Vanessa Oliveira diz-se inquieta com as imagens dos protestos pela habitação e pede ao Governo que dê respostas a quem não consegue pagar uma casa. Francisco Rodrigues dos Santos condena o recurso à força e defende o diálogo político. Já Tânia Laranjo questiona a ocupação do Rossio, embora ressalve que a PSP não tem um “cheque em branco” para atuar.
Em publicações distintas nas redes sociais, este domingo, 25 de outubro, os três pronunciaram-se sobre os acontecimentos da madrugada. Reconhecem a gravidade das dificuldades de acesso à habitação, mas apresentam leituras diferentes sobre o protesto e a resposta das autoridades.
Vanessa Oliveira: “Não escrevo isto contra a polícia”
Vanessa Oliveira partilhou no Instagram fotografias que creditou a José Sena Goulão e começou por explicar o impacto que tiveram em si: “Há imagens que me custam a aceitar. E nem queria acreditar nestas do @josesenagoulao.”
A apresentadora associou a sua inquietação à forma como terminou o protesto e distinguiu a crítica à intervenção de uma tomada de posição contra a instituição policial.
“Ver pessoas na rua a lutar por uma coisa tão básica como o direito a ter uma casa e assistir à forma como tudo terminou esta madrugada deixa-me profundamente inquieta. E revoltada. Não escrevo isto contra a polícia. Escrevo porque me assusta que a resposta visível a uma crise que é política, social e humana acabe por ser uma resposta de força.”
Vanessa Oliveira lembrou depois quem está no centro da discussão: “Estamos a falar de habitação. De pessoas que trabalham e não conseguem pagar uma renda. De jovens que não conseguem sair de casa dos pais. De famílias que fazem contas todos os meses e percebem que ter um teto digno se transformou quase num luxo.”
“Que futuro lhes estamos a preparar?”
A preocupação com os filhos levou a apresentadora a questionar as perspetivas de autonomia das próximas gerações.
“E eu sou mãe. É impossível olhar para isto sem pensar nos meus filhos. Que futuro lhes estamos a preparar? Quanto terão de ganhar um dia para conseguir sair de casa? Será normal aceitarmos que uma geração inteira cresça convencida de que ter uma casa é um privilégio e não uma possibilidade normal de uma vida construída com trabalho? É isto que me mete medo.”
Vanessa Oliveira dirigiu também uma crítica ao Governo, a quem pediu presença, explicações e capacidade de ouvir.
“E no meio de tudo isto a ausência do Governo também me incomoda. Quando milhares de pessoas saem à rua por não conseguirem imaginar um futuro onde possam pagar uma casa, eu espero que quem governa apareça. Que fale. Que ouça. Que explique. Que assuma a dimensão do problema. Não espero silêncio.”
Admitindo divergências sobre soluções e formas de protesto, recusou a normalização das dificuldades: “Podemos discutir soluções. Podemos discordar das formas de protesto. Podemos discutir leis, rendas, impostos, construção, imigração, turismo, tudo. Mas não podemos normalizar isto. Uma casa não devia ser um sonho impossível.”
Terminou com um apelo à responsabilidade coletiva: “E uma geração a gritar que tem medo de não conseguir viver no seu próprio país devia preocupar-nos a todos. Preocupo-me. Como cidadã. Como mãe. E, sobretudo, como alguém que não quer olhar para trás daqui a dez ou vinte anos e perceber que vimos tudo isto acontecer e ficámos calados.”
Francisco Rodrigues dos Santos: “Uma Casa adiada é uma vida adiada”
Também no Instagram, Francisco Rodrigues dos Santos defendeu que as divergências políticas não devem impedir o reconhecimento da urgência da habitação.
“Entre nós e quem se manifesta pode existir um mundo de divergências nas ideias sobre a habitação. Mas convergimos no essencial: a habitação tem de ser uma prioridade, negligenciada por sucessivos. A repressão não é solução.”
Nas imagens que acompanham a publicação, descreveu uma promessa de mobilidade social que considera ter falhado aos mais novos.
“Primeiro mentimos-lhes. Ensinámos-lhes que se estudassem e trabalhassem, teriam uma vida melhor. Quando chegou a vez deles de subir na vida, o elevador social avariou. Ficaram à porta.”
A impossibilidade de conseguir uma casa foi apresentada como um obstáculo a outros projetos pessoais: “Depois roubamos-lhes anos de vida. Uma Casa adiada é uma vida adiada. É um Lar, uma família e um futuro que não se constroem.”
Sobre a contestação, acrescentou: “Então eles manifestaram-se pacificamente, porque se a Ordem é esta, então merece ser questionada.”
“A resposta às falhas do Estado Social não pode ser o Estado Policial”
Francisco Rodrigues dos Santos atribuiu ao Governo responsabilidades na forma como a discussão passou da habitação para a segurança.
“Em resposta, o Governo preferiu acusar em vez de empatizar. Desviar o tema da habitação para a segurança. Acicatar o clima para justificar a brutalidade da força. Por fim, usar o bastão sem justificação.”
Na sua avaliação, o recurso à repressão agrava o conflito em vez de resolver as dificuldades que o motivam.
“A resposta às falhas do Estado Social não pode ser o Estado Policial. Até porque a repressão escala a contestação. A solução é o diálogo político e a renovação da esperança.”
A publicação terminou com uma comparação entre a mudança da hora e um recuo político: “Pensei que esta noite os relógios tinham atrasado uma hora. Afinal, parece que recuaram 53 anos.”
Tânia Laranjo questiona ocupação do Rossio e tratamento dos jornalistas
No Facebook, Tânia Laranjo apresentou outra leitura dos acontecimentos. A jornalista começou por salientar os avisos que, segundo escreveu, antecederam a intervenção policial.
“A madrugada em Lisboa não começou às duas da manhã, quando a polícia avançou sobre as tendas. Começou muito antes. Com dezenas de avisos. Dezenas. Houve tempo para desmontar o acampamento e sair do Rossio. Houve muitos que decidiram que não.”
Reconhecendo a legitimidade da reivindicação por habitação, contestou a ideia de que essa causa permita controlar o acesso a uma praça pública.
“Mas há algumas notas a realçar: Uma coisa é lutar pelo direito à habitação. Outra é achar que, por se defender uma causa justa, se ganha o direito de tomar conta de uma praça, montar tendas por tempo indeterminado e decidir quem pode ou não estar naquele espaço.”
Tânia Laranjo afirmou ainda que jornalistas foram afastados da proximidade das tendas.
“E houve quem se esquecesse disso ao ponto de expulsar jornalistas. Sim, jornalistas, da proximidade das tendas. Os mesmos que dão visibilidade à causa, desde que não façam perguntas incómodas ou não estejam ali a fazer o seu trabalho.”
“A polícia não está acima da lei. Os manifestantes também não”
A jornalista insistiu que as dificuldades de acesso à habitação são reais, mas não justificam, na sua perspetiva, a apropriação do espaço público.
“A habitação é um problema sério, já o disse várias vezes. Há pessoas que trabalham e não conseguem pagar uma casa. Mas isso não transforma uma praça num quintal, nem dá a ninguém o direito de escolher quem pode entrar.”
Ao mesmo tempo, ressalvou que a atuação policial também deve ser escrutinada e que eventuais excessos têm de ser apurados.
“Também nada disto dá à PSP um cheque em branco. A força usada tem de ser proporcional e os excessos, se existiram, têm de ser apurados. A polícia não está acima da lei. Os manifestantes também não.”
A publicação terminou com uma defesa do acesso de todos ao espaço público: “O espaço público é de todos. Não apenas de quem monta uma tenda e decide que, a partir dali, manda. Mas uma causa justa não dá direito a tudo. Nem sequer a escolher quem pode assistir.”
