Tânia Laranjo criticou o Governo por aquilo que considera uma inversão das prioridades no apoio às famílias carenciadas. Numa publicação no Facebook, contrapôs os incentivos à compra de carros elétricos às dificuldades para pagar a habitação e a alimentação.
A jornalista recorreu à ironia para questionar a adequação da medida às necessidades de quem enfrenta dificuldades económicas. Sem identificar o programa de apoio ou detalhar as suas condições, começou por interrogar o processo de decisão.
“Eu gostava de ter estado na reunião em que alguém se lembrou de apoiar a compra de carros elétricos para famílias carenciadas. Gostava mesmo. Saber quem foi, quem concordou e, sobretudo, se alguém se riu.”
Na sua análise, o problema está na distância entre o objetivo dos incentivos e as despesas que pressionam os orçamentos familiares.
“No país em que os apoios às rendas se atrasam sucessivamente, em que há famílias que não sabem como vão pagar a casa no mês seguinte, descobrimos que a prioridade é ajudá-las a comprar um carro elétrico.”
“Não temos dinheiro para a comida”
Tânia Laranjo acentuou o contraste com uma frase sarcástica: “Uma família sem dinheiro para a renda, mas com um futuro promissor na mobilidade sustentável. É bonito.”
Para ilustrar a crítica, imaginou uma conversa entre uma família em dificuldades e quem lhe propõe a aquisição de um veículo.
“Imagino a conversa:
- Este mês não conseguimos pagar a casa.
- Mas já pensaram num elétrico?
- Não temos dinheiro para a comida.
- Pois, mas poupam nas emissões.”
A jornalista questionou também as condições práticas para carregar o automóvel, prolongando o tom irónico da publicação.
“Há qualquer coisa de profundamente cómico nisto. Só falta o Estado oferecer um carregador para instalar na garagem. Qual garagem, perguntam vocês? Isso agora são pormenores.”
Governo comparado às campanhas da Ryanair e da Control
Na parte final do texto, Tânia Laranjo dirigiu a crítica a quem concebeu a proposta, sem identificar responsáveis concretos.
“O iluminado que se lembrou disto devia ser promovido. Não sei para quê, mas promovido. Uma pessoa com esta capacidade de identificar as necessidades dos mais pobres não pode ficar num cargo menor.”
A publicação terminou com uma comparação entre a atuação do Governo e as campanhas publicitárias de duas marcas conhecidas pelo humor.
“A Ryanair e a Control passam a vida a tentar inventar campanhas disparatadas para nos fazer rir. Nós temos um Governo que faz isto e ainda pagamos nós a agência de publicidade.”
