Receitas de família em risco de desaparecer? Universidade de Coimbra cria aplicação para preservar memórias

Receitas de família em risco de desaparecer? Universidade de Coimbra cria aplicação para preservar memórias, revelou em comunicado.

O caderno de receitas da avó pode guardar ingredientes e quantidades, mas nem sempre conta quem ensinou a preparar um prato ou em que ocasiões chegava à mesa. Preservar também essas histórias é o objetivo da Family Food Heritage, uma aplicação cujo desenvolvimento é liderado pela Universidade de Coimbra e que permite reunir receitas, fotografias, documentos e memórias familiares.

Na véspera do Dia Mundial da Alimentação, assinalado a 16 de outubro, a universidade chama a atenção para o património que se perde quando deixa de haver quem transmita um modo de cozinhar ou explique a origem de uma receita. Num comunicado de imprensa divulgado esta quinta-feira, 15 de outubro, apresenta a aplicação como uma ferramenta para ligar a alimentação às pessoas e aos lugares que fazem parte da história de cada família.

“Aquilo que comemos não começa em nós”

Carmen Soares, investigadora e coordenadora científica do Centro de Estudos Clássicos e Humanísticos da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, sublinha que a aprendizagem dos sabores começa muito antes de uma receita ser registada.

“Aquilo que comemos não começa em nós. O nosso gosto é aprendido e muitas das receitas que hoje fazem parte da nossa vida chegaram-nos através de pessoas, gestos e memórias familiares. Mas também não somos apenas guardiões dessa herança: transformamo-la e criamos aquilo que vamos deixar às próximas gerações. A Family Food Heritage permite usar as ferramentas do nosso tempo para preservar um património vivo que, de outra forma, corre o risco de desaparecer”, explica a investigadora, citada no comunicado.

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É essa transmissão, muitas vezes feita através da observação e da repetição, que a aplicação procura documentar. Além de guardar uma receita, os utilizadores podem identificar quem a ensinou e explicar como chegou à família.

Uma receita pode estar ligada a várias pessoas e lugares

Segundo a Universidade de Coimbra, a Family Food Heritage permite indicar se uma receita foi aprendida oralmente, por escrito ou através da observação, associando-a a diferentes pessoas e locais.

A aplicação inclui também um modo memorial, que possibilita integrar familiares já falecidos como transmissores de receitas e conhecimentos. Desta forma, o registo de um prato pode preservar a memória de quem o preparava e dos gestos que ensinou às gerações seguintes.

A plataforma reúne já famílias de países como Portugal, Brasil e Noruega, refere o comunicado, acompanhando a forma como as receitas atravessam fronteiras e se alteram ao longo dos percursos familiares.

Inteligência artificial ajuda a recuperar cadernos manuscritos

Os antigos cadernos de cozinha também podem ser integrados no arquivo digital. Através de inteligência artificial, a aplicação permite fotografar uma receita manuscrita e extrair automaticamente o texto.

Depois dessa transcrição, o utilizador pode corrigir o conteúdo e acrescentar fotografias, memórias e informação sobre a origem da receita. A funcionalidade procura facilitar a preservação de registos em papel, mantendo espaço para completar aquilo que nunca chegou a ser escrito.

Projeto europeu reúne 20 instituições de sete países

O desenvolvimento da Family Food Heritage é liderado pela Universidade de Coimbra, através do Centro de Estudos Clássicos e Humanísticos, no âmbito do CONVIVIUM – New European Bauhaus Solutions in Food, Living Heritage and Conviviality.

Coordenado pela mesma universidade, o projeto europeu reúne 20 instituições de sete países. A aplicação foi desenvolvida com uma abordagem de ciência cidadã, envolvendo cidadãos na identificação do que deveria ser preservado e na definição de como a tecnologia poderia apoiar essa transmissão.

A Family Food Heritage está disponível para iPhone e Android, com acesso através de familyfoodheritage.eu.

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