Montijo pela voz dos cavaleiros: Diego Ventura falou do risco, Rui Fernandes da leitura dos toiros e João Ribeiro Telles da temporada, na noite de ontem.
Fotos e entrevistas: Diogo Nora
Texto: Rui Lavrador
A Corrida de São Pedro, no Montijo, contou com casa cheia, boas lide e também as palavras dos três cavaleiros que deram corpo ao cartel, ao site Infocul.pt.
Diego Ventura, Rui Fernandes e João Ribeiro Telles fizeram o balanço das respetivas atuações e deixaram leituras diferentes sobre os toiros que lhes couberam em sorte. Entre a exigência dos oponentes, a entrega do público e o momento da temporada, as declarações completam a reportagem sobre o espetáulo realizado ontem.

Diego Ventura assumiu o risco: “Os toureiros devem arriscar”
Distinguido com o prémio de melhor lide, Diego Ventura não escondeu que os dois toiros tiveram dificuldades próprias. Ainda assim, o rejoneador luso-espanhol valorizou a forma como conseguiu construir momentos de impacto, mesmo perante matéria desigual.
“Eu desfrutei, dentro do que foram dois toiros com as suas dificuldades. O primeiro toiro foi um toiro muito parado, que não transmitia nada, um toiro sem classe. E, no momento do ferro, vinha muito à direita, não ia muito ao engano. Mas acho que estive bem com ele. Arrisquei, que é uma das coisas que eu acho que os toureiros devem fazer: arriscar e pisar terrenos comprometidos.”
Ventura sublinhou, depois, que o segundo exemplar da sua noite teve um comportamento cambiante, sem ritmo regular no galope. Ainda assim, encontrou espaço para deixar a sua marca.
“Neste segundo toiro, foi um toiro cambiante. Um toiro que não tinha esse ritmo do galope, de manter-se no galope. Era um toiro que vinha meio ao trote, meio ao galope, e depois já dava um arrião. Acho que tive coisas bonitas nos dois toiros. A forma de cravar, os compridos foram muito bonitos. O ferro cambiado acho que foi muito importante no primeiro toiro. E, neste segundo toiro, também foi uma coisa especial. Acho que o público desfrutou, que é o que mais me importa.”
O público, aliás, foi tema central na conversa. Ventura rejeitou a ideia de uma diferença única entre Portugal e Espanha, preferindo destacar as particularidades de cada praça, de cada região e de cada ambiente.
“São públicos completamente diferentes. Eu acho que em Espanha, segundo as cidades, porque também temos que ver, acho que é igual aqui em Portugal. Não são os mesmos públicos, por exemplo, o público de Lisboa, o público de Santarém, o público do Norte ou do Alentejo. Acho que os públicos são muito diferentes, depende da cidade onde estamos. Em Espanha passa igual.”
Depois, deixou uma ideia clara sobre aquilo que espera de quem vai à praça.
“Eu gosto muito de tourear nos dois sítios, quando os públicos se entregam, quando os públicos vêm aos toiros para se divertir. Não gosto nada quando os públicos estão sempre a querer ver o mal e a querer esperar que façam alguma coisa má. Acho que o público tem que ir à praça para desfrutar do toureio e, dentro das coisas boas que há, aplaudir. E, nas coisas más, também devem assobiar quando têm que assobiar. Mas venham com a mentalidade de desfrutar do toureio. Acho que em Portugal há um público muito especial, de que eu gosto muito, e em Espanha também é um sítio de que gosto muito.”

Rui Fernandes: “Estive por cima do toiro”
Rui Fernandes fez uma análise marcada pela exigência dos dois toiros. O cavaleiro considerou que o público desfrutou da primeira atuação, mas reconheceu que o segundo oponente levantou outro tipo de problemas.
“Até ali, penso que o público desfrutou muito. Este segundo toiro foi já bastante difícil. Pediu-nos muita atenção, pela maneira como se punha para a frente, reservado, com muita crença no meio. Foi um toiro, penso, bastante complicado. Penso que estive por cima do toiro e penso que o público assim o viu. Acho que dei a lide adequada. Penso que a noite foi bastante positiva.”
Questionado sobre as diferenças entre públicos em Portugal e Espanha, Rui Fernandes respondeu com uma frase simples, mas de leitura larga. Para o cavaleiro, o toureio bem executado atravessa geografias.
“Eu penso que, quando se toureia bem, até na China todos entendem. Acho que, por vezes, é igual ao que acontece no nosso país. O público alentejano, o público mais do Ribatejo ou do Norte têm sempre formas diferentes de entender um toiro e maneiras diferentes de festejar. Mas, como eu dizia, quando se toureia bem, acho que toda a gente entende.”
A resposta resume uma visão madura da relação entre arena e bancada. Para Rui Fernandes, a diversidade do público não é obstáculo. É parte da própria geografia emocional da tauromaquia.
João Ribeiro Telles valorizou a primeira lide e olha para uma temporada forte
João Ribeiro Telles fez um balanço positivo das duas lides, com destaque para o primeiro toiro que lhe coube em sorte. O cavaleiro considerou que teve matéria mais favorável nessa primeira atuação e valorizou também o comportamento da sua quadra.
“Acho que o balanço é bastante positivo. A primeira lide foi com um toiro extraordinário. Acho que os cavalos estiveram francamente bem.”
João Ribeiro Telles referiu ainda o desempenho de alguns cavalos e destacou momentos específicos da lide. Ainda assim, a ideia central ficou clara: a primeira atuação teve outra qualidade, enquanto a segunda exigiu maior capacidade de adaptação.
“O segundo foi mais complicado, mas tinha a sua lide. Acho que acabei por cima, acabou por transmitir a lide num toiro complicado, porque não tinha a qualidade do outro.”
A meio da temporada, João Ribeiro Telles mostrou-se satisfeito com o percurso feito até agora. O cavaleiro explicou que tem a quadra dividida, com cavalos também nos Açores, e apontou para um calendário exigente nos próximos meses.
“Graças a Deus, tem sido bastante boa. Hoje mesmo tenho a quadra dividida. Tenho cavalos nos Açores também. O mês de agosto e de setembro é forte. Espero que continue neste caminho.”
Entre compromissos em diferentes praças e uma quadra em gestão permanente, João Ribeiro Telles deixou a imagem de uma temporada em movimento, com ambição e continuidade.
Três leituras para uma mesma noite
As declarações dos três cavaleiros revelam também três formas diferentes de estar na arena.
Diego Ventura falou do risco, da necessidade de pisar terrenos comprometidos e da importância de um público disponível para desfrutar. Rui Fernandes sublinhou a leitura do toiro, a atenção exigida e a capacidade de estar por cima das dificuldades. João Ribeiro Telles destacou a qualidade da primeira lide, a exigência da segunda e o momento positivo da temporada.
No Montijo, São Pedro voltou a ter peso. E, pelas vozes dos protagonistas, percebeu-se que a corrida não ficou apenas na arena. Ficou também no balanço de quem a construiu por dentro e deixou o público satisfeito.
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