UHF no Rock in Rio: a multidão do Music Valley cantou 48 anos de canções sem idade e saiu de lá rejuvenescida.
Texto: Rui Lavrador
Fotografia: Rock in Rio
O sol não facilitava. Mais uma vez, neste festival. No Palco Music Valley, este sábado, 27 de junho, o calor apertava sem piedade, embora ligeiramente melhor que no fim-de-semana transato. Ainda assim, a multidão que se juntou para ver os UHF parecia não ter fim.
Havia gente até onde a vista alcançava. E talvez isso diga quase tudo sobre uma banda que leva 48 anos de carreira, mas continua longe de ser apenas memória.
Os UHF não foram ao Rock in Rio Lisboa fazer número. Foram tocar canções que pertencem a várias gerações. E foram recebidos como quem ainda tem muito para dizer.
Um alinhamento feito de canções que resistem ao tempo
O concerto começou com Bora lá e rapidamente se percebeu que a tarde não seria de aquecimento lento. A banda entrou directa, com a estrada toda no corpo, mas sem a pose pesada de quem vive preso ao passado.
Depois vieram Matas-me com o teu olhar, Rapaz caleidoscópio, Brincar no fogo, Sarajevo, Na tua cama e Nove anos. Tema atrás de tema, o Music Valley foi respondendo com uma entrega que crescia a cada refrão.
Persona non grata, RockinRio.pt e Os putos vieram divertir-se mantiveram o concerto em andamento, antes de Rua do Carmo, Cavalos de corrida e Hesitar levarem o público para outra zona da memória dos UHF.
Foi um alinhamento de hits, sim. Mas não daqueles alinhamentos pensados só para cumprir serviço. Aquilo teve pulso, teve presença e teve a força de quem sabe que as canções continuam vivas.
Escrevo isto como fã, sem fingir distância
Há concertos em que a distância jornalística é útil. Neste caso, não vale a pena fingir. E poupa-se a pachorra ao politicamente correcto.
Escrevo como fã dos UHF. E escrevo com a certeza de que esta banda continua a ter uma coisa rara: faz-nos sentir jovens sem nos pedir para esquecer o tempo. Atente-se que o autor deste texto é mais novo que os UHF.
Talvez seja essa a maior intemporalidade das canções. Elas não nos devolvem exactamente ao passado. Trazem o passado para o presente, sem o tornar pesado. Um GPS sobre emoções, aquelas que devemos seguir e até como geri-las nas diferentes fases da vida.
No Music Valley, isso sentiu-se em muitos rostos. Gente de diferentes idades cantava os mesmos temas, debaixo de um sol abrasivo, como se todos tivessem encontrado ali uma idade comum. A dos concertos bons. Ou extraordinários, se preferirem.
“Menina estás à janela” levou muita gente para cima do palco
O momento mais forte chegou com Menina estás à janela.
Nessa altura, o palco encheu-se de gente. Muita gente. E o que podia ser apenas uma canção reconhecida por todos transformou-se num instante enorme.
Foi daqueles momentos em que um concerto deixa de pertencer só à banda. E este nunca pertenceu inteiramente à banda, porque o público inseriu-se desde o início nele. Passa a ser também da multidão, dos convidados, dos fãs e de todos os que percebem que uma canção popular pode ganhar outra dimensão quando é cantada em conjunto.
A imagem ficou: os UHF em palco, o Music Valley cheio, o público a cantar e a sensação de que havia ali qualquer coisa de épico. E épico não é um exagero ou a emotividade a tomar conta do teclado de quem escreve.
Sem fogo-de-artifício desnecessário. Sem truques. Apenas uma canção, uma banda e muita gente dentro do mesmo momento.
A força de uma banda que não parece parada no tempo
Depois de Menina estás à janela, ainda houve espaço para mais e ficou a ideia de um concerto que passou depressa demais. Ritmo festivaleiro assim obriga.
E isso também conta.
Os UHF têm quase cinco décadas de caminho, mas continuam a não soar como uma banda arrumada numa prateleira. Há neles uma verdade de estrada, de palco e de canções que foram ficando porque tinham de ficar.
António Manuel Ribeiro conhece aquele lugar como poucos. Não precisa de provar a história da banda a cada minuto. Basta-lhe cantá-la. E, quando isso acontece, percebe-se porque é que os UHF continuam a juntar multidões.
Este concerto no Rock in Rio Lisboa foi mais do que uma celebração de carreira. Foi a prova de que há repertórios que não envelhecem à mesma velocidade dos calendários.
Debaixo daquele sol, com o público a perder de vista, os UHF fizeram aquilo que fazem há décadas: tocaram canções que pertencem ao país, mas que cada fã guarda como se fossem suas.
E talvez seja por isso que, mesmo com 48 anos de carreira, continuam a fazer-nos sair de um concerto mais novos do que entrámos. E com o teimoso vício e vontade de os voltar a ver e ouvir em breve, ao vivo.
