Tânia Laranjo questionou as vantagens dos carros elétricos para famílias carenciadas numa publicação no Facebook. A jornalista partilhou uma ilustração sobre mobilidade e contrapôs os benefícios apresentados às dificuldades de quem tem de pagar renda, alimentação e eletricidade.
A imagem enumera vantagens como acesso ao emprego, educação, serviços de saúde, poupança a longo prazo e um ambiente mais limpo. Tânia Laranjo respondeu com ironia, começando pela forma como a mensagem é transmitida.
“Estou fascinada com esta coisa dos carros eléctricos. Agora até há um desenho, muito didáctico, quase daqueles que se usam na primária, a explicar as vantagens para os mais carenciados. E aquilo é uma maravilha. O carro eléctrico resolve praticamente tudo. Só falta lavar a loiça.”
“Continuam a ganhar os mesmos 900 euros”
A jornalista começou por analisar o argumento de que um automóvel permite procurar emprego mais longe de casa. Na sua perspetiva, essa possibilidade não resolve o problema dos baixos rendimentos.
“Primeira vantagem: mais emprego. Os mais pobres podem procurar trabalho mais longe de casa. Portanto, continuam a ganhar os mesmos 900 euros, mas agora podem fazer mais quilómetros para os ganhar.”
Tânia Laranjo chamou depois a atenção para os custos de utilização do veículo.
“O carro não gasta gasolina, claro. Gasta electricidade. É um pormenor que talvez tenha escapado ao ilustrador. E depois há a conta de carregar o carro. Mas isso deve aparecer noutro desenho.”
Saúde e educação também entram na crítica
A ilustração apresenta o automóvel como uma forma de facilitar as deslocações a consultas e hospitais. Ao comentar esse ponto, Tânia Laranjo centrou-se na falta de médicos de família.
“Segunda vantagem: melhor saúde. Num país onde há gente sem médico de família, temos finalmente uma solução. Talvez o carro venha equipado com um médico no porta-luvas. Era útil.”
Quanto à educação, a imagem refere a possibilidade de levar crianças a escolas com melhores recursos. A jornalista manteve o tom irónico na resposta.
“Terceira: melhor educação. Não percebi se o carro também dá explicações ou se é a bateria que estimula o desenvolvimento intelectual.”
“Como se paga a prestação do carro?”
A poupança foi outro dos pontos contestados. Tânia Laranjo usou o exemplo de uma família com um rendimento de 900 euros para questionar a margem disponível depois das despesas essenciais.
“E depois há a poupança. Esta é a minha preferida. Uma família que ganha 900 euros, paga uma renda que lhe leva metade do ordenado e ainda tem de comprar comida para 30 dias vai finalmente conseguir poupar. Graças ao carro eléctrico!”
Na parte final da publicação, a jornalista colocou o foco no custo de aquisição do automóvel.
“Estou à espera do próximo desenho. Talvez explique como se paga a prestação do carro com o dinheiro que sobrou depois de pagar a renda, a electricidade e o supermercado.”
O desabafo terminou com uma frase que resume a crítica à mensagem da ilustração: “A pobreza, afinal, era um problema de transporte. E nós sem percebermos.”
