A última corrida do abono de Vila Franca prometía muito. Mas resumiu-se ao seu tercio falhado… numa tarde em que lidaram toiros de Manuel Veiga o cavaleiro João Ribeiro Telles e os diestros Morante de la Puebla e João Silva “Juanito”, juntamento com os Forcados Amadores de Vila Franca de Xira.

Texto: Manuel Santos Lima
Fotografias: Nuno Almeida
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O tercio falhado. Não existe melhor forma de descrever aquela que se apresentava como a grande corrida para o encerramento desta temporada. E cujo significado ia muito para lá de uma simples tarde de toiros. Em primeira instância testemunhámos a lide de toiros de um encaste, hoje, minoritário por uma figura do toureio mundial e em Portugal. Morante de la Puebla legitimou, desta forma, a qualidade das ganadarias portuguesas. É certo que tem uma íntima relação com o ganadero. É também certa a falta de integridade dos animais. Mas o valor deste ato poderá ter aberto as portas de Espanha a alguns ganaderos portugueses, que começam a ser novamente chamados para as grandes praças dos países vizinhos. O próprio toureiro apresentou-se nesta Vila no clímax da sua mais rotunda temporada, na qual lidará mais de cem corridas, e evidenciou umas regularidade e arte incomensuráveis. Quem aprecia o seu toureio estilista e conhece o seu momento atual sabia ao que ia. Ao maestro de la Puebla del Rio juntava-se um bom amigo seu, João Ribeiro Telles, que atravessa uma excelente fase da sua carreira. Com uma técnica maturada, bem montado e em forma, está entre os melhores ginetes da sua geração e provou-o hoje, uma vez mais. A estes juntava-se um novato bem lançado, João Silva “Juanito”, cujo estilo lidador e tremendista tem convertido o público português. Tem-se provado audaz, irreverente mas também impulsivo e inconsciente. Provou-o hoje também.
Mas respeitemos a ordem hierárquica desta tauromaquia portuguesa. Os ginetes têm prioridade. E aparentemente merecida, pois se alguém hoje foi constante, capaz e dominador, foi João Ribeiro Telles. Esteve em ambas lides por cima dos seus adversários. Se no seu primeiro, que se adiantava e cortava as trajetórias, o levou sempre toureado, à garupa e com uma excelente técnica, no segundo esteve supremo. Primeiro, teve pela frente um toiro cumpridor e sem casta; segundo, confiou na sua boa quadra para ousar ante o de Veiga e realizar múltiplas reuniões arriscadas, algumas com investidas pouco humilhadas, altas e que deram pujante emoção ao espetáculo; terceiro: concluiu, sem ilusões, com o habitual quiebro do seu negro Ortigão. Foi perfeito e levantou unanimemente a Palha Blanco! E assim resumiu ‘abrumadoramente‘ a sua prestação.

Já o seu companheiro não foi tão homogéneo. É certo que, quando falamos de José António Morante Camacho, é necessária uma certa introspecção ao seu toureio Estilista e à sua abordagem Currista. O primeiro entende a lide como uma evidência de arte simples e pura, sem esforço, e que prevê o toureio como uma suave relação com a besta. À segunda devemos acoplar a primeira pois, na ausência de um animal proprio para o toureio artista, deve resumir-se uma lide tanto quanto a capacidade de um toiro para a mesma. Assim, compreender a escola de José António é ter uma noção extremada entre perfeição e a passividade. Aquele que não compreende estas suposições jamais entenderá a essência de Morante de la Puebla.
Este esteve esforçado, claramente com uma dedicação de amigo, que é, do ganadero, e com a atitude renovada que tem demonstrado nas últimas épocas. No seu primeiro, suave, colaborante e boiante, revelou de uma forma antológica, sem o especial entusiasmo de Vila Franca, o seu estilo próprio, de ayudados, trincherazos, naturales e derechazos. A sua postura, referente do seu toureio, foi escultural e suprema, tanto no capote como na muleta. Já no seu segundo, um toiro com génio, a parar a meio da investida e sem recorrido, optou por deixar passar. Tentou, mas não pôde corrigir o incorrigível. Depois de três tandas sem qualquer ligação, o toiro saiu entre apupos e o toureiro entre louvores.

Já o diestro João Silva “Juanito” teve tudo para o triunfo, absoluto, mas não soube conter-se nem abstrair-se.
A ele se deve o título desta crónica, já que num momento de plena glória deitou tudo a perder. Ao seu segundo bordou uma extraordinária receção de capote por largas cambiadas, de joelhos, e que pôs de pé a aficion de Vila Franca. Não satisfeito, no seu estilo tremendista, foi impulsivo e decidiu cravar a solo um tercio de banderillas. Entre o primeiro, o segundo, o terceiro, o quarto… nenhum tocou a cruz do animal. O público protestou a insistência inconsciente do toureiro e perdeu aí o seu entusiasmo para o findar da sua lide. No seu primeiro tinha-se revelado, como sempre, dominador, seguro e com boa técnica. Fez, de resto, uma excelente faena a um astado muito alegre mas que foi ganhando sentido e que Juanito soube aguentar com verdade. No seu segundo já não. Carregava o peso do tercio falhado e do fim de uma corrida medíocre de Manuel Veiga. O último toiro, um tanto como o quinto, era enrazado, ganhou sentido e procurava pela esquerda. Juanito fez uma faena desordenada, movido pela clarividente exaltação e pelo sangue quente da juventude, mas sem lograr qualquer tanda interessante ou que o redimisse minimamente.

No que toca aos Amadores da terra, foram plenamente eficientes, ainda que tal seja discutível. O segundo toiro de João Ribeiro Telles foi citado pelo forcado Rafael Plácido que, depois de reunir nos médios, foi-se arrastando na cara do toiro. Chegando a tábuas, entre o reboliço dos ajudas e a precária reunião do cara, fora dela, o grupo fechou e a pega foi consumada. E ante um público que vaiava o grupo já fechado, crítico da consumação indevida, o forcado ainda deu a uma volta à praça, sem a merecer.
Por outro lado, quem a merecia lesionou-se, não podendo gozar da ovação do público. O forçado Luís Valença Cardoso, ante o primeiro da corrida, fechou-se e pegou o toiro sozinho, sem a ajuda de um grupo que não conseguiu imediatamente parar o toiro. Depois de uma viagem que foi levantando a praça de Vila Franca, o grupo fechou e realizou a grande tentativa de Valença, que saiu lesionado no pé, nos braços dos seus companheiros.
Praça de Toiros de Vila Franca
3ª da Feira de Outubro
Lotação quase esgotada.
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Toiros de Manuel de Castro Tavares Veiga
De apresentação desigual, afeitados e bem constituídos.
Mediocres, cumpridores e sem casta no geral.
• João Ribeiro Telles | volta e volta
• Morante de la Puebla | volta e silêncio
• João Silva “Juanito” | volta e volta
