Pedro Chagas Freitas escreve sobre o luto: «Só o que não é amado morre», considerou o escritor, nas redes sociais.
Pedro Chagas Freitas voltou a escrever sobre a ausência de quem morreu e sobre aquilo que permanece quando já não existe um lugar físico onde encontrar a pessoa amada.
Sem procurar suavizar a dor, o escritor afastou a ideia de que o luto desaparece com o passar dos anos. Para Pedro Chagas Freitas, o tempo pode mudar a forma da ferida, mas não devolve a vida existente antes da perda.
A saudade como amor sem destino
A reflexão começou com uma leitura muito própria da saudade. O autor não a apresentou como um sentimento isolado, mas como a continuação de um amor impedido de chegar fisicamente a quem partiu.
«A saudade não existe.
Existe o que é amado sem um lugar físico para onde caminhar.
O luto é um amor diferente.
O luto não passa.»
Pedro Chagas Freitas descreveu depois um processo sem linearidade. Há fases e mudanças, mas nenhuma delas apaga verdadeiramente aquilo que aconteceu.
«Tem fases, estádios, ciclos. Em todos eles estamos despenhados, derrocados, ruídos, arruinados. Em nenhum deles há um alívio, uma paz, que nos ampare.»
A morte de alguém próximo altera também a forma de olhar para tudo o que continua. O mundo permanece, mas deixa de ser o mesmo porque aquela pessoa já não faz parte dele.
«Quando perdemos alguém que amamos, não voltamos ao que éramos.
O mundo era com aquela pessoa. Sem ela, será outra coisa, outra espécie de mundo.»
A felicidade passa a carregar uma ausência
Na mensagem, o escritor reconheceu que é possível voltar a viver momentos felizes. Contudo, cada alegria pode trazer consigo a consciência de que seria diferente se a pessoa que morreu ainda estivesse presente.
«Deixa de haver a felicidade absoluta. Pode existir felicidade, muita felicidade, mas assim que existe passa a ser saudade. Lembra-nos de como seria bem mais feliz aquela felicidade se aquela pessoa que amamos ali estivesse.»
Por isso, Pedro Chagas Freitas recusou a ideia de um regresso ao ponto anterior. O luto pode transformar-se, mas acompanha quem ficou.
«Ninguém volta de um luto.
O luto não passa.»
Nem mesmo o tempo, tantas vezes apresentado como resposta para a perda, consegue eliminar completamente essa marca.
«O tempo não o apaga. Pode, no máximo, transformá-lo, dar-lhe novas tonalidades, alternar o lugar onde a ferida abre, mas não voltaremos a viver sem aquela ferida, não voltaremos a ver o mundo com os olhos que tínhamos antes.»
«Nada no luto é positivo»
Pedro Chagas Freitas foi ainda mais direto ao rejeitar a procura de um lado positivo numa experiência que considera profundamente destrutiva.
«Nada no luto nos melhora, por mais que por vezes queiramos acreditar nisso.
Nada no luto é positivo.»
O escritor colocou, então, uma pergunta para a qual não apresentou uma resposta simples: como se continua a amar aquilo que deixou de poder ser tocado?
«É mau, horrível, excruciante, dilacerante, e sobretudo desconcertante: o que se faz com o que não temos?»
A resposta possível encontra-se na permanência do amor. O corpo morre, mas aquilo que foi sentido não desaparece com ele.
«Quando chega a morte do corpo, o amor mantém-se. Pode ficar asfixiado, e fica; pode ficar estilhaçado, e fica; pode esbracejar para tentar libertar-se de si mesmo; fica.»
A publicação terminou com uma defesa do amor como elemento capaz de ultrapassar a própria morte.
«A única constante da vida é o amor.
Dizer amor eterno é uma redundância clássica. A eternidade vem do amor.
Só o que não é amado morre.»
