UHF olham para o presente e para a estrada: “Há sempre novidades”

UHF olham para o presente e para a estrada: “Há sempre novidades”, revelou a banda em declarações ao infocul.pt/dev/.

Fotografia: Arquivo infocul.pt/dev/ / Carlos Pedroso
Texto e Entrevista: Rui Lavrador

UHF falaram à margem da ante-estreia sobre os Iron Maiden

Os UHF marcaram presença, sem António Manuel Ribeiro, na ante-estreia de um documentário dedicado aos Iron Maiden. Porém, a conversa acabou por ir muito para lá do universo da banda britânica.

À margem do evento, os elementos dos UHF falaram sobre a digressão que têm levado à estrada, sobre a relação com o público, sobre o próximo concerto no Rock in Rio e ainda sobre o lugar da banda na história do rock português.

A conversa teve humor, memória e a natural prudência de quem sabe que há novidades em marcha, mas ainda não as pode revelar por completo.

Quando questionados sobre a possibilidade de surgir um “Underground 2.0”, após o apoteótico sucesso no LAV, em Lisboa, a resposta chegou entre o riso e o cuidado: “Olha, se calhar vamos ser despedidos depois de divulgar isto.”

Logo depois, veio a confirmação possível, sem grandes detalhes: “Há grandes hipóteses de vir a acontecer, mas não podemos falar sobre isso ainda.”

E quando a pergunta apertou, tentando perceber se poderia acontecer ainda este ano, a resposta manteve o mesmo tom: “Sim, mas não podemos falar sobre isso ainda.”

Há, portanto, uma porta aberta. Mas ainda fechada o suficiente para não se transformar, para já, em anúncio.

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Uma digressão de salas cheias e várias gerações

A actual digressão dos UHF tem decorrido com salas cheias. Isso, quase meio século depois do início do percurso da banda, diz muito sobre a resistência das canções.

Também diz muito sobre a forma como o repertório atravessou gerações. Não ficou preso a um tempo. Foi passando de pais para filhos, de rádios para palcos, de discos para memórias.

Assim, António Côrte-Real explicou essa continuidade com naturalidade: “A carreira dos UHF é transversal há 48 anos já e é transversal há várias gerações.”

Depois, desenvolveu a ideia: “Em todas as gerações houve singles e discos que bateram e que as pessoas se lembram.”

Este talvez seja um dos segredos dos UHF. A banda não vive apenas de uma canção. Nem apenas de uma fase. Vive de um caminho longo, com temas que se foram fixando em públicos diferentes.

Por isso, quando se fala em salas cheias, não se fala apenas de nostalgia. Fala-se de uma herança que ainda se ouve ao vivo.

E, no caso dos UHF, a estrada nunca foi acessório. Foi casa, escola e identidade.

Rock in Rio e o “dia das lendas”

A conversa passou também pelo Rock in Rio, onde os UHF se preparam para actuar, no Legends Day.

Para os UHF, o peso desse dia não está apenas no festival. Está também no enquadramento.

A presença da banda naquele palco não é tratada como mero convite. É vista como reconhecimento de uma história.

Um dos elementos resumiu a importância do momento de forma directa: “Eu acho que os UHF marcam o princípio do rock português.”

A frase podia parecer pesada. Mas, neste caso, surge mais como constatação do que como vaidade. Até porque a própria conversa seguiu por esse caminho: o da importância histórica da banda e da mudança que ajudou a provocar.

Sobre o concerto no festival, os UHF não prometem uma viagem longa. Prometem, sim, eficácia e memória.

“Não é um concerto inteiro de duas horas, mas acho que é um concerto de uma hora.”

Outro elemento confirmou: “É uma hora.”

E a ideia para esse tempo de palco é clara: “Mas vai ser cheio de sucessos.”

Depois, a promessa ganhou forma: “Acho que as pessoas vão reconhecer e vão se rever no nosso repertório.”

O lugar dos UHF na árvore do rock português

A pergunta tinha provocação. Onde se colocam os UHF na árvore genealógica do rock em Portugal?

A resposta fugiu ao título fácil. Também fugiu à tentação de reclamar paternidades absolutas.

“Eu acho que o rock já existia. Já existia, pá”, disse Côrte-Real.

A partir daí, a conversa ficou mais interessante. Porque não se tentou apagar o que vinha antes. Tentou-se perceber o que mudou com os UHF.

E o que mudou, segundo os próprios, foi a indústria, a estrada e a forma como uma banda de rock passou a ser tratada em Portugal.

“Simplesmente a indústria musical começou a funcionar de outra maneira depois dos ‘Cavalos de Corrida’. É isto. É daí que vem o boom do rock português.”

O tema “Cavalos de Corrida” surge, assim, como um marco. Não apenas por aquilo que representou musicalmente, mas pelo que abriu depois.

A explicação continuou: “Os UHF trazem duas coisas que foram muito importantes e que marcaram a música em Portugal a partir desse momento.”

A primeira foi a dimensão discográfica. “Foi aparecer com um single numa multinacional que se tornou um sucesso explosivo.”

Depois, veio a consequência: “A seguir a esse sucesso aparecem um monte de bandas a querer aparecer e a romper pelo meio.”

Esta leitura é importante. Porque coloca os UHF não apenas como protagonistas de uma época, mas como parte de uma viragem maior.

A estrada, os palcos e as condições que hoje parecem normais

No entanto, o legado dos UHF não se fez apenas nos discos. Fez-se também na estrada.

E talvez seja aí que a conversa ganhe uma dimensão mais invisível para quem hoje vê um concerto com som, luz, camarins e equipa técnica.

Na altura, segundo recordaram, muita coisa que hoje parece básica ainda não estava garantida.

“As pessoas agora não têm essa noção, mas isto foi há quase 50 anos, não é?”

Depois, a palavra voltou à estrada. “Os UHF começaram a exigir palcos com condições. Som e luz com condições. Camarins.”

A observação pode parecer técnica. Mas não é. É cultural. Porque uma banda também muda um país quando obriga esse país a tratar a música com profissionalismo.

Um dos elementos sublinhou esse ponto: “Uma coisa que hoje é básica, antigamente não era.”

E acrescentou uma nota sobre as novas gerações: “As novas gerações não têm essa perceção, que acho que é normal.”

Outro completou a ideia: “Já o têm. Já o têm, é adquirido, não é? Está garantido.”

Essa talvez seja uma das grandes vitórias de quem abriu caminho. As conquistas tornam-se tão naturais que deixam de parecer conquistas.

Mas foram-no.

Aliás, um dos músicos lembrou ainda outro dado relevante: “O UHF foi a primeira banda em Portugal a ter um PA.”

Depois, acrescentou: “Depois gravava ou emprestava às outras bandas.”

E houve ainda uma síntese que explica muito do ADN da banda: “E a viver da estrada.”

Outro elemento completou: “E a viver da estrada. Ou a viver dos concertos.”

Há novas canções a caminho

A conversa seguiu para o presente. E o presente dos UHF não parece parado.

Quando questionados sobre novidades discográficas, a resposta chegou sem hesitação: “Estamos em estúdio.”

Depois, veio a confirmação: “Estamos a gravar em estúdio.”

A banda continua, portanto, a trabalhar. E não apenas a revisitar o passado.

Seguidamente, revelaram: “Aliás, hoje estivemos na sala de ensaios a trabalhar uma canção nova.”

A palavra importante veio logo a seguir: “Inédito, sim.”

E talvez seja aqui que os UHF continuam a fugir ao lugar cómodo da banda histórica. Podiam limitar-se aos clássicos. Podiam viver apenas da memória. Mas a conversa mostra outra coisa.

Mostra uma banda que sabe o peso do passado, mas continua a procurar futuro.

A frase que melhor resume essa postura talvez seja esta: “Há sempre novidades.”

Uma banda que não vive apenas da memória

A entrevista aos elementos dos UHF, feita à margem da ante-estreia do documentário sobre os Iron Maiden, acabou por ser um retrato de várias camadas.

Falou-se da digressão. De salas cheias. Falou-se do Rock in Rio. Da história do rock português. Falou-se da estrada, dos palcos e das condições técnicas que a banda ajudou a tornar exigência.

Mas falou-se também de futuro.

E isso é talvez o mais importante.

Os UHF sabem que carregam quase meio século de história. Sabem que há canções que pertencem à memória colectiva. Sabem que têm um lugar próprio na genealogia do rock em Portugal.

No entanto, não surgem parados nesse lugar. Continuam em estúdio. A trabalhar inéditos. Continuam a falar de novos discos, novas fases e novas sonoridades.

Por isso, esta conversa não foi apenas sobre o que a banda foi. Foi também sobre o que ainda quer ser.

E, num país que muitas vezes gosta de arrumar os seus nomes maiores em prateleiras de homenagem, os UHF continuam a responder de outra forma.

Com estrada. Com canções. E com a certeza simples, mas decisiva, de que ainda há sempre novidades.

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