José Tolentino de Mendonça reflete sobre S. João Batista: “A vida também nos chega do futuro”

José Tolentino de Mendonça reflete sobre S. João Batista: “A vida também nos chega do futuro”, assinalou nas redes sociais.

O cardeal José Tolentino de Mendonça partilhou nas redes sociais um excerto de uma homilia dedicada à Festa do Nascimento de S. João Batista.

A partir do nome dado ao filho de Isabel e Zacarias, o cardeal constrói uma reflexão sobre futuro, novidade, fé e confiança.

No centro da mensagem está a ideia de que a vida não deve ser lida apenas como consequência do passado. Também pode ser começo.

Um nome que rompe com o passado

José Tolentino de Mendonça começa por situar a reflexão no momento em que Isabel dá à luz.

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O cardeal recorda que, perante o nascimento, surge a necessidade de dar um nome à criança.

“Ora, quando aquela mulher estéril dá à luz um filho, é preciso pôr-lhe um nome.”

Depois, aproxima o episódio bíblico da experiência comum das famílias.

“E, naturalmente, isso ainda acontece hoje: vai-se buscar o nome de um parente, um nome de família, um nome que transporte a memória de uma determinada história.”

Porém, no caso de Isabel e Zacarias, a escolha não segue esse caminho. O nome dado ao filho não nasce da tradição familiar.

“Isabel e Zacarias vão pôr ao filho um nome que não tem nada a ver com o seu passado, não tem nada a ver com a sua família, não tem nada a ver com a sua história.”

Assim, para José Tolentino de Mendonça, esse gesto torna-se sinal de novidade.

“Vão buscar um nome inédito, um nome novo, um nome que é um nome de começo, é um novo princípio, é alguma coisa que não é herdada do passado, mas é uma manifestação do futuro, é emergência pura do futuro.”

A surpresa que não cabe no esperado

Na homilia, o cardeal sublinha que a escolha do nome causa estranheza nos outros.

A decisão de Isabel e Zacarias rompe com aquilo que seria esperado naquele contexto.

“E toda a gente diz: ‘Mas o que é que vocês estão a fazer? Isso não bate certo!’”

A partir daí, José Tolentino de Mendonça leva a reflexão para a vida de cada pessoa.

Segundo o cardeal, também a existência humana não pode ser vista apenas como resultado de uma cadeia de acontecimentos anteriores.

“Também a nossa vida nós não podemos olhá-la apenas como um pré-determinismo, não podemos olhá-la apenas como uma consequência do passado, uma consequência dos fatores que estão em ato.”

Depois, acrescenta uma das frases mais fortes do texto.

“A vida também é um salto, a vida também nos chega do futuro, não nos chega só do passado.”

O hoje como surpresa de Deus

José Tolentino de Mendonça insiste na ideia de que o presente não pertence apenas ao que ficou para trás.

Para o cardeal, o hoje abre-se também ao inesperado de Deus.

“O hoje não é só o que tem a ver com o ontem; o hoje também é a surpresa de Deus, é este futuro de Deus que se abeira da soleira da nossa porta, da soleira deste instante que nós somos.”

Depois, o texto ganha um tom de apelo. A novidade exige abertura interior.

“E é a abertura de coração também a esse futuro, a essa novidade, a esse lado inédito da vida, que nos faz começar, a cada momento, uma nova história e nos faz acreditar que é possível, que é possível, que é possível…”

A repetição final reforça a mensagem de esperança que atravessa a homilia.

A fé tem nomes e vidas concretas

Mais à frente, José Tolentino de Mendonça enquadra a reflexão na celebração litúrgica.

O cardeal recorda que a Igreja assinala o nascimento de S. João Batista.

“Hoje, nós celebramos a Festa do Nascimento de S. João Batista.”

Depois, explica a importância dessa celebração para a forma como se entende a fé.

“Isto é muito importante. Porquê? A fé tem protagonistas concretos; a fé não é uma abstração em movimento na história.”

A fé, sublinha o cardeal, acontece através de vidas reais.

“São vidas concretas, nomes concretos, mulheres e homens que nascem, amam, amadurecem, partem em Deus, mas que, no aqui e no agora, são capazes de corporizar esse desejo de Deus, esse sonho de Deus.”

Assim, a reflexão deixa de ser apenas sobre João Batista. Passa também a ser sobre cada pessoa e sobre a sua capacidade de dar corpo ao sonho de Deus.

“Aquilo que somos é muito importante”

Na parte final da homilia, José Tolentino de Mendonça dirige a mensagem a cada vida concreta.

O cardeal lembra que ninguém é indiferente no olhar de Deus.

“Por isso, a vida de cada um de nós é muito importante.”

Depois, reforça a mesma ideia com outra formulação.

“Aquilo que somos é muito importante!”

A frase seguinte coloca a existência humana sob o sinal da bênção, e não da condenação.

“Nós não fomos feitos para a sombra da maldição, mas fomos feitos para a luz de uma bênção.”

Uma palavra que se torna caminho

Por fim, José Tolentino de Mendonça deixa uma mensagem de confiança.

A Palavra, escreve o cardeal, ilumina e transforma-se em caminho concreto.

“Cada um de nós se sinta, por isso, iluminado por esta Palavra que hoje, vinda de Deus, se torna caminho concreto, se torna manifestação da confiança de Deus no coração de cada um de nós.”

O texto termina com a identificação da autoria e do contexto da reflexão.

“— Card. José Tolentino de Mendonça©, homilia.”

Entre o nascimento de João Batista e a escolha de um nome novo, José Tolentino de Mendonça deixa uma leitura sobre a vida como possibilidade.

Nem tudo vem do passado. Há também futuro, surpresa e recomeço à espera de entrar.

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