Rodrigo Castelo entregou pasodoble ao Aposento da Moita: “Passei aqui os melhores momentos da minha vida”

Rodrigo Castelo entrega pasodoble ao Aposento da Moita: “Passei aqui os melhores momentos da minha vida”, disse em entrevista.

Fotografia e Entrevista: Diogo Nora
Texto: Rui Lavrador

Assim, Rodrigo Castelo, chef e antigo forcado do Aposento da Moita, ofereceu ao grupo a partitura de um pasodoble antes da corrida realizada na Moita.

𝗨𝗺 𝗴𝗲𝘀𝘁𝗼 𝗰𝗼𝗺 𝗽𝗲𝘀𝗼 𝗮𝗻𝘁𝗲𝘀 𝗱𝗮 𝗰𝗼𝗿𝗿𝗶𝗱𝗮 𝗻𝗮 𝗠𝗼𝗶𝘁𝗮

Antes da corrida de touros realizada no passado domingo, na Moita, houve um momento que não pertenceu apenas ao protocolo. Pertenceu à memória.

Rodrigo Castelo, conceituado chef e antigo forcado do Grupo de Forcados Amadores do Aposento da Moita, entregou ao grupo a partitura de um pasodoble dedicado ao Aposento.

Foi um gesto simbólico, mas com raiz funda. Não nasceu de circunstância. Nasceu de uma ligação antiga ao grupo, à terra e a uma forma de viver a tauromaquia por dentro.

Rodrigo Castelo vestiu a jaqueta do Aposento da Moita durante 11 anos. E, na hora de explicar a oferta, deixou claro que este não foi apenas um acto de homenagem. Foi também uma forma de devolver ao grupo parte do que recebeu.

𝗖𝗼𝗺𝗼 𝘀𝘂𝗿𝗴𝗶𝘂 𝗮 𝗶𝗱𝗲𝗶𝗮 𝗱𝗼 𝗽𝗮𝘀𝗼𝗱𝗼𝗯𝗹𝗲

Questionado pelo Infocul sobre a origem da ideia, Rodrigo Castelo explicou que tudo começou no ano passado, no contexto das comemorações dos 50 anos do Aposento da Moita.

𝗔 𝗶𝗱𝗲𝗶𝗮 𝗷á 𝘀𝘂𝗿𝗴𝗶𝘂 𝗼 𝗮𝗻𝗼 𝗽𝗮𝘀𝘀𝗮𝗱𝗼 𝗰𝗼𝗺 𝗮 𝗰𝗼𝗺𝗲𝗺𝗼𝗿𝗮çã𝗼 𝗱𝗼𝘀 𝟱𝟬 𝗮𝗻𝗼𝘀. 𝗙𝗼𝗿𝗮𝗺 𝟭𝟭 𝗮𝗻𝗼𝘀 𝗾𝘂𝗲 𝗲𝘂 𝘃𝗲𝘀𝘁𝗶 𝗮 𝗷𝗮𝗾𝘂𝗲𝘁𝗮 𝗱𝗼 𝗔𝗽𝗼𝘀𝗲𝗻𝘁𝗼 𝗱𝗮 𝗠𝗼𝗶𝘁𝗮 𝗲 𝗽𝗮𝘀𝘀𝗲𝗶 𝗮𝗾𝘂𝗶 𝗼𝘀 𝗺𝗲𝗹𝗵𝗼𝗿𝗲𝘀 𝗺𝗼𝗺𝗲𝗻𝘁𝗼𝘀 𝗱𝗮 𝗺𝗶𝗻𝗵𝗮 𝘃𝗶𝗱𝗮. 𝗣𝗮𝘀𝘀𝗮𝗿𝗮𝗺-𝗺𝗲 𝗮𝗾𝘂𝗶 𝘁𝗮𝗺𝗯é𝗺 𝗴𝗿𝗮𝗻𝗱𝗲𝘀 𝘃𝗮𝗹𝗼𝗿𝗲𝘀.

A frase ajuda a perceber a dimensão do gesto. Para Rodrigo Castelo, o Aposento não foi apenas um grupo por onde passou. Foi uma escola de vida, de valores e de pertença.

Por isso, a oferta da partitura surge como continuidade natural dessa relação.

𝗘 𝘀𝗶𝗻𝘁𝗼-𝗺𝗲 𝘀𝗲𝗺𝗽𝗿𝗲 𝗻𝗮 𝗼𝗯𝗿𝗶𝗴𝗮çã𝗼 𝗱𝗲 𝗱𝗮𝗿, 𝗱𝗲 𝗽𝗮𝘀𝘀𝗮𝗿 𝗮𝗹𝗴𝗼, 𝘃𝗼𝗹𝘁𝗮𝗿 𝗮 𝗽𝗮𝘀𝘀𝗮𝗿 𝗮𝗹𝗴𝗼 𝗮𝗼 𝗴𝗿𝘂𝗽𝗼.

𝗨𝗺 𝗽𝗮𝘀𝗼𝗱𝗼𝗯𝗹𝗲 𝗾𝘂𝗲 𝗳𝗶𝗰𝗮 𝗽𝗮𝗿𝗮 𝗮 𝗵𝗶𝘀𝘁ó𝗿𝗶𝗮 𝗱𝗼 𝗴𝗿𝘂𝗽𝗼

A ideia ganhou forma porque havia uma ausência identificada: o Aposento da Moita não tinha um pasodoble próprio.

Rodrigo Castelo recordou que o processo envolveu conversas com várias pessoas ligadas ao grupo, entre antigos e actuais responsáveis, até chegar à concretização da peça musical.

𝗠𝗮𝘀 𝗻ó𝘀 𝗻ã𝗼 𝘁í𝗻𝗵𝗮𝗺𝗼𝘀 𝘂𝗺 𝗽𝗮𝘀𝗼𝗱𝗼𝗯𝗹𝗲. 𝗙𝗮𝗹𝗮𝗻𝗱𝗼 𝘁𝗮𝗺𝗯é𝗺 𝗰𝗼𝗺 𝗼 𝗮𝗻𝘁𝗶𝗴𝗼 𝗰𝗮𝗯𝗼 𝗲 𝗰𝗼𝗺 𝗼 𝗮𝘁𝘂𝗮𝗹 𝗰𝗮𝗯𝗼, 𝗰𝗼𝗺 𝗼 𝗟𝘂í𝘀. 𝗙𝗼𝗶 𝗶𝗻𝘁𝗲𝗿𝗲𝘀𝘀𝗮𝗻𝘁𝗲, 𝗳𝗼𝗶 𝘂𝗺𝗮 𝘁𝗿𝗮𝗻𝘀𝗶çã𝗼 𝘁𝗮𝗺𝗯é𝗺.

Depois, o projecto avançou com o contributo de António Silva, músico que compôs o pasodoble.

𝗗𝗲𝗽𝗼𝗶𝘀 𝗰𝗼𝗺 𝗼 𝗔𝗻𝘁ó𝗻𝗶𝗼, 𝗾𝘂𝗲𝗺 𝗳𝗲𝘇 𝗼 𝗽𝗮𝘀𝗼𝗱𝗼𝗯𝗹𝗲, 𝗳𝗶𝘇𝗲𝗺𝗼𝘀 𝗼 𝗽𝗮𝘀𝗼𝗱𝗼𝗯𝗹𝗲 𝗲 𝗳𝗮𝗹á𝗺𝗼𝘀 𝗰𝗼𝗺 𝗼 𝗲𝗺𝗽𝗿𝗲𝘀á𝗿𝗶𝗼 𝗱𝗮 𝗠𝗼𝗶𝘁𝗮 𝗲 𝗰𝗼𝗺 𝗮 𝗯𝗮𝗻𝗱𝗮.

A entrega da partitura, feita antes da corrida, teve assim o sentido de uma peça que passa a integrar o património afectivo do Aposento da Moita.

Num grupo de forcados, a memória não se guarda apenas em fotografias antigas, jaquetas ou chamadas de praça. Também pode ficar numa partitura. Numa música que, a partir de agora, leva o nome do grupo e o devolve à arena com outro peso.

𝗗𝗮 𝘁𝗮𝘂𝗿𝗼𝗺𝗮𝗾𝘂𝗶𝗮 à 𝗴𝗮𝘀𝘁𝗿𝗼𝗻𝗼𝗺𝗶𝗮, 𝘂𝗺𝗮 𝗹𝗶𝗴𝗮çã𝗼 𝗾𝘂𝗲 𝘃𝗲𝗺 𝗱𝗲 𝗳𝗮𝗺í𝗹𝗶𝗮

Rodrigo Castelo é hoje um nome consolidado na gastronomia portuguesa. No entanto, a tauromaquia continua a fazer parte da sua identidade.

Questionado sobre a forma como estas duas paixões surgiram, não hesitou em apontar à família.

𝗜𝘀𝘁𝗼 𝘃𝗲𝗺 𝗱𝗲 𝗳𝗮𝗺í𝗹𝗶𝗮. 𝗢 𝗺𝗲𝘂 𝗽𝗮𝗶 𝗳𝗼𝗶 𝗳𝗼𝗿𝗰𝗮𝗱𝗼, 𝗼 𝗺𝗲𝘂 𝗮𝘃ô 𝗳𝗼𝗶 cavaleiro 𝗮𝗺𝗮𝗱𝗼𝗿. 𝗘 𝗽𝗿𝗼𝗻𝘁𝗼, 𝗲𝘂 𝗻𝗮𝘀𝗰𝗶 𝗻𝗲𝘀𝘁𝗲 𝗺𝗲𝗶𝗼.

Depois, resumiu essa pertença com uma expressão muito própria de quem sabe que há mundos dos quais nunca se sai totalmente.

𝗘 𝗾𝘂𝗮𝗻𝗱𝗼 𝘀𝗲 𝗻𝗮𝘀𝗰𝗲 𝗱𝗲𝗻𝘁𝗿𝗼 𝗱𝗮 𝘁𝗮𝘂𝗿𝗼𝗺𝗮𝗾𝘂𝗶𝗮, é 𝗶𝗺𝗽𝗼𝘀𝘀í𝘃𝗲𝗹, 𝗻ã𝗼 𝘀𝗲 𝘀𝗮𝗶. 𝗡𝗮𝘀𝗰𝗲𝘀 𝘃𝗮𝗰𝗶𝗻𝗮𝗱𝗼. 𝗘 𝗲𝗻𝘁ã𝗼 𝗮𝘀𝘀𝗶𝗺 𝗳𝗼𝗶.

A imagem é forte e simples. “Nasces vacinado” diz quase tudo. Não é apenas gosto. É ambiente, educação, herança e convívio.

No caso de Rodrigo Castelo, essa matriz tauromáquica convive com a exigência da cozinha. Ambas pedem disciplina. Ambas pedem respeito pela tradição. Ambas pedem capacidade de trabalhar todos os dias para fazer melhor.

𝗡𝗮 𝗰𝗼𝘇𝗶𝗻𝗵𝗮, 𝗮 𝗺𝗲𝘀𝗺𝗮 𝗶𝗱𝗲𝗶𝗮 𝗱𝗲 𝗲𝘅𝗶𝗴ê𝗻𝗰𝗶𝗮

Na parte final da conversa, o Infocul quis saber que novidades podem surgir na área da gastronomia. Rodrigo Castelo não avançou projectos concretos. Preferiu responder com uma ideia de método.

𝗡ã𝗼, 𝗻ã𝗼. É 𝘁𝗿𝗮𝗯𝗮𝗹𝗵𝗮𝗿 𝘁𝗼𝗱𝗼𝘀 𝗼𝘀 𝗱𝗶𝗮𝘀 𝗽𝗮𝗿𝗮 𝘀𝗲𝗿 𝘂𝗺 𝗯𝗼𝗰𝗮𝗱𝗶𝗻𝗵𝗼 𝗺𝗲𝗹𝗵𝗼𝗿 𝗱𝗼 𝗾𝘂𝗲 𝗼 𝗱𝗶𝗮 𝗮𝗻𝘁𝗲𝗿𝗶𝗼𝗿. 𝗘 é 𝘀ó 𝗶𝘀𝘀𝗼, é 𝘀𝗲𝗿 𝗰𝗼𝗺𝗽𝗲𝘁𝗶𝘁𝗶𝘃𝗼.

A resposta podia vir de um chef. Mas também podia vir de um forcado.

Porque há uma continuidade evidente entre os dois mundos. A cozinha, como a arena, não permite descanso na reputação. O que se fez ontem não chega para amanhã. É preciso voltar, corrigir, afinar, insistir.

Rodrigo Castelo parece olhar para a gastronomia com essa mesma ética de praça: entrar todos os dias para fazer melhor.

𝗨𝗺𝗮 𝗼𝗳𝗲𝗿𝘁𝗮 𝗾𝘂𝗲 𝗱𝗲𝘃𝗼𝗹𝘃𝗲 𝗮𝗼 𝗴𝗿𝘂𝗽𝗼 𝗽𝗮𝗿𝘁𝗲 𝗱𝗼 𝗾𝘂𝗲 𝗼 𝗴𝗿𝘂𝗽𝗼 𝗱𝗲𝘂

A entrega da partitura do pasodoble ao Aposento da Moita foi, acima de tudo, um gesto de retribuição.

Rodrigo Castelo não falou como alguém de fora que quis homenagear um grupo. Falou como alguém de dentro, mesmo já não vestindo a jaqueta. Falou como quem recebeu valores, viveu momentos decisivos e sente que deve devolver algo à casa onde cresceu como homem e forcado.

Num domingo de corrida na Moita, antes dos touros, das lides e das pegas, houve uma partitura entregue.

E uma partitura, neste contexto, é mais do que papel com notas. É memória organizada. É homenagem que pode voltar a soar. É uma forma de dizer que os grupos também se perpetuam através dos gestos que lhes são dedicados.

O pasodoble “Aposento da Moita”, composto por António Silva e oferecido por Rodrigo Castelo, fica agora ligado ao grupo.

E, para quem sabe o que significa vestir uma jaqueta, isso não é apenas música.

É pertença.

Leia também: Moura Caetano, Miguel Moura e António Telles analisam as lides na Moita: entre touros com “teclas”, resposta do público e vontade de afirmação

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