Tânia Laranjo critica ideia de dar “sobras” a crianças carenciadas: “Como se a generosidade fosse um ramo da reciclagem”, afirmou.
A frase que abriu a discussão vinha embrulhada naquela delicadeza perigosa do “não me levem a mal”. Depois, a mensagem fazia o resto: questionava se dar Tulicreme, material novo ou uma t-shirt nova a crianças carenciadas não seria “um exagero”.
Tânia Laranjo não deixou passar.
A jornalista recorreu às redes sociais para reagir a uma publicação do Mercado dos Santos, que expôs uma mensagem recebida sobre o tipo de ajuda dada a crianças. No centro da polémica está uma ideia antiga, mas resistente: a de que a solidariedade deve existir, sim, desde que os pobres não recebam coisas demasiado boas.
A mensagem que motivou a reação
Na publicação partilhada por Tânia Laranjo, surge uma imagem divulgada pelo Mercado dos Santos. O texto questionava a entrega de determinados produtos a crianças apoiadas pela iniciativa.
Na mensagem podia ler-se: “Bom dia, não me levam a mal, não quero ser mal interpretada, mas não acham que dar tulicreme é um exagero para estas crianças, que talvez nunca mais o vão comer. Até mesmo o que gastam em material para as atividades ou dar uma tshirt nova. Vocês recebem tanta coisa usada, podem dar a essas crianças no dia, iam ficar felizes na mesma, acho eu. Fica a dica.”
A resposta do Mercado dos Santos surgiu logo na legenda: “Porque é que o que damos tem que ser sempre o que sobra!”
E é precisamente aí que a discussão deixa de ser sobre Tulicreme. Passa a ser sobre dignidade.
Porque a questão não é uma criança comer creme de chocolate uma vez. A questão é haver quem ache excessivo que uma criança pobre receba algo que não venha do fundo de uma gaveta.
Tânia Laranjo aponta a “gestão da pobreza”
Tânia Laranjo pegou no tema e transformou a crítica numa reflexão mordaz sobre a forma como parte da sociedade olha para a ajuda aos mais vulneráveis.
A jornalista escreveu: “Há pessoas que defendem uma teoria muito interessante: os pobres devem receber ajuda, mas com moderação. Não vá alguém habituar-se ao conforto e começar a exigir uma vida minimamente agradável.”
Depois, levou a ironia mais longe, desmontando a lógica de quem acha que a solidariedade deve vir sempre com travão.
Tânia acrescentou: “Se uma criança recebe um chocolate, aparece logo um especialista em gestão da pobreza a explicar que, em vez disso, devia receber uma couve. Se recebe uma t-shirt nova, surge outro a recordar que há excelentes camisolas de 1998 disponíveis no fundo de uma arrecadação.”
A frase é dura, mas acerta no alvo. Há uma diferença entre ajudar e despejar excedentes. E há outra, ainda maior, entre caridade e respeito.
“Dar aos outros aquilo que não daríamos aos nossos”
No texto partilhado nas redes sociais, Tânia Laranjo insistiu no ponto central da crítica: o duplo critério.
A jornalista afirmou: “É uma visão fascinante da solidariedade: dar aos outros aquilo que não daríamos aos nossos. Como se a generosidade fosse um ramo da reciclagem.”
O comentário expõe uma contradição frequente. Para alguns, uma criança carenciada deve agradecer qualquer coisa, mesmo quando essa “qualquer coisa” é aquilo que já ninguém quer.
Ora, agradecer não devia ser sinónimo de aceitar menos humanidade.
A expectativa de uma criança
Tânia Laranjo terminou a reflexão sublinhando o absurdo de tratar uma pequena alegria como se fosse um perigo social.
A jornalista escreveu: “O mais curioso é que quem recebe uma coisa nova é acusado de criar expectativas irrealistas. Como se a expectativa irrealista fosse uma criança achar que merece o mesmo Tulicreme que as outras.”
No final, deixou ainda um apelo direto aos seguidores: “PS. É já agora sigam o mercado dos Santos. Estão no lado certo da história”
A publicação acabou por transformar uma simples mensagem privada num debate público sobre o modo como se olha para a pobreza.
Não se trata apenas de comida, roupas ou materiais. Trata-se da ideia, tão instalada quanto incómoda, de que quem precisa de ajuda deve receber sempre menos do que aquilo que desejaríamos para os nossos.
E talvez seja mesmo essa a pergunta que fica: quando se ajuda uma criança, está-se a dar o que sobra ou aquilo que ela também merece?
Veja a publicação AQUI.

