Porta Grande: Duarte Fernandes recebeu a alternativa e conquistou o Campo Pequeno

Porta Grande: Duarte Fernandes recebeu a alternativa e conquistou o Campo Pequeno, na noite de ontem, com lotação esgotada.

Texto: Rui Lavrador
Fotografias: Diogo Nora

Duarte Fernandes entrou no Campo Pequeno de casaca champanhe e ouro para receber das mãos do tio aquilo por que trabalhou durante anos. Saiu algumas horas depois com três voltas à arena, uma praça rendida e uma alternativa que dificilmente poderia ter começado de forma mais categórica.

O cartaz da segunda corrida da temporada lisboeta estava construído em torno do jovem cavaleiro da Caparica e o público respondeu com nova lotação esgotada. Rui Fernandes assumiu o papel de padrinho, Diego Ventura foi testemunha e os touros pertenciam a Maria Guiomar Cortes de Moura. Tudo estava preparado para que 6 de agosto ficasse na carreira de Duarte pela cerimónia. Ficará, sobretudo, pelo que aconteceu depois dela.

Antes das cortesias foi respeitado um minuto de silêncio em memória de António José Zuzarte, antigo forcado da formação de Montemor.

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Champanhe e ouro para uma alternativa sem timidez

Rui Fernandes cedeu ao sobrinho o primeiro lugar da ordem de lide e formalizou a alternativa perante Diego Ventura. Duarte brindou ao avô e ao tio, ambos Rui Fernandes, antes de enfrentar um touro de 592 quilos, de nome Triunfador, que lhe abriu a porta para uma atuação de grande impacto.

Não houve qualquer período de adaptação à nova condição.

Depois dos compridos, Duarte começou a mostrar aquilo que já vinha deixando perceber antes desta noite: facilidade em chegar aos terrenos do touro, sentido de espetáculo e uma forma muito própria de prolongar a sorte depois da reunião.

O touro permitiu, naturalmente, mas foi preciso aproveitá-lo.

Nos curtos, Duarte conseguiu momentos especialmente fortes mesmo com o adversário próximo das tábuas. As saídas das sortes, marcadas por ladeios, foram aumentando a comunicação com as bancadas e a atuação ganhou dimensão à medida que avançava.

As duas últimas curtas antecederam uma sucessão de piruetas muito apertadas, executadas já com o Campo Pequeno completamente dentro da lide. A primeira volta como cavaleiro de alternativa estava conquistada.

Na pega, Luís Canto Moniz, cabo dos Forcados do Aposento da Moita, brindou precisamente a Duarte Fernandes e fechou-se com eficácia ao primeiro intento. Deu volta.

Aos 28 anos de alternativa, Rui Fernandes não precisou de facilidades

A coincidência tinha peso. Rui Fernandes cumpria naquele mesmo dia 28 anos sobre a sua alternativa e ouviu, antes da lide, palavras alusivas ao percurso que construiu ao longo de quase três décadas. Seguidamente, tocou-se o ‘Parabéns a Você’ pela banda do Samouco.

O touro, com 590 quilos, não participou na celebração.

Pouco pronto, curto nas respostas e obrigando a sucessivas chamadas, deixou grande parte do trabalho nas mãos do cavaleiro. Rui Fernandes não tentou esconder as limitações do adversário através de uma aceleração artificial da lide. Trabalhou-o.

Foi provocando as arrancadas, aproximando-o dos terrenos que lhe interessavam e compondo uma atuação na qual o conhecimento teve mais peso do que qualquer efeito fácil.

A Banda Musical do Samouco tocou o pasodoble Rui Fernandes enquanto o cavaleiro construía uma lide que acabou premiada com volta.

O brinde foi para o pai e para Duarte Fernandes, numa corrida em que a componente familiar esteve presente sem necessitar de ser constantemente sublinhada.

Morais Rocha, dos Amadores de Turlock, teve pela frente uma pega mais trabalhosa. Depois de brindar a Duarte, concretizou à quarta tentativa. A volta não foi autorizada.

Diego Ventura procurou aquilo que o touro não lhe quis dar

Ao terceiro saiu Diego Ventura.

O primeiro touro do seu lote, com 620 quilos, mostrou cedo pouca vontade de colaborar. Reservado e com escassa entrega, obrigou o rejoneador a procurar quase permanentemente uma reação que raramente apareceu com a intensidade necessária.

Nómada e Quitasueños foram as montadas utilizadas numa lide em que Ventura trabalhou bem de início e procurou movimentar o touro, sem nunca conseguir encontrar a continuidade que normalmente alimenta o seu conceito.

Houve brega a duas pistas e houve tentativas de aumentar o risco através de aproximações mais curtas. O problema manteve-se sempre o mesmo: a emoção era pedida pelo cavaleiro e recusada pelo touro.

A volta foi autorizada, mas Diego Ventura não a deu.

António Lopes Cardoso, pelo Aposento da Moita, concretizou a terceira pega da noite à segunda tentativa e saudou.

Rui Fernandes teve de pensar cada metro da arena

O quarto touro pesava 670 quilos e não oferecia uma leitura imediata. Foi provavelmente aí que melhor se percebeu a corrida de Rui Fernandes.

O cavaleiro não encontrou um animal franco, mas encontrou matéria para trabalhar. Fê-lo demoradamente, sem precipitações, percebendo onde devia colocá-lo e quanto podia exigir em cada momento.

As sortes nasceram dessa preparação. Não de uma sucessão de ferros desligados entre si, mas de uma lide pensada para retirar progressivamente do touro aquilo que ele ainda tinha para oferecer.

Houve bons momentos de brega a duas pistas e, já no final, um primeiro meio par de bandarilhas que não ficou como Rui Fernandes pretendia. Voltou aos terrenos do touro e corrigiu-o com outro de execução muito superior. Foi uma atuação de cavaleiro feito, consciente dos tempos e das distâncias, numa noite em que a experiência falou com particular clareza.

Antes da lide, Rui Fernandes brindou a António Ventura e ao seu apoderado, Andrés Caballero. No final, voltou a percorrer a arena, numa volta bastante aclamada pelo público.

Joey Ferreira, dos Amadores de Turlock, não prolongou a discussão na pega: primeira tentativa e volta.

O segundo de Ventura voltou a fechar-lhe caminhos

Também o quinto touro, de 554 quilos, não se apresentou como parceiro particularmente generoso para Diego Ventura.

A receção teve bons momentos e o rejoneador tentou desde cedo definir a lide, mas a passagem pelas bandarilhas não alcançou a regularidade habitual no seu toureio. Ventura insistiu sem transformar a atuação numa procura desesperada do aplauso. Montando Bronce, encerrou sem cabeçada e recebeu autorização para volta, que novamente recusou.

Foram duas lides abaixo da dimensão que o público associa ao seu nome, mas também duas atuações fortemente condicionadas pelas características dos touros que lhe saíram em sorte.

André Silva representou o Aposento da Moita na quinta pega e resolveu à primeira tentativa. Apesar de autorizado a dar volta, ficou-se pela saudação.

Faltava o sexto. Duarte Fernandes não deixou dúvidas

O primeiro touro tinha permitido muito. Por isso, o sexto era importante.

Era aí que Duarte Fernandes podia confirmar que a dimensão da sua alternativa não se explicava apenas por ter encontrado um adversário particularmente propício no início da corrida. Confirmou.

Com 644 quilos pela frente, Duarte mostrou outra vez decisão nos compridos e cresceu quando chegou aos curtos. Atacou o touro, encurtou distâncias e procurou reuniões com maior compromisso.

Alguns ferros, com batida ao piton contrário, tiveram especial impacto pela forma como o cavaleiro entrou na cara do touro e conseguiu resolver a reunião. Já com o público completamente entregue, surgiram dois palmos de violino.

O Campo Pequeno levantou-se. E pediu outro.

Duarte Fernandes ouviu a praça, voltou ao touro e cravou novamente. Não era necessário para justificar o triunfo, mas disse bastante sobre a disposição com que viveu a noite: não se contentou com aquilo que já tinha conquistado. As duas voltas à arena após esta lide confirmou-o como triunfador inequívoco da corrida.

Fábio Vieira fechou a participação dos Amadores de Turlock com uma pega à primeira tentativa. Teve volta autorizada, mas não a percorreu.

O apelido recebeu continuidade. Duarte levou o resto por conta própria

Ser sobrinho de Rui Fernandes colocou inevitavelmente Duarte no centro de comparações desde cedo. O apelido abre referências, histórias e expectativas, mas não crava ferros por ninguém.

No Campo Pequeno, o novo cavaleiro de alternativa tratou dessa parte. Rui Fernandes esteve num plano estético, tremendista, voltando a reforçar o seu conceito de toureio, que o torna num cavaleiro extremamente importante. Aos 28 anos de alternativa, mostrou duas vezes como se resolve uma corrida quando o touro obriga a pensar antes de executar.

Diego Ventura teve a noite menos agradecida. Procurou, tentou modificar terrenos e distâncias, mas os dois exemplares do seu lote nunca lhe ofereceram a transmissão de que o seu toureio necessita para atingir outra dimensão.

A ganadaria de Maria Guiomar Cortes de Moura apresentou um conjunto desigual em comportamento e com pesos entre os 554 e os 670 quilos.

Nas pegas, o Aposento da Moita esteve representado por Luís Canto Moniz, António Lopes Cardoso e André Silva. Pelos Amadores de Turlock pegaram Morais Rocha, Joey Ferreira e Fábio Vieira.

A Banda Musical do Samouco acompanhou as lides e voltas com um repertório que passou por España Cañí, Rui Fernandes, Corazón Hispano, Amparito Roca, Ayamonte, Ecos Españoles, Paquito Chocolatero, Torero Calle e La Puerta Grande.

Talvez este último título tenha sido o mais adequado para fechar a corrida. Porque Duarte Fernandes entrou no Campo Pequeno para receber uma alternativa.

E saiu pela porta que realmente interessa a um toureiro: a que é aberta pelo que faz diante do touro.

Noite de festa, com ambiente extraordinário e com a certeza de que Duarte Fernandes veio para triunfar fortemente.

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