por descrever uma figura que nasceu preparada para alcançar grandes alturas, mas acabou convencida a ocupar um espaço menor.
«A MULHER
Era águia
e quis ser canário de sala.
Não aconteceu de um dia
para o outro,
pediram-lhe
que voasse um pouco
mais baixo,
que não abrisse tanto as asas,
faziam sombra,
disseram-lhe
que o céu era um lugar perigoso
para uma ave sozinha.
Ela acreditou.»
Ao longo da publicação, o escritor chama também a atenção para o peso de determinadas palavras. Algumas frases, embora apresentadas como conselhos, podem limitar escolhas e retirar autonomia.
«Há frases
que são gaiolas
vestidas de conselhos.
As penas continuavam lá,
não se lembravam
de que serviam.»
Os elogios que escondem a perda de liberdade
Noutro momento, Pedro Chagas Freitas mostra como a submissão pode ser elogiada por quem observa de fora. A aparente docilidade passa a ser valorizada, apesar de resultar da perda de liberdade.
«Quem a visitava dizia:
“Como é dócil”.
Há elogios
que sabem
a correntes apertadas
no pescoço.»
Contudo, a narrativa muda quando surge uma abertura, ainda que pequena. A janela simboliza a oportunidade de recordar a identidade que existia antes das limitações impostas.
«Até que uma janela
ficou mal fechada.
Não era uma janela grande.
Cabia
a lembrança
daquilo que ela tinha sido.
Foi suficiente.»
«As asas não desaprendem»
Na parte final, o escritor defende que a força não desaparece verdadeiramente. Pode ficar adormecida debaixo das críticas, das imposições e das palavras que classificam a ambição como exagero.
«As asas
não desaprendem,
adormecem
debaixo das palavras
que lhes chamam exagero.»
Pedro Chagas Freitas termina com uma referência às mulheres que passam grande parte da vida a diminuir-se e a pedir desculpa pelo espaço que ocupam.
«E há mulheres
que passam metade da vida
a pedir desculpa
pela altura
a que nasceram destinadas.»
