Trump junta-se a líderes religiosos em Washington para evento que quer “rededicar a América a Deus”

Trump junta-se a líderes religiosos em Washington para evento que quer “rededicar a América a Deus”, anunciou.

O presidente dos Estados Unidos e vários membros da Administração norte-americana vão juntar-se, este domingo, 17 de maio, a líderes religiosos no National Mall, em Washington DC, para um dia de oração, música e discursos.

O evento, integrado nas comemorações dos 250 anos da independência dos Estados Unidos, surge sob o título “Rededicate 250: Um Jubileu Nacional de Oração, Louvor e Ação de Graças” e tem como objetivo “rededicar a América a Deus”.

Um jubileu com forte marca cristã

A iniciativa é organizada pela ONG Freedom 250 e contará sobretudo com líderes cristãos conservadores.

Entre os nomes previstos estão o evangelista Franklin Graham e a pastora Paula White-Cain, conselheira para assuntos religiosos da Casa Branca.

Além das orações, estão previstos momentos musicais e várias intervenções. Segundo a NBC, Donald Trump deverá participar através de vídeo, enquanto outros responsáveis da Administração deverão falar presencialmente.

Entre os participantes anunciados estão Marco Rubio, secretário de Estado, Pete Hegseth, secretário da Defesa, e Mike Johnson, presidente da Câmara dos Representantes.

Hegseth defende ligação entre fé e nação

Num vídeo promocional do evento, Pete Hegseth associou a força dos Estados Unidos à fé religiosa.

“Os nossos fundadores sabiam duas verdades simples: os nossos direitos não vêm do governo, vêm de Deus, e a nação é apenas tão forte quanto a sua fé”, afirmou.

Também Paula White-Cain apresentou o jubileu como uma reafirmação dos fundamentos cristãos do país.

“Trata da história e dos alicerces da nossa nação, que foi construída com base nos valores cristãos, na Bíblia… Trata-se, na verdade, de uma verdadeira rededicação do país a Deus”, afirmou a pastora num webinar realizado no mês passado.

Críticos falam em narrativa “nacionalista-cristã”

Apesar do enquadramento religioso, o evento tem sido alvo de críticas.

Para os opositores, a iniciativa procura “deturpar” a história dos Estados Unidos com uma narrativa “falsa e nacionalista-cristã”.

Jared Huffman, congressista da Califórnia, acusa o movimento MAGA de transformar uma celebração nacional num instrumento político.

“O que deveria ser uma celebração amplamente unificadora foi politicamente deturpada e envolvida nesta narrativa do MAGA que tenta reescrever a nossa história e promover a agenda do presidente”, denunciou.

Segundo o mesmo representante, esta abordagem apaga a diversidade religiosa e não religiosa dos Estados Unidos e ameaça as proteções constitucionais contra a imposição de uma religião pelo governo.

Especialistas apontam evento sem precedentes modernos

Ao longo da história, vários presidentes norte-americanos recorreram a orações genéricas de agradecimento a Deus em momentos ligados à independência.

No entanto, especialistas em história religiosa americana consideram que este jubileu nacional não tem precedentes na era moderna, sobretudo pela dimensão prevista.

O programa terá mais de nove horas seguidas e dezenas de discursos, centrados na identidade americana associada ao conservadorismo protestante.

EUA mais diversos em termos religiosos

Os dados do Pew Research Center indicam que 62% dos norte-americanos se identificam atualmente como cristãos.

Os protestantes evangélicos representam a maior fatia, com 23%, seguidos dos católicos, com 19%. Já 29% dizem não ter qualquer afiliação religiosa, incluindo ateus, agnósticos e outros.

As restantes religiões representam 7%, sendo os judeus a maior parcela, com 2%.

Robert Jones, presidente do Public Religion Research Institute, lembrou ao The Washington Post que o país atravessa uma fase de forte diversidade religiosa.

“Os EUA estão mais diversificados do que nunca em termos religiosos”, afirmou.

Ao mesmo tempo, o texto refere que o sentimento antissemita e anti-muçulmano tem gerado preocupação crescente.

Sondagens mostram divisão sobre religião e Estado

A forma como Trump aborda temas religiosos tem provocado ceticismo entre muitos norte-americanos.

Uma sondagem do Washington Post, ABC e Ipsos revelou que 87% dos inquiridos têm opinião negativa sobre uma publicação de Trump nas redes sociais em que este parece retratar-se como Jesus.

Já uma sondagem do Pew Research indicou que apenas um terço dos norte-americanos considera que Trump defende as pessoas nas suas crenças religiosas.

Ainda assim, cerca de 20% dos adultos norte-americanos e um quarto dos republicanos defendem que o governo federal deveria declarar o cristianismo como religião oficial.

O mesmo estudo indica que 43% dos inquiridos rejeitam essa declaração oficial, mas defendem que o governo deve promover valores cristãos. Outros 38% consideram que não deve fazer nenhuma das duas coisas.

Além disso, 13% dos adultos norte-americanos e 18% dos republicanos acreditam que o governo deveria deixar de fazer valer a separação entre Igreja e Estado.

Fundação prepara protesto em Washington

Para este domingo, a Freedom From Religion Foundation prepara uma manifestação noutro local de Washington.

A organização defende uma separação estrita entre Igreja e Estado e acusa o Governo de estar envolvido numa iniciativa de cariz nacionalista cristão.

“Trata-se do governo a organizar um evento nacionalista cristão”, afirmou Annie Laurie Gaylor, copresidente da fundação.

Depois, acrescentou:

“Mesmo que esteja a aceitar fundos privados para o efeito, continua a ser o governo a organizá-lo. É escandaloso.”

Entre oração, política e debate constitucional, o evento no National Mall promete marcar as comemorações dos 250 anos da independência dos Estados Unidos com uma das discussões mais sensíveis da sociedade norte-americana: o lugar da religião no Estado.

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