Pedro Chagas Freitas rejeita a “melhor versão”, elogia Romana e propõe a “bondança”

Pedro Chagas Freitas rejeita a “melhor versão”, elogia Romana e propõe a “bondança”, através das redes sociais.

Pedro Chagas Freitas partilhou três novos textos nas redes sociais, centrados em temas distintos, mas ligados à forma como cada pessoa se relaciona consigo e com os outros.

Numa primeira reflexão, o escritor rejeitou a procura permanente pela chamada “melhor versão” de cada um. Depois, assinalou o aniversário de Romana com uma homenagem à voz e ao percurso da cantora.

Já no terceiro texto, Pedro Chagas Freitas apresentou o conceito de “bondança”. Trata-se de uma resposta à raiva através de pequenos gestos de bondade no quotidiano.

“Não quero salvar o mundo”

Na primeira publicação, o autor começou por refletir sobre a impossibilidade de controlar muitos dos acontecimentos que marcam a vida coletiva e pessoal.

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“Não podes mexer em quase nada daquilo que importa no mundo. Não controlas a estupidez alheia, a ganância sistémica. Não mexes na guerra, na tristeza escondida nos olhos de quem amas.”

Perante essa falta de controlo, Pedro Chagas Freitas destacou aquilo que cada pessoa ainda pode transformar.

“Podes mexer em ti.”

O escritor explicou depois que deixou de procurar soluções grandiosas ou uma versão idealizada de si próprio.

“Já me deixei de merdas. Não quero salvar o mundo; quero não me perder em mim. Quero melhorar-me. Não quero ser ‘a melhor versão de mim mesmo’, que frase idiota, fabricada por quem vende coaching ao quilo.”

Pedro Chagas Freitas quer aceitar todas as suas versões

Em vez de procurar apenas aquilo que considera positivo, o autor defendeu a aceitação das diferentes facetas de uma pessoa, incluindo as falhas e os momentos de maior fragilidade.

“Quero ser todas as versões de mim mesmo: o miserável e o luminoso; o que ama bem e o que falha feio. Quero abraçar os dias em que sou herói e os em que sou só ruína com dentes; quero aceitar-me como se aceita um filho que partiu um vaso.”

A reflexão terminou com uma ideia sobre coragem e sobre a dificuldade de aceitar aquilo que se é.

“A coragem não está em ser melhor; está em não fugir do que se é, sobretudo quando se é pouco.”

Por fim, deixou uma pergunta aos seguidores:

“E não somos sempre pouco?”

A publicação foi associada pelo autor ao livro O Hospital de Alfaces, apresentado como estando “disponível em todos os hipermercados e livrarias”.

Romana homenageada no dia de aniversário

Noutra publicação, Pedro Chagas Freitas assinalou o aniversário de Romana e começou por destacar a qualidade vocal da artista.

“Hoje a Romana faz anos.”

O escritor lamentou que a cantora continue a ser frequentemente reduzida ao género musical que interpreta, sem que a sua voz receba o devido reconhecimento.

“Que grande voz é a dela, não é? E não a olham assim, não a veem assim. É só aquela que canta música pimba. Que patetice, que injustiça.”

Pedro Chagas Freitas recordou ainda uma ocasião em que ouviu Romana cantar ao vivo, sem os recursos habituais de uma produção televisiva ou musical.

“Uma vez ouvi-a cantar, a poucos metros de mim, sem filtros, sem produção. Fiquei arrepiado. Nela, a música nasceu antes das elites, antes de alguém decidir que havia géneros nobres e géneros menores.”

“Impressiona-me mais quem emociona”

A homenagem prosseguiu com uma crítica à desvalorização de determinados géneros e artistas por parte de quem estabelece divisões entre uma música considerada respeitável e outra vista como menor.

“Não tenho paciência para preconceitos elegantes, para arrogâncias bem vestidas. Impressiona-me mais quem emociona do que quem impressiona. Quando é que deixámos de colocar a mediocridade à frente do talento só porque o talento nasceu no lugar ‘errado’?”

Pedro Chagas Freitas destacou depois a persistência de Romana, que continuou a cantar apesar das críticas e dos preconceitos enfrentados ao longo da carreira.

“Hoje dou os meus parabéns à miúda que continuou a cantar apesar de tantos narizes torcidos, à mulher que não precisa de pedir autorização aos salões da respeitabilidade para continuar a ser quem é.”

O escritor terminou a mensagem com um agradecimento e um incentivo dirigido à aniversariante.

“Obrigado, Romana, por teres uma voz que envergonha preconceitos. Que nunca a coragem te falte.”

“Canta, canta.”

“Parabéns.”

A “bondança” como resposta à raiva

No terceiro texto, Pedro Chagas Freitas dirigiu-se a quem se sente zangado com a vida. Em vez de pedir que essa emoção seja ignorada, reconheceu a sua origem e os riscos que pode trazer.

“Não vou pedir-te que deixes de estar zangado. Desconfio de quem nunca esteve. Quando o mundo nos trata mal, começamos a desejar que alguém pague a conta. É humano, e é perigoso.”

Em seguida, o autor apresentou uma ideia a que deu o nome de “bondança”.

“Quero propor-te uma vingança que eu inventei: a bondança.”

A proposta assenta numa única regra: responder a cada dificuldade com um gesto de bondade dirigido a outra pessoa.

Pequenos gestos para contrariar a dor

Pedro Chagas Freitas enumerou várias ações simples que podem ser aplicadas no dia a dia, sem a necessidade de grandes recursos ou mudanças.

“Tem uma regra só: por cada vez que a vida te atirar merda para cima, faz um acto de bondade: deixa passar um carro quando tens toda a pressa, agradece ao enfermeiro, dá os bons dias primeiro, sorri ao empregado que acabou de levar com a arrogância do cliente anterior, escreve uma mensagem apenas para dizer ‘lembrei-me de ti’, faz um elogio que não te traga vantagem nenhuma, escuta alguém sem o interromperes para falar de ti, apanha um papel do chão que não foste tu quem atirou, faz uma festa ao cão que se cruza contigo, perdoa uma pequena falha sem a transformares numa sentença perpétua.”

Segundo o escritor, a repetição desses comportamentos pode alterar a forma como cada pessoa responde às adversidades.

“Se praticares a bondança, vais ver a cabra da vida desnorteada.”

“O ódio é um excelente demolidor”

Na parte final do texto, Pedro Chagas Freitas refletiu sobre a incapacidade do ódio e da vingança para construírem uma alternativa àquilo que foi destruído.

“O ódio é um excelente demolidor e um péssimo arquitecto. A vingança é uma forma de impotência. Se precisas de destruir alguém para respirar, estás preso: precisas de pedir autorização à tua ferida para decidir quem és.”

Depois, voltou a incentivar os seguidores a colocarem o conceito em prática.

“Vai: vai praticar a bondança, vai, vai, vai, vai.”

A publicação terminou com uma frase sobre a possibilidade de a dor passar a definir o comportamento de quem foi atingido por ela.

“Se a dor te transformou num merdas, então foi a dor que ganhou.”

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