Marcos Bastinhas voltou às arenas como quem trazia fogo debaixo da casaca

Marcos Bastinhas voltou às arenas como quem trazia fogo debaixo da casaca, na tarde de ontem, em Santarém.

Texto: Rui Lavrador
Fotografias: Diogo Nora

Antes de se falar em ferros, em casaca, em cabelo, em queda ou em aplausos, talvez seja preciso dizer isto sem grandes floreados: Marcos Bastinhas voltou e a praça sentiu.

Sentiu-se no ar. Naquela espécie de murmúrio que antecede os momentos que ainda não sabemos bem como catalogar. Santarém não estava apenas à espera de mais uma atuação. Estava à espera de perceber quem vinha ali. Se o Marcos de antes. Se outro Marcos. Ou se uma mistura dos dois. Se o artista que todos conheciam ou se um homem que, entretanto, tinha atravessado coisas que não cabem numa ficha de corrida.

E ele entrou.

Entrou diferente. Ainda bem. Porque há regressos que seriam uma fraude se viessem mascarados de normalidade. O cabelo longo, a casaca distinta, a escolha estética menos óbvia, tudo aquilo podia ser discutido, como sempre se discute o que foge ao ramerrão. Uns gostarão. Outros franzirão o sobrolho, com aquela superioridade de quem acha que a tauromaquia deve viver eternamente dentro de uma gaveta antiga, bem dobrada e sem cheiro a presente.

Azar.

Marcos Bastinhas nunca foi cavaleiro para caber facilmente numa gaveta. Nem artística, nem estética, nem emocional. Há nele uma coisa que não se ensina. Uma eletricidade própria. Um lado popular, comunicativo, quase de praça em festa, que tanto irrita alguns como conquista muitos. E talvez seja essa a sua maior virtude: não passar indiferente.

Reportagem da corrida: Regresso épico de Marcos Bastinhas completou o Universo Tauromáquico Português

A verdade de Marcos Bastinhas

Na tauromaquia, a indiferença é uma morte lenta.

Marcos não é indiferente. Nunca foi. Ontem, em Santarém, voltou a prová-lo.

Regressava depois de uma temporada interrompida, depois de ter atuado no Campo Pequeno na homenagem a Paulo Caetano, depois de ter explicado publicamente que enfrentou uma depressão. Esse dado existe e não deve ser escondido, mas também não deve engolir tudo o resto. O que interessa, acima de tudo, é que voltou. E voltou à Praça de Touros Celestino Graça, onde também já não atuava há longos anos, com uma presença que parecia trazer vida vivida por dentro.

Não era apenas um cavaleiro a cumprir um contrato. Era um homem a reaparecer num sítio onde se vê tudo. A praça de touros não perdoa muito. Amplifica o gesto, denuncia a hesitação, expõe a vaidade e revela, quando existe, a verdade.

E ontem houve verdade.

A primeira lide não pediu licença a ninguém

A primeira atuação teve aquilo que um regresso destes precisava de ter: impacto.

Não foi um regresso tímido, nem uma tentativa de pedir desculpa ao público pela ausência. Marcos entrou com vontade de afirmar presença. E fê-lo com uma lide de grande nota, com ferros de praça a praça, capazes de agarrar os mais puristas sem lhe retirar aquilo que é dele: a espontaneidade, a exuberância e essa marca Bastinhas que não se confunde com outra.

Há cavaleiros que são tecnicamente irrepreensíveis e, ainda assim, deixam a praça fria. Marcos pode ser discutido em muita coisa, mas dificilmente deixa uma praça sem temperatura. Tem uma forma muito própria de chamar o público para dentro da faena. Não fica fechado sobre si. Não toureia apenas para quem sabe ler cada detalhe. Toureia também para quem sente antes de saber explicar.

E isso conta.

Santarém percebeu-o. Percebeu que aquele regresso tinha corpo. Que não era apenas simbólico. Que havia ali toureio, entrega, risco e vontade de voltar a ocupar o lugar que é seu. A lide teve momentos de verdade, daqueles que fazem a praça sair do lugar sem precisar de ser empurrada.

Mais do que provar que ainda sabia, Marcos mostrou que queria estar ali. E querer estar é, muitas vezes, o primeiro grande triunfo.

A queda também contou a história

Na segunda lide, a queda aparatosa, depois de o cavalo escorregar, trouxe o susto que ninguém quer ver, mas que também faz parte deste mundo. A arena é isto. Um sítio bonito e brutal, cerimonial e imprevisível, onde a vida pode mudar de direção num segundo.

O momento assustou. Naturalmente. Mas a forma como Marcos reagiu teve peso. Não houve vitimização. Também não houve aquela pressa tonta de fingir que nada aconteceu. Houve continuidade. Cabeça. Houve maturidade.

E talvez seja aqui que se notou melhor o Marcos que regressou.

Não perdeu chama. Não perdeu identidade. Mas pareceu mais consciente da praça, dos tempos, da necessidade de não transformar tudo numa correria de emoções. A exuberância continua lá, mas apareceu atravessada por uma serenidade nova. Como se a vida lhe tivesse mexido no compasso. Como se, depois de certos silêncios, um homem aprendesse a medir melhor o som dos seus próprios passos.

A queda não beliscou o regresso. Antes lhe deu uma camada mais humana, mais física, mais verdadeira. Porque há regressos que precisam também desse sobressalto para se tornarem completos. Ninguém volta intacto. Volta-se com marcas. Com fome. Volta-se com a coragem que se tem naquele dia.

Marcos voltou assim. Com tudo à vista. E isso chegou.

A estética, a fé e os fiscais do costume

Falemos da imagem, porque ela também faz parte do acontecimento. Marcos apareceu com cabelo longo, com uma casaca diferente, numa escolha estética que não procurou agradar a todos. Ainda bem. A arte, quando só quer agradar, começa logo a perder qualquer coisa.

Claro que houve quem não gostasse. É legítimo. O gosto não se decreta. Mas há uma diferença entre não gostar e achar que tudo o que é diferente ameaça a pureza da festa. Essa conversa já cansa. A tauromaquia não precisa de se mascarar de modernidade, mas também não pode viver em permanente ataque de urticária perante qualquer sinal de individualidade.

A tradição não é uma prisão. É uma herança. E as heranças só se mantêm vivas quando alguém as habita, não quando ficam fechadas à chave.

Em Marcos, essa imagem vinha acompanhada de uma força espiritual evidente. Não daquelas espiritualidades de frase bonita para rede social. Era outra coisa. Via-se no modo como entrou. No modo como sorriu. No modo como parecia carregar a própria história sem precisar de a explicar a cada passo.

Há quem acredite. Há quem não acredite. Mas até os ateus, quando são honestos, reconhecem quando um homem traz fé nos olhos. E ontem Marcos trazia.

Não era pose. Não era ornamento. Também não era apenas a casaca, o cabelo ou o impacto visual. Era uma energia. Daquelas que a praça sente antes de conseguir traduzir. Havia qualquer coisa de ritual naquele regresso. Uma espécie de oração feita em movimento, entre o cavalo, o touro, a música e a bancada.

E isso, goste-se ou não, não se fabrica.

O cavaleiro que chega aos miúdos

Há um ponto que não é menor e que devia ser mais vezes discutido sem vergonha: Marcos Bastinhas é, provavelmente, um dos cavaleiros que mais facilmente chega às crianças.

E isto importa muito.

As crianças são o futuro público da tauromaquia. Podemos fazer todos os congressos, debates, comunicados, manifestos e defesas inflamadas. Se os miúdos não quiserem voltar às praças, a conversa morre connosco. Simples.

Marcos tem esse dom raro de transformar a praça num lugar mais acessível ao encantamento. Os miúdos olham para ele e veem cor, movimento, cavalo, sorriso, energia. Veem alguém que lhes prende a atenção antes de saberem explicar a técnica. E talvez seja assim que começa quase tudo na vida: primeiro encanta, depois compreende-se.

A tauromaquia precisa de figuras assim. Precisa de artistas que falem aos entendidos, mas que também saibam abrir portas a quem ainda está a chegar. Marcos tem esse poder. E, num tempo em que tanta coisa pode afastar os mais novos das praças, convém não desvalorizar quem ainda consegue fazer uma criança olhar para a arena com brilho nos olhos.

Um ídolo não é apenas um executante competente. É um conjunto. É arte, presença, carisma e humanidade. Marcos, com todas as discussões que possa levantar, tem esse pacote completo. E ontem, em Santarém, voltou a mostrá-lo.

Pode discutir-se a estética. Discutir-se a forma. Pode discutir-se o excesso, a exuberância, o gesto largo, a maneira como chama a praça para si. Mas não se pode discutir tudo até matar o essencial. E o essencial é isto: Marcos mexe com as pessoas.

E uma arte que deixa de mexer com as pessoas transforma-se apenas num arquivo bonito.

O lado humano sem fazer disso bandeira

Também importa dizer isto com equilíbrio. O facto de Marcos Bastinhas ter falado publicamente sobre o período difícil que atravessou tem relevância. Tem, porque a tauromaquia também precisa de saber falar de gente, não apenas de touros, cavalos, bandarilhas e cartéis.

Mas isso não deve transformar o regresso numa espécie de seminário sobre saúde mental. Não é esse o ponto. O ponto é mais simples e talvez mais bonito: um artista afastou-se, recompôs-se, voltou e mostrou-se em praça com verdade.

Ainda assim, há mérito no exemplo. Numa festa onde demasiadas vezes se prefere parecer forte a ser verdadeiro, Marcos teve a frontalidade de dizer que não estava bem. E isso não o tornou menor. Tornou-o mais próximo.

A tauromaquia tem de perder o medo de certos assuntos. Não precisa de andar armada em moderna a cada esquina, mas precisa de deixar de viver com ar bafiento, como se a vida real não entrasse pelas portas da praça. Entra. Claro que entra. Entra nos artistas, nos forcados, nos ganadeiros, nos aficionados, nos empresários, nos jornalistas. Entra em todos.

E se se fala de tudo noutras áreas, porque raio a tauromaquia haveria de ser diferente?

Morante de la Puebla, em Espanha, também falou do assunto depois de atravessar um período difícil. E não foi por isso que deixou de ser quem é. Pelo contrário. Há verdades que não diminuem os artistas. Apenas os retiram do altar falso onde alguns os querem colocar, como se fossem santos de madeira, sempre imóveis, sempre duros, sempre incapazes de sangrar.

Parecer ao invés de ser é apenas tonto. E isto não é propriamente a Alice no País das Maravilhas.

Santarém não viu apenas uma volta ao cartel

O que Santarém viu ontem foi mais do que o regresso de um nome ao cartel. Foi o regresso de uma presença. E isso faz diferença.

Marcos Bastinhas voltou com outra imagem, outra densidade e a mesma capacidade de mexer com a praça. Voltou com uma primeira lide de afirmação absoluta, daquelas que não pedem autorização a ninguém para ficarem na memória. Voltou com uma segunda marcada pelo susto, sim, mas também pela forma madura, firme e emocionalmente inteira como soube continuar.

E foi perfeito.

Perfeito não por ter sido asséptico. Não por ter vindo embrulhado numa limpeza de laboratório. Perfeito porque foi intenso, visceral, carnal. Porque teve suor, poeira, fé, queda, risco, cavalo, touro, aplauso e verdade. Porque não pareceu desenhado para agradar a todos, mas vivido por alguém que precisava de estar ali. E quando um artista precisa mesmo de estar em praça, a praça percebe.

Nem tudo é para explicar, há momentos apenas para sentir

Há momentos que não se explicam com régua taurina. Sentem-se. Entram pelo peito antes de chegarem à cabeça. O regresso de Marcos teve isso. Teve uma espécie de tremor bonito, daqueles que lembram porque é que a tauromaquia, quando é grande, não vive apenas da técnica. Vive da pele. Do instante. Do perigo. Da comunhão entre quem está no centro da arena e quem prende a respiração nas bancadas.

No fim, fica a imagem de Marcos a sorrir. E talvez seja essa a imagem que mais interessa guardar. Não por sentimentalismo fácil, mas porque há sorrisos que trazem caminho dentro. Aquele trazia.

Marcos voltou a sorrir e voltou a fazer sorrir. Isto, que parece simples, é imenso.

A tauromaquia portuguesa precisava deste regresso. Precisava do artista, sim. Do cavaleiro capaz de levantar uma praça, de incendiar os miúdos, de inquietar os puristas e de obrigar todos a olhar. Mas precisava também do homem que regressa diferente e não tenta esconder isso. Do artista que assume a sua imagem, a sua fé, a sua forma de estar e a sua verdade.

Ontem, na Celestino Graça, Marcos Bastinhas não regressou para repetir o passado. Regressou para lhe pôr sangue novo. Para acrescentar qualquer coisa ao presente. Regressou para lembrar que há artistas que não voltam apenas ao sítio onde foram felizes. Voltam ao sítio onde ainda têm qualquer coisa para dar.

E Marcos tinha.

Tinha arte. Fome. Tinha luz. Tinha uma verdade física, quase animal, que passou da arena para a bancada sem pedir licença.

Marcos voltou. A praça sentiu.

E houve, naquele regresso, qualquer coisa que não se explica bem. Mas também não precisa. As coisas importantes raramente cabem todas numa explicação. Às vezes, basta vê-las acontecer.

Ontem, Santarém viu. E viu bonito.

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