San Isidro: Grande Expectativa, Grande Desilusão

No terceiro llenazo deste ano, em Madrid, faltou o brilho. Um cartel com José María Manzanares, Fernando Adrián e Andrés Roca Rey, com toiros de Victoriano del Río, promete muito! Mas também defrauda…

San Isidro: Grande Expectativa, Grande Desilusão
Foto: Miguel Vidal Pinheiro

Grande expectativa, grande desilusão. A corrida tinha, como ponto de ordem, a confirmação de alternativa do diestro Fernando Adrián, de Madrid. Era o incógnito da tarde. A sua presença, por muitos incompreendida, deveu-se à sua vitória na Copa Chenel, campeonato organizado pela Fundación del Toro de Lidia, e cujo prémio ou recompensa era constar numa das mais importantes corridas de San Isidro. Ou seja, vinha a Las Ventas por mérito próprio. E, ainda que não tenha sobressaído, teve valor.

Os seus companheiros, mais que conhecidos pelo grande público, não trouxeram nada de novo a uma corrida sosa e demasiado picada.

O toureiro de Alicante, em tempos o mais eficaz matador de toiros do escalafón, está hoje tremendamente sobrevalorizado. E viu-se. José María Manzanares peca cada vez mais pela sua auto-sublimação e falta de verdade. Já se lhe nota um largo historial de toiros bravos, com interesse, que desperdiça ou não toureia como deveria. E viu-se. Para mais em Madrid, onde a faena desmembrada é mais valorizada que a en redondo, ao gosto sevilhano, e onde a afición exige valor e compromisso. José Mari não o vê nem quer ver, nem fazer. E viu-se. O seu primeiro, de boa nota em varas, passaria facilmente por um toiro dos herdeiros do Conde de la Corte, dada a cara larga e o seu comprimento. E ainda, ironicamente, pela forma oblíqua como investia, na diagonal, e muito típica desta ganadaria dada a própria conformação dos pítons. Tinha ritmo e cumpria. Mas o toureiro não soube usá-lo. Mais, não se plantou, nem dobrou ou carregou. Toureou despegado, conseguindo somente algumas séries com o mínimo interesse. No seu segundo, um toiro inválido e que caiu várias vezes, repetiu-se para pior. Mas nesse caso também o toiro não permitiu. O mais curioso é o seu novo “desvirtuar” da sorte suprema, que executava com toda a maestria. Ambas faenas findou com senhores pinchazos, cada vez mais recorrentes, e que expõem o seu atual estado: sobrevalorizado. Porque, depois de faenas sem som, já nem a estocada é plena.

Fernando Adrián tem mérito. Derrotar doze toureiros de grande valor num campeonato não é tarefa fácil. E assim se vê o quão difícil é a vida de um toureiro. A sua vinda a Madrid tinha duas razões essenciais: o cumprimento e recompensa do seu esforço ante toiros grandes e difíceis, das mais variadas ganadarias, e a possibilidade de evidenciar-se e projectar rapidamente a sua carreira. Esse é o poder de Madrid. Esteve bem e como devia, mas sem sobressair ou firmar-se. O seu primeiro deu um boa pelea nas varas, empurrando com os rins e empurrando. De resto, é de referir, que toda a corrida foi interessante no cavalo, que nenhum toiro se negou ou fez algo feio ou que se note. Logo, é uma vitória. Para Adrián não foi. Ligou os muletazos, levou o toiro toureado e mostrou porque merecia ali estar. Mas o toiro foi a menos. 

E o segundo ainda mais. Tentou, sempre que podia, levar a mão baixa, alongar as investidas e chegar ao público, que não estava com ele. Não o conheciam. E neste mundo a reputação vale mais que o mérito… Enfim. O seu empenho foi evidente mas nada levou da sua passagem por Las Ventas. O que não significa, por sua vez, que não tenha todo o direito a voltar. E rápido.

É consensual. El pasmo de Peru é a mais importante figura da atualidade. E somente pela sua garra, entrega e valentia, tudo o que se exige a um toureiro que está nos seus inícios. Mais, no seu devido tempo. Porque, ao contrário de El Juli ou Morante, que levam mais de 20 anos de alternativa, Andrés soma somente seis. O seu toureio é irreverente, arriscado e chega ao tendido. É, hoje em dia, um dos maiores representantes do velho lema dos lidadores: “Me salgo por la Puerta Grande o por la Puerta de Enfermería”. Felizmente hoje não chegou a tanto. Mas sente-se a sua vontade de triunfo, constantemente. A sua arrogância até, torera. E foi o salvador da tarde. Roca Rey teve um lote interessante, que se notou no cavalo e durou algo na muleta, mas sem brilho. Roca precisa de um toiro com casta, com ritmo, com tranco. O seu toureio requer vida e raça. E nenhum dos seus toiros lha deu. Jamais se negaram a investir, e duraram, mas foram a menos na transmissão. A corrida foi, diga-se, demasiado picada. E a alma dos Victorianos esvaiu-se nas varas. O que aos toureiros sobrava pouco ou nada permitia para cumprir. E o peruano, no seu primeiro, lidou um astado com um comportamento algo abanto e enquerençado na puerta de toriles. O toiro provou-o ao arrancar de largo e com codicia ao picador do patio de cuadrillas, voltando três vezes ao cavalo sem provocação e outras tanta ao longo da faena. A estocada de Andrés, en todo lo alto, não lhe rendeu nada. E no seu segundo a praça estava com ele. Sentia-se a fome de um mínimo triunfo, que salvasse a tarde da monotonia e da falta de emoção. Roca brindou ao público e fez a faena da tarde. Não ligou nem esteve rotundo. O toiro parava-se entre investidas e o único recurso del Rey foi tourear com a mão baixa, dominadora e provocante. Lidou ao gosto de Madrid e debaixo do 7, intencionalmente. Entre lance e outro lance levantava a Monumental da Calle Alcalá e no final mostrou a sua valentia numa série de desplantes. Mas pinchó, perdendo uma orelha de mérito. E à tarde foi consonante.

#Praça de Toiros de Madrid

12ª da Feria de San Isidro

Lotação esgotada. 

——

Toiros do Victoriano del Río Cortés.

Bem apresentados, sérios e bien armados.

Nobres, descastados e a menos

  • José María Manzanares | silêncio e silêncio
  • Fernando Adrián | ovação e silêncio 
  • Andrés Roca Rey | silêncio e ovação

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