Lia Gama: “Vivi sem afetos, o que é péssimo para uma criança”, disse em entrevista a Daniel Oliveira, na SIC.

“Eu sou aquilo que sou porque tracei o meu caminho. Sou o que sou, penso que a mim o devo”, começou por dizer Lia Gama.
“Com quatro anos fui viver com o meu pai e com a minha madrasta. Não tenho memórias gratificantes, não tenho. Até ao princípio da adolescência lembro-me de muito pouco, ou se calhar não me quero lembrar”, acrescentou.
“No fundo os meus pais nunca viveram propriamente juntos (…) O meu pai era um valdevinos”, referiu.
“Houve alturas em que não se sentiu desejada?”, perguntou Daniel Oliveira.
“Até recomeçar a relacionar-me com a minha mãe, já tarde, não tinha ideia disso. Tinha umas saudades infinitas da minha mãe. Mas quando a reencontrei foi uma desilusão. Coitada da minha mãe, sofreu imenso, era uma mulher sofridíssima. A minha mãe ficou com o meu irmão, foi uma lutadora à maneira dela. Se calhar achou que eu ficava melhor acolhida com o meu pai, com menos dificuldades. A minha madrasta dizia-me muitas vezes ‘ninguém te quer’. Não foi uma infância feliz, não”, disse Lia Gama.
“Eles davam-se muito bem. Um dizia mata, outro dizia esfola. Eu levava duas vezes por coisas que às vezes nem tinha feito. Era o bobo da festa. O meu pai era mais violento do que ela. Vivi sem afetos, o que é péssimo para uma criança. Por isso sou como sou: sou muito insegura, não parecendo. Digo tudo o que tenho a dizer”, referiu sobre a relação com o pai e madrasta.
“Acreditava no amor do seu pai por si?”, questionou Daniel Oliveira.
“Não, nada!”, disse Lia Gama.
“Sentia que era um empecilho. A minha madrasta dizia que gostava mais de rapazes, que tinha preferido ficar com o meu irmão. Eu era rebelde, nunca me acomodei. Quanto mais me batiam, menos eu chorava”. acrescentou.
“Eu era tão agredida, fisicamente, que as vizinhas fizeram uma carta anónima para o tribunal de menores. Eles foram julgados e absolvidos. Eu fui interrogada, várias vezes, fiz vários exames no instituto de medicina legal e eu nunca os denunciei. Lembro-me de uma vez ter levado uma sova monumental porque tinha passado para a terceira classe, tinha uns livros novos e uma pasta nova, eu tive de sair, deixei tudo em cima da cama e o cãozinho destruiu aquilo tudo. Meti tudo na pasta, que era nova, fechei-a à chave. Um dia, a minha madrasta chegou a casa, descobre a pasta fechada, abriu-a e descobriu aquele preparo. Levei com cinto, verdasca de marmeleiro, era de toda a maneira. Só me lembro da minha madrasta dizer: ‘não lhe batas na cabeça’”, revelou ainda.
“Antes de morrer, ele disse-me que realmente não tinha sido bom pai. Eu disse-lhe que ele podia ir em paz, porque se ele tivesse sido bom pai eu não era aquilo que sou. Atriz, por exemplo“, explicou.
