Sabores no Barro: António Caixeiro deu voz à alma do Alentejo numa noite que ficou na memória

Sabores no Barro: António Caixeiro deu voz à alma do Alentejo numa noite que ficou na memória, ontem, 27 de Março.

Um palco, uma mesa e o peso da história

Há momentos que não se explicam. Vivem-se. Sentem-se no peito. Ficam.

Na abertura de mais uma edição do Sabores no Barro, em Beringel, houve um desses momentos. À mesa, entre vinho e cozido de grão, António Caixeiro e os Bafos de Baco fizeram mais do que cantar. Recriaram um modo de estar que resiste ao tempo.

E, no fim, o sentimento não era novo. Era profundo. Antigo. Enraizado.

“O sentimento é o mesmo que há 12 anos reside no meu coração.”

Desde logo, percebe-se que não se trata apenas de uma atuação. Trata-se de pertença. De origem.

Do início ao presente: uma história que cresce com o festival

Aliás, António Caixeiro não fala de fora. Fala de dentro. De quem viu nascer o Sabores no Barro.

“Eu tive a sorte de, com grandes amigos, fazer parte do início desta história que é o Sabores no Barro, nomeadamente com o António Zambujo, nomeadamente com o Buba Espinho.”

Por conseguinte, cada regresso ao palco carrega memória.

“Há 12 anos… viemos… e era a primeira edição dos Sabores no Barro, foi com muita alegria que para aqui viemos.”

Além disso, há uma dimensão geográfica que reforça essa ligação.

“Porque nós somos daqui… eu sou de Cuba, que dista 18 quilómetros.”

Hoje, o que começou como encontro, tornou-se algo maior.

“Eu já chamo de festival porque nesta terra já vem muita gente que às vezes pede por favor até para vir aqui cantar.”

E isso diz tudo.

A tradição que se vive, não se representa

Entretanto, o momento vivido na Embaixada do Cante não foi encenação. Foi verdade.

O percurso começou no Centro Cultural. Passou pelas ruas. E terminou à mesa.

E é precisamente aí que o espírito do evento se revela.

“Nós temos aqui o objetivo de aqueles que aqui estão sentirem o que é que é o verdadeiro espírito deste evento.”

Porque o Sabores no Barro não se limita ao palco.

“Este evento é feito de amigos acima de tudo.”

E é nessa simplicidade que tudo ganha sentido.

“Entrou do petisco, entrou do vinho que aqui partilhamos, nós entregamos tudo aquilo que é nosso.”

Há entrega. Total. Sem filtros.

Entre sacrifício e paixão: o lado invisível

Por trás da música, há escolhas. Há renúncias.

E António Caixeiro não esconde isso.

“Eu atrevo-me a dizer… eu deixo a minha mulher e os meus dois filhos em casa para passar aqui três dias.”

Não é apenas um evento. É um compromisso.

E esse compromisso sente-se em cada nota. Em cada silêncio. Em cada palavra cantada.

Um percurso feito com outros, nunca sozinho

Por outro lado, a história de Caixeiro cruza-se com nomes incontornáveis da música portuguesa.

“Tive um projeto que chamava-se a Moda Mãe… foi um orgulho poder pisar um palco com o António Zambujo.”

E mais do que colaborações, há caminhos partilhados.

“O Buba Espinho fazia parte do projeto da Moda Mãe.”

Aliás, essa capacidade de cruzar universos ficou evidente em experiências únicas.

“Fizemos o Caixa Alfama… um festival integralmente de fado, e uns alentejanos pegam nas sonoridades do Alentejo e levam-nas até lá.”

Ou seja, o Alentejo não se fecha. Expande-se.

O disco que tarda, mas que carrega verdade

Entretanto, há uma questão que permanece. O disco.

E aqui, o discurso torna-se mais introspectivo.

“Isso é uma questão que me deixa também um bocadinho triste por um lado, mas resiliente por outro.”

O trabalho existe. Está feito.

“Eu tenho um disco gravado desde 2019, ainda não o lancei.”

Mas há algo que pesa mais do que a pressa.

“O disco é um trabalho que nós temos que fazer, que seja verdadeiro e que seja autêntico.”

Num tempo de excesso, Caixeiro escolhe o tempo certo.

“Acho que vivemos uma altura que há muita confusão em torno daquilo que são as tradições.”

E talvez por isso hesite.

“Já tive mais vontade de o lançar, já tive menos vontade.”

Mas há uma certeza que permanece.

“Sem sobreduvidas que não, ela não vai ficar na prateleira.”

Entre o cante e tudo o resto

Por outro lado, há uma reflexão essencial sobre identidade artística. O que é cantar Alentejo? E o que não é?

A resposta não é simples. Nem pretende ser.

“A escola do cante está em mim… naquele grupo que é verdadeiramente defendido pela Unesco.”

Mas há diferenças importantes.

“O cante alentejano tem que estar organizado”.

E o que se viveu em Beringel?

“Aquilo que nós fazemos é aquilo que nós gostamos de fazer.”

E talvez seja essa a chave.

Artigo relacionado: Sabores no Barro em Beringel: quando o cante se senta à mesa e a tradição ganha voz

O Alentejo que não se limita a si próprio

Finalmente, há uma ideia que atravessa toda a conversa. O Alentejo não é uma caixa fechada.

É ponto de partida.

“Nós podemos fazer muita coisa com base na raiz e no cariz alentejano.”

E isso implica risco. Mistura. Evolução.

“Não te vou prometer que seja… um disco 100% de cante alentejano.”

Porque identidade não é prisão. É fundamento.

“O sotaque, a inspiração, essa não sai de dentro de mim nem que eu me pinte.”

Beringel: onde a autenticidade ainda manda

Assim, o que se viveu na abertura do Sabores no Barro foi mais do que um concerto. Foi um manifesto.

Um regresso às origens. Mas também um olhar em frente.

Entre tradição e reinvenção. A mesa e palco. Entre passado e futuro.

E, no centro de tudo, uma certeza.

Há coisas que não se fabricam. Nem se ensaiam.

Sentem-se. Como o cante. O Alentejo. Ou esta noite em Beringel.

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Rui Lavrador
Rui Lavradorhttp://www.infocul.pt
Jornalista e Director Infocul.pt

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