Sérgio Onze e Gisela João juntam-se em “Que Mar É Este”, uma canção sobre saudade, memória e futuro, já disponível.
Foto: Frederico Martins
Sérgio Onze e Gisela João cruzam vozes pela primeira vez em “Que Mar É Este”, single inédito já disponível em todas as plataformas digitais. Segundo o comunicado de imprensa, o tema tem música de André Santos e Rita Dias, com letra de Irina Chitas.
A canção nasce de uma ligação emocional entre o fado, a morna, o mar e a saudade. Além disso, aproxima dois universos artísticos que encontram na tradição um ponto de partida, mas não um limite.
Uma canção nascida longe de casa
De acordo com o comunicado, a origem de “Que Mar É Este” levou Sérgio Onze até Cabo Verde. Foi aí que o fadista encontrou, numa morna, uma sensação próxima daquela que reconhece no fado.
Sérgio Onze explica esse momento como um regresso emocional: “Esta canção nasceu muito longe de casa, em Cabo Verde, quando ouvi uma morna e senti exatamente aquilo que sinto quando ouço Fado: uma espécie de regresso”.
Contudo, essa primeira impressão não ficou apenas na memória. O músico percebeu que a saudade podia atravessar geografias, línguas e formas musicais. Por isso, partilhou uma ideia com Irina Chitas, que viria a dar corpo ao poema.
Como revela no comunicado, “Foi como se uma música tivesse o poder de nos devolver às nossas raízes, mesmo quando estamos do outro lado do mundo e percebi que a saudade não pertence apenas a um lugar. É uma língua emocional que reconhecemos uns nos outros. Mandei uma mensagem à Irina Chitas apenas com a frase: “O Mar é Irmão da Saudade”. Não lhe expliquei mais nada e ela devolveu-me o poema que acabou por se transformar em “Que Mar é Este”.”
O mar entre a libertação e a prisão
Embora o título convoque imediatamente a imagem do mar, a canção não se limita a uma leitura paisagística. Pelo contrário, o mar surge como símbolo de memória, herança e transformação.
No mesmo comunicado, Sérgio Onze sublinha essa tensão interior: “fala muito dessa dualidade do mar – da forma como tanto nos pode libertar como prender. O mar aparece quase como memória, herança, passado, mas também como possibilidade de futuro”.
Assim, “Que Mar É Este” coloca a saudade num espaço mais amplo. Não é apenas nostalgia. É também procura, deslocação e possibilidade de reencontro.
Gisela João era a voz que faltava
Entretanto, a entrada de Gisela João no tema surge como um elemento decisivo. Sérgio Onze admite que a voz da fadista parecia pertencer à canção antes mesmo da gravação.
O artista confessa: “sempre admirei muito a Gisela João e quando comecei a ouvir esta música a ganhar forma, senti imediatamente que a voz dela já habitava aquele lugar. Quando a Gisela aceitou o convite, a música estava finalmente completa. O curioso é que ainda passou bastante tempo até a conseguirmos gravar mas essa espera acabou por fazer sentido, porque a canção fala disso: de coisas que ficam suspensas dentro de nós até encontrarem o momento certo para acontecer. Quando nos juntámos para cantar, parecia que a canção já tinha vivido connosco há muito tempo e acho que isso se sente na forma como nos encontramos nela”.
Desta forma, o dueto aparece como encontro natural entre duas vozes com forte ligação à música portuguesa. Há fado, há tradição, mas também existe uma liberdade interpretativa que alarga o território da canção.
Videoclipe trabalha memória, barro e transformação
Além do tema, o comunicado destaca também o videoclipe de “Que Mar É Este”. A direção criativa e a realização são assinadas por Sérgio Onze e Miguel Rodrigues, enquanto a captação ficou a cargo de Raul Sousa.
O vídeo é apresentado como uma representação do passado, da herança e da construção do futuro. Nesse caminho visual, o barro surge como elemento simbólico.
Sérgio Onze explica a escolha: “Apesar da música falar do mar, trata sobretudo daquilo que carregamos cá dentro: memória, peso, transformação e liberdade. Em conversa com a Irina Chitas surgiu a ideia do barro. Havia qualquer coisa profundamente humana naquele gesto de moldar uma matéria com as mãos, como se estivéssemos, ao mesmo tempo, a construir e a tentar perceber aquilo que somos”.
Por isso, o videoclipe parece prolongar a própria mensagem da canção. Moldar o barro torna-se uma metáfora para a identidade, para o que se herda e para aquilo que ainda se pode transformar.
Novo álbum aproxima Sérgio Onze da raiz do fado
Depois de “NÓS”, disco de estreia eleito um dos Melhores Álbuns do Ano pelo Expresso/Blitz, Sérgio Onze prepara agora o segundo trabalho de estúdio.
Ainda numa fase inicial, o fadista já sabe que quer aprofundar a ligação à sua raiz musical. No entanto, essa aproximação ao fado não surge como fechamento. Pelo contrário, aparece como procura de uma linguagem viva.
Sérgio Onze adianta: “ainda estou numa fase muito inicial do próximo álbum, mas há uma coisa que sei: quero aproximar-me ainda mais da minha raiz, que é o Fado. Não necessariamente num lugar tradicional ou fechado, mas como linguagem viva, aberta e capaz de crescer comigo. O próximo disco vai nascer muito da poesia e da procura de uma voz cada vez mais pessoal. Quero descobrir novas palavras, novos poetas, novas formas de habitar esta música e haverá certamente cruzamentos e outras influências, porque também fazem parte daquilo que sou”.
Entre o mar, a saudade e o fado, “Que Mar É Este” marca uma nova etapa para Sérgio Onze. Ao lado de Gisela João, o músico apresenta uma canção que olha para a tradição sem deixar de procurar futuro.
