Tânia Laranjo criticou a forma como têm decorrido os protestos pela habitação em Lisboa, embora reconheça a legitimidade das reivindicações. Numa publicação no Facebook, a jornalista relatou situações que afirma ter presenciado e acusou alguns participantes de substituírem a discussão de soluções por insultos e apelos à raiva.
“A habitação continua a ser um drama. Os jovens têm razão em exigir respostas. Mas uma causa justa não santifica todos os que se penduram nela”, escreveu, distinguindo o problema habitacional dos comportamentos que contesta.
«A causa parece ter ficado debaixo das tendas»
Na publicação, Tânia Laranjo começou por assumir o apoio ao motivo que levou os manifestantes à rua, antes de apresentar um balanço crítico dos dias de protesto.
“A manifestação pela crise da habitação era justa. Digo era sem qualquer pudor. Ao fim de cinco dias, a causa parece ter ficado debaixo das tendas, soterrada no lixo e no cheiro a droga. Não vi uma única assembleia popular a discutir soluções, propostas ou caminhos.”
A jornalista descreveu depois o que disse ter ouvido no dia anterior, questionando o conteúdo das intervenções dirigidas aos participantes.
“Ontem, ouvi jovens a apelar à raiva, de altifalante na mão. Aparentemente, descobriram que gritar é mais fácil do que pensar. Vi outros a insultar Luís Montenegro. Duvido que saibam que o ministro responsável pela Habitação se chama Pinto Luz. Mas isso são pormenores. Para insultar um primeiro-ministro não é preciso dominar a orgânica do Governo.”
Jornalista aponta lixo e critica comportamentos na praça
Tânia Laranjo voltou à referência ao consumo de droga, fazendo uma distinção entre legalização e descriminalização no seu comentário.
“O cheiro a droga é nauseabundo. E não, a ganza não é legal. Foi descriminalizada. A diferença pode parecer um detalhe para quem confunde liberdade com vale-tudo.”
Na mesma publicação, afirmou ter observado trabalhadores municipais a limpar o espaço ocupado pelos manifestantes.
“Vi funcionários da Câmara a limpar o lixo deixado por quem protesta contra uma sociedade que não funciona. A ironia, essa, ficou por recolher.”
As descrições correspondem ao relato publicado pela jornalista, que também criticou a concentração de meios policiais na praça e as consequências que considera existirem para o resto de Lisboa.
“E vi uma cidade à mercê dos bandidos, com o policiamento concentrado numa praça, como se Lisboa inteira pudesse ficar em pausa enquanto se brinca à revolução.”
«Ocupar uma praça não faz de ninguém revolucionário»
Apesar das críticas, Tânia Laranjo reconheceu que a dificuldade de acesso à habitação continua a exigir respostas. O reparo final foi dirigido à forma como alguns participantes assumem a intervenção pública.
“E ocupar uma praça não faz de ninguém revolucionário. Às vezes, faz apenas de alguém que encontrou um microfone e descobriu que a raiva dá menos trabalho do que as ideias”, concluiu.
A publicação surge num contexto de tensão em torno da acampada do Rossio, onde a PSP voltou a ordenar a retirada das tendas na manhã desta quinta-feira, 22 de outubro.
