Tânia Laranjo chama “propaganda” à viagem de influenciadores a Israel e O Arrumadinho discorda, nas redes sociais.
“Foi uma viagem de propaganda. Apenas isso. E não foi assumida como tal.” Tânia Laranjo não deixou margem para dúvidas sobre a leitura que faz da deslocação de oito influenciadores digitais portugueses a Israel, realizada a convite das autoridades israelitas. A jornalista colocou em causa a ausência de contraditório no percurso apresentado ao grupo, enquanto Ricardo Martins Pereira, conhecido como O Arrumadinho, defendeu que os participantes não são jornalistas e têm plena liberdade para expressar as suas opiniões.
A discussão ganhou novos contornos depois de uma reflexão de Tânia Laranjo nas redes sociais, à qual Ricardo Martins Pereira respondeu diretamente. Rute Sousa, uma das participantes na viagem, também já rejeitou publicamente a ideia de que o grupo tenha recebido instruções sobre aquilo que deveria mostrar ou dizer.
“Sobretudo no que toca àquilo que interessava mostrar”
Tânia Laranjo começou por olhar para a própria organização da visita e para o facto de transporte, roteiro e deslocações terem sido assegurados no âmbito do convite.
“Oito influenciadores. Eu, pelo menos, não conhecia nenhum – o que diz mais sobre mim, do que sobre eles. Mas foram a Israel a convite do governo, com viagem, roteiro e visitas incluídas. Passaram por Gaza e pelos locais do massacre de 7 de Outubro. Uma visita muito completa, portanto. Sobretudo no que toca àquilo que interessava mostrar. Depois vieram dizer que ninguém lhes deu instruções sobre o que deviam contar. Ainda bem. Seria uma deselegância desnecessária.”
A jornalista centrou a crítica não numa eventual ordem direta dada aos criadores de conteúdos, mas na seleção prévia da realidade que lhes teria sido apresentada.
“Quem paga a viagem pode sempre limitar-se a escolher os convidados, o percurso, os sítios onde param, as pessoas com quem falam e, já agora, aquilo que não faz parte do passeio. A partir daí, cada um pensa livremente.”
Foi precisamente neste ponto que estabeleceu uma distinção entre a função de um influenciador e o trabalho jornalístico.
“É por isso que convém chamar as coisas pelos nomes: isto não é jornalismo. Um jornalista não estaria ali para agradecer o convite e reproduzir a realidade que lhe foi preparada. Estaria ali para desconfiar dela. Para perguntar o que ficou de fora. Para procurar quem não foi convidado. Para fazer perguntas que talvez tornasse a visita um pouco menos agradável.”
Tânia Laranjo concluiu que a influência sobre a perceção dos participantes não precisaria, na sua leitura, de assumir a forma de instruções explícitas.
“Aqui parece ter acontecido o contrário. Não lhes disseram o que pensar. Seria uma infantilidade. Levaram-nos apenas a ver o que queriam que eles vissem. E depois ficaram muito descansados: a conclusão já não precisava de ser dada por ninguém. Cada um podia chegar a ela sozinho.”
O Arrumadinho responde: “Liberdade de expressão é isso mesmo”
Ricardo Martins Pereira entrou na discussão através da caixa de comentários e apresentou uma leitura diferente.
O comunicador começou por salientar que alguns dos influenciadores convidados já manifestavam posições favoráveis a Israel muito antes desta viagem.
“Eu também não conheço todos os influenciadores, mas conheço alguns. E esses já diziam, há muito tempo, há anos, tudo o que disseram depois da viagem. Eles foram convidados, precisamente, porque durante muito tempo mostravam uma linha de pensamento e análise que se encaixava com aquilo que Israel acredita ser o correto.”
O Arrumadinho lembrou depois que nenhum dos participantes estava no terreno enquanto jornalista.
“Nenhum deles é jornalista, nenhum deles tem um código deontológico que o obrigue a nada e todos eles são e devem ser livres de dizer o que pensam nas suas redes sociais – liberdade de expressão é isso mesmo.”
Ricardo Martins Pereira rejeitou igualmente que uma posição favorável a qualquer um dos lados permita tirar conclusões sobre a inteligência de quem a defende.
“Não me parece que alguém que tenha uma linha de pensamento pró-Israel seja alguém desprovido de inteligência e que alguém que seja pró-Palestina seja, só por isso, um génio. Não consigo ver grande polémica neste tema.”
Tânia Laranjo respondeu numa frase curta e taxativa:
“Eu consigo. Porque foi uma viagem de propaganda. Apenas isso. E não foi assumida como tal.”
Rute Sousa rejeita ideia de condicionamento
Rute Sousa, uma das influenciadoras que integrou a deslocação, também já apresentou publicamente a sua versão.
Em declarações no NOW, a criadora de conteúdos rejeitou ter recebido um guião que determinasse aquilo que deveria publicar e afirmou que a decisão de se deslocar à zona próxima da Faixa de Gaza partiu da sua própria iniciativa.
Rute Sousa procurou ainda contrariar a ideia de que o grupo teria estado sujeito a um percurso totalmente fechado e defendeu que a sua experiência não deve ser apresentada como resultado de coação ou de instruções editoriais.
A discussão fica, assim, num ponto que vai além das posições individuais sobre o conflito. No centro está também a natureza destas viagens, a diferença entre testemunho pessoal e reportagem jornalística e a influência que a escolha dos locais, interlocutores e experiências pode exercer sobre aquilo que posteriormente chega às redes sociais.
Para Tânia Laranjo, essa seleção basta para classificar a iniciativa como propaganda. Para Ricardo Martins Pereira, o essencial é outro: os influenciadores não estavam a desempenhar uma função jornalística e têm o direito de mostrar e defender a leitura que fazem daquilo que viram.
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