A pátria também toureia: Santarém cantou Portugal entre bandarilhas, muletas e homens de peito aberto ao touro

A pátria também toureia: Santarém cantou Portugal entre bandarilhas, muletas e homens de peito aberto ao touro, na tarde de ontem.

Há tardes em que Portugal não se explica. Pressente-se.

Não está no discurso oficial, nem na solenidade domesticada das cerimónias. Está, por vezes, no cornetim que antecede a verdade, numa praça antiga a levantar-se, num hino cantado sem aparato e nessa espécie de estremecimento colectivo que só acontece quando a memória encontra lugar onde pousar.

Foi assim, na Praça de Touros Celestino Graça, em Santarém, no feriado do 10 de Junho, Dia de Portugal, de Camões e das comunidades portuguesas.

Antes das cortesias, com os toureiros já em arena, cantou-se o Hino Nacional. E talvez tudo o que veio depois tenha ficado suspenso nesse instante. A tarde taurina do 10 de Junho deixou então de ser apenas a segunda corrida da Feira Nacional da Agricultura. Passou a ser um rito. Um desses ritos raros em que a terra, o sangue frio, a arte e a pertença se confundem.

Santarém não pediu explicações. Pediu verdade.

E a verdade, naquela arena larga e solar, chegou por caminhos diferentes. Veio montada em João Moura Júnior, com a ambição de quem procura a altura. Veio no toureio de João Ribeiro Telles, desta vez mais disciplinado, grave, sem desperdício. Veio também pela muleta de Juan Ortega, espanhol de cadência demorada, a recordar que a beleza, quando é inteira, não conhece fronteiras. E veio, por fim, no corpo dos forcados, essa forma portuguesa de enfrentar o destino com o peito primeiro e o medo por último.

Moura Júnior, o esplendor levantado na garupa

João Moura Júnior trouxe à tarde uma vibração de afirmação. Não a afirmação ruidosa, feita de excesso e vaidade. Antes uma afirmação mais antiga, mais funda, quase hereditária. A de quem sabe que a arena não consagra apelidos: exige presença.

Na primeira lide, com o Qualvito, deixou dois ferros de assinalar. Um deles, em sorte cambiada e em terrenos de dentro, teve a temperatura certa das coisas que se fazem no fio. Depois, o palmito, com reunião ajustada, veio como assinatura breve, mas clara, de uma intenção.

Ainda assim, a sua tarde não ficou aí.

Na segunda lide, com matéria mais propícia e um toiro que permitiu maior construção, Moura Júnior aproximou-se de um patamar tecnicamente superior. Houve quatro ferros de excelente nota. Mas a grandeza não esteve apenas no número. Esteve na forma como a lide ganhou respiração, como o cavaleiro concedeu espaço ao toiro e, nesse gesto, se engrandeceu também.

Há uma lição antiga na tauromaquia: quem diminui o toiro diminui-se. Moura Júnior compreendeu o contrário. Deu-lhe espaço, tempo e verdade. E, por isso, os ferros não surgiram como episódios dispersos, mas como versos de uma mesma composição.

Se o Hino pede que se levante de novo o esplendor, Moura Júnior levantou-o sem proclamações. Fê-lo no desenho das sortes, na inteligência da reunião, na coragem medida e nessa forma rara de transformar técnica em liturgia. Não estando colossal, esteve num plano muito positivo.

João Ribeiro Telles, a gravidade luminosa

João Ribeiro Telles teve uma tarde de progressão. Primeiro, cumpriu com dignidade diante de um toiro que se foi apagando. Não se perdeu. Não se precipitou. Guardou compostura, procurando a justeza possível onde a matéria já oferecia menos.

Depois, na segunda passagem, encontrou a tarde em melhor estado.

O seu toureio ganhou então uma claridade serena. A batida ao piton contrário não apareceu como recurso vistoso, mas como expressão de conceito. Havia ali pensamento. Havia cadência. Havia uma elegância contida, muito distante do fogo gratuito que por vezes tenta substituir a arte pela agitação.

Santarém é praça de exigência severa. Quer chama. Quer pulso. Quer que a arena se incendeie. Mas Telles respondeu com outro tipo de ardor: o ardor da contenção. Esse fogo que não se espalha, mas ilumina.

Foi um toureio com temple, suavidade e mando interior. Um toureio que não procurou conquistar a praça pela garganta, mas pela inteligência. E talvez aí resida uma forma superior de coragem: a de permanecer fiel à elegância, mesmo quando o ambiente pede estrondo.

Portugal também é isso, quando se lembra do melhor de si. Uma força que não precisa de brutalidade para ser firme. Uma emoção que não precisa de gritar para existir. Tarde positiva de Telles na capital do Ribatejo.

Ortega, o estrangeiro que trouxe silêncio a uma praça de chama

Juan Ortega entrou na tarde como presença de outro mundo. Espanhol, andaluz no modo de respirar a lide, trouxe a Santarém uma arte menos telúrica e mais suspensa. Não veio dizer Portugal. Veio, talvez, lembrar que a arte ibérica é também feita dessas fronteiras porosas onde o gesto muda de sotaque, mas não perde raiz.

A sua primeira passagem ficou incompleta, marcada por um oponente que a praça recebeu com reservas e assobios. Houve apontamentos, houve música, houve brinde a João Moura. Mas a obra não se fechou. Ficou como uma frase interrompida antes do verbo essencial.

Na segunda, porém, Ortega encontrou o seu lugar.

Com um toiro mais disponível, construiu aquele que terá sido o seu quadro mais conseguido. Não pela explosão. Ortega raramente pertence ao domínio da explosão. Pertence antes ao da suspensão. Ao instante em que a muleta parece atrasar o tempo e o público, se quiser ver, tem de descer o tom da própria ansiedade.

Houve temple. Houve profundidade. Houve estética. Houve suavidade. E houve, sobretudo, uma delicadeza quase insolente, porque Santarém pedia labareda e Ortega respondeu com penumbra.

Nem todos os públicos aceitam de imediato essa forma de arte. Porque a subtileza exige disponibilidade. Mas, quando acontece, deixa uma marca diferente. Não fere. Fica.

Num 10 de Junho, Ortega não representou a pátria celebrada. Seria absurdo dizê-lo. Representou antes a beleza estrangeira que se senta à mesa da nossa tradição sem a diminuir. Trouxe Espanha a Santarém, mas não como intrusão. Trouxe-a como espelho lateral, como lembrança de que também somos feitos de vizinhança, confronto, herança e diferença.

Os forcados, ou a pátria posta em corpo

A tarde teve ainda a verdade crua dos forcados. E aí a metáfora quase se recusa, porque a realidade basta.

Francisco Cabaço, pelos Amadores de Santarém, abriu o capítulo das pegas ao primeiro intento. José Maria Cortes Pena Monteiro fez o mesmo pelos Amadores de Montemor. Caetano Galhego assinou depois uma pega perfeita, também por Santarém. Vasco Ponce, por Montemor, fechou com igual eficácia à primeira tentativa.

Nas pegas, Portugal deixa de ser ideia e torna-se corpo.

Um homem avança. Outros esperam. Todos dependem de todos. Não há glória solitária, mesmo quando a cara tem nome próprio. Há grupo, obediência, confiança e uma espécie de fraternidade sem discurso. Talvez por isso os forcados sejam, no interior da tauromaquia portuguesa, a imagem mais directa de uma comunidade.

Não há ali retórica. Há peito. Há braços. Há terra. Há risco. Há um país inteiro condensado nesse gesto antigo de ir à frente sabendo que ninguém regressa sozinho. E no dia da pátria lusitana, os forcados foram mesmo a força maior desta corrida.

A tarde em que Santarém não representou Portugal: encarnou-o

A Monumental de Santarém apresentou-se com três quartos de entrada fortemente preenchidos, a sombra cheia e o ambiente próprio das grandes datas escalabitanas. Em praça estiveram João Moura Júnior, João Ribeiro Telles e Juan Ortega, perante toiros de António Raul Brito Paes e Calejo Pires. Pegaram os Amadores de Santarém e de Montemor. A corrida foi dirigida por Marco Cardoso, com assessoria veterinária de José Luís Cruz.

Mas esses são os dados. Importantes, naturalmente. Porém, insuficientes para dizer a tarde.

Porque o que aconteceu em Santarém não cabe apenas na enumeração dos nomes, das voltas e dos pesos. Aconteceu nesse lugar mais raro onde a tauromaquia deixa de ser sucessão de sortes e se torna leitura de um tempo.

Moura Júnior deu-lhe elevação e ambição. Telles deu-lhe rigor e nobreza. Ortega deu-lhe estrangeira subtileza. Os forcados deram-lhe carne, grupo e destino.

E o Dia de Portugal, tantas vezes gasto em palavras oficiais, encontrou ali uma forma mais antiga de ser celebrado. Sem pedagogia. Sem pose. Sem necessidade de agradar ao mundo. Com poeira e tudo. Aquele sentimento bruto, pouco polido, ainda assim necessário.

Na Celestino Graça, Portugal foi dito em ferro e muleta, em cavalo e jaqueta, em aplauso e protesto, em sol e poeira. Foi dito naquela mistura de beleza e desconforto que acompanha tudo o que ainda está vivo.

Talvez seja isso que nos resta, quando a pátria se torna demasiado pequena para os discursos: procurar os lugares onde ela ainda respira.

Em Santarém, respirou.

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