Pedro Chagas Freitas recorda alta hospitalar do filho: “Uma criança doente não tem obrigação de ser herói”

Pedro Chagas Freitas recorda alta hospitalar do filho: “Uma criança doente não tem obrigação de ser herói”, afirmou.

O dia 24 de agosto ficou para sempre associado à saída do filho do hospital. Dois anos depois, Pedro Chagas Freitas regressou a essa data através de uma publicação nas redes sociais, na qual recordou o medo vivido durante o internamento, a incerteza que permaneceu e a felicidade encontrada nas situações mais simples.

“há dois anos o dia mais feliz da minha vida das nossas vidas há dois anos o meu filho saiu do hospital”, escreveu.

A porta que se abriu naquele dia representou o regresso a uma normalidade que, durante meses, parecia pertencer apenas aos outros.

“o medo ocupa muito espaço a porta abriu e ele saiu”, recordou.

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As coisas banais ganharam outro significado

Na publicação, Pedro Chagas Freitas descreveu o impacto de voltar a sentir o ar, observar os carros, ouvir pessoas e experimentar o frio ou o calor.

Tudo aquilo que anteriormente poderia parecer insignificante passou a representar a possibilidade de reconstruir o quotidiano ao lado do filho.

“a felicidade é quase toda feita de coisas miseravelmente banais um filho ao nosso lado uma rua o céu o barulho dos carros a possibilidade de irmos para casa”, escreveu.

O regresso a casa adquiriu um significado particular depois de um período prolongado de internamento.

“durante meses a casa era o lugar onde só os outros podiam estar”, acrescentou.

Embora tenham passado mais de dois anos, o escritor admitiu que as marcas dessa experiência continuam presentes.

“passaram setecentos e muitos dias não os contei mentira há dias em que ainda conto tudo as cicatrizes os comprimidos os sustos as consultas os aniversários as manhãs”, confessou.

Escritor fala sobre o medo de não saber o que acontecerá

A preocupação com o futuro do filho também atravessou a reflexão de Pedro Chagas Freitas, que identificou nas manhãs a expressão mais concreta dessa incerteza.

“nada magoa mais do que não saber quantas manhãs ainda poderão existir agora sei existe esta e basta”, afirmou.

O escritor contestou ainda a ideia de que a experiência o levou simplesmente a valorizar mais a vida.

“disseram-me que dou mais valor à vida que frase idiota a vida não aumentou de valor ficou mais pequena cabe numa mão num abraço numa gargalhada num rapaz a fazer uma coisa qualquer”, escreveu.

Na mesma publicação, explicou que os sons comuns da infância passaram a representar uma forma de tranquilidade.

“ninguém devia precisar de quase perder um filho para descobrir que o barulho de um filho a brincar é uma das formas mais perfeitas do silêncio”, acrescentou.

Pedro Chagas Freitas rejeita chamar heróis às crianças doentes

Ao recordar o período vivido pela família, Pedro Chagas Freitas assumiu também o desconforto perante expressões frequentemente utilizadas para descrever crianças que enfrentam problemas de saúde.

“há palavras que me irritam guerreiro batalha vitória luta herói”, afirmou.

O escritor rejeitou a ideia de que uma criança deva carregar esse tipo de responsabilidade.

“uma criança doente não tem obrigação de ser herói tem apenas o direito de ser criança”, defendeu.

O seu maior desejo passa, agora, por acompanhar o crescimento e o envelhecimento do filho, incluindo as transformações físicas que habitualmente são encaradas como sinais negativos da passagem do tempo.

“quero tempo em cima dele que o envelheça que lhe dê rugas que lhe estrague os joelhos que lhe ponha cabelos brancos que um dia lhe doa a lombar quando se levantar do sofá”, escreveu.

Pedro Chagas Freitas reconheceu que, há dois anos, teria aceitado qualquer condição para poder assistir a esses momentos.

“envelhecer é uma tragédia há tragédias que são privilégios”, acrescentou.

Uma mensagem de gratidão e solidariedade

Na parte final da publicação, o escritor evocou as famílias que não tiveram a mesma possibilidade de regressar a casa com os filhos.

“hoje não quero pedir nada seria indecente sou um sortudo saí com o meu filho pelo braço tantos tantos não tiveram essa sorte”, escreveu, deixando-lhes um abraço.

A mensagem terminou com um agradecimento pela presença do filho e pela possibilidade de partilharem mais um dia.

“ele está aqui eu estou aqui o dia está aqui estamos todos aqui obrigado eis tudo obrigado”, concluiu.

Veja a publicação AQUI.

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