Pedro Chagas Freitas recusa estatuto de guru e assume fragilidades: “Não sou exemplo de nada”, afirmou.
Pedro Chagas Freitas deixou uma reflexão intensa nas redes sociais. O autor afastou a imagem de perfeição, recusou o papel de “guru” e escreveu sobre erros, ataques, fragilidades e a tentativa de continuar a fazer o melhor que consegue.
A publicação, longa e pessoal, parte de uma ideia central: ninguém deve ser colocado num altar. Nem quem escreve. Nem quem expõe pensamentos. Nem quem é seguido por milhares de pessoas.
“Quem sabe tudo mete-me medo”
Logo no início, Pedro Chagas Freitas rejeitou qualquer lugar de superioridade moral. A frase surgiu sem rodeios e marcou o tom do texto.
“Não sou guru. Tenho até alguma, bastante, aversão aos gurus. Quem sabe tudo mete-me medo. Tenho asco ao perfeitinho, ao que nunca erra, ao senhor da sabedoria, ao mestre sentado no altar.”
Depois, o autor foi ainda mais longe. Em vez de construir uma imagem limpa de si próprio, assumiu falhas, erros e momentos menos bons.
“Não sou santo. Estou tão longe de ser um santo. Tenho pecados em mim, tantos pecados em mim. Faço muita merda, erro vezes sem conta. Já magoei, já fui má pessoa, já fiz mal a quem gosto, já senti que fui uma besta.”
A confissão não aparece como pedido de desculpa público. Surge antes como uma tentativa de desmontar a ideia de exemplo absoluto.
“Não sou exemplo de nada. Faço o que posso, esbracejo o que consigo. Tento. É isso: tento. Acho que é o melhor que posso fazer.”
Escrever sem rótulos
Na mesma publicação, Pedro Chagas Freitas também falou da escrita. E fê-lo sem a fechar numa definição rígida.
“Escrevo para saber quem sou. Não sei o que é o que escrevo. Estou-me nas tintas para saber o que é o que escrevo. Não lhe coloco etiqueta.”
Ainda assim, explicou que aquilo que escreve nasce de lugares diferentes. Uns mais racionais. Outros mais viscerais.
“Não sei se é bom, se é mau, se vai durar muito, se não vale nada. É o que escrevo, o que sei escrever, o que vem das vísceras como vem da cabeça, o que vem da guerra como vem do abraço, o que vem do que tenho em mim, do que sou em mim.”
A seguir, regressou à ideia principal. Não quer ser visto como mestre, santo ou exemplo. Apenas como alguém em esforço.
“Não sou guru, nem santo, nem exemplo, nem nada. Sou alguém que faz o melhor que pode com aquilo que pode. Sei que os outros fazem o mesmo. Acredito que todos os outros fazem o mesmo.”
Os ataques, a dor e a tentativa de compreender
Pedro Chagas Freitas abordou também a forma como lida com quem o ataca. Não romantizou a dor, mas afastou a vontade de responder com agressividade.
“Quando me atacam, não dou a outra face; tento só olhar para os olhos de quem o faz, saber de onde vem, não entender o ataque como maldade; é só alguém a tentar, como eu.”
Porém, o autor admitiu que isso não significa imunidade. As críticas e os ataques também deixam marcas.
“Pode magoar-me, claro. A mim não me fizeram de aço; fizeram-me de veias, de sangue, de dores, de sensações, de sentimentos.”
Mais adiante, escreveu sobre a forma como os outros projectam nele aquilo que também carregam.
“Às vezes magoam-me com o que vêem em mim. Custa, claro que custa. Ficamos amassados, amolgados. Estamos todos amassados, não estamos? Sei muito sobre as pessoas por aquilo que vêem em mim.”
“Eu gosto tanto de pessoas”
Apesar da dureza de algumas palavras, a publicação fecha-se numa tentativa de reconciliação. Pedro Chagas Freitas escreveu que não quer devolver dor a quem o fere.
“Não tentarei magoar de volta, Deus me livre. Tentarei amá-las no interior do que dizem; tentarei saber que são pessoas a ser pessoas. Eu gosto tanto de pessoas.”
A reflexão passou também pelo tempo em que queria agradar a todos. Segundo escreveu, a vida mudou essa relação com a necessidade de aprovação.
“Já me levei a sério. Já quis que todos me amassem, que todos gostassem do que eu faço. Depois a vida deu-me o medo absoluto e já nem sei quem era.”
No final, o autor deixou uma mensagem de pacificação, mesmo perante quem o atinge.
“Não tenho ódio, não tenho raiva, inveja, nem sequer vontade de ferir quem me fere. Não tenho mesmo. Abraço todos, todos, até quem me lança pedras com uma força que não consigo entender. Abraço todos. Façam o mesmo. Sabe tão bem, porra.”
A publicação de Pedro Chagas Freitas ganhou força precisamente por não tentar parecer exemplar. Pelo contrário, expõe imperfeições, dúvidas e feridas. E, no meio disso, deixa uma ideia simples: talvez ninguém seja guru de ninguém. Talvez todos estejam apenas a tentar.
Veja a publicação AQUI.

