
Adeus apoteótico a Simone de Oliveira, no Coliseu dos Recreios, ontem à noite.
Texto: Rui Lavrador
Fotografia: João de Sousa.
Chegou ao fim a carreira de Simone de Oliveira. O Coliseu dos Recreios, em Lisboa, recebeu esta terça-feira, 29 de Março, o último espectáculo da cantora.
São 65 anos de carreira, que levaram Simone ao teatro, à televisão e às canções. Perante casa cheia, Simone de Oliveira recebeu várias ovações ao longo da 1h10 de duração do espectáculo de despedida dos palcos.
Com a presença de muitos artistas na plateia- além do Presidente da República, do Presidente da Câmara Municipal de Lisboa e Ministra da Cultura cessante- Simone de Oliveira foi emocionalmente intensa.
Revelou que termina a carreira “nos termos em que quis e quero”, explicando que pretende fazer outras coisas na vida.
O alinhamento do espectáculo foi curto, demonstrando-se assim que a obra musical é qualitativa, mas pouco quantitativa, contando ainda com alguns convidados.
E os convidados não foram escolhidos ao acaso. Foram escolhidos com base na confiança que Simone de Oliveira tem no futuro da música portuguesa, por actualmente, na sua opinião, existirem jovens a cantar muito bem.
[Best_Wordpress_Gallery id=”2619″ gal_title=”Simone de Oliveira- Coliseu dos Recreios- 2022″]O primeiro convidado foi DJ Kamala, naquilo que se pode considerar um devaneio de quem teve a ideia de o convidar. Não acrescentou nada ao espectáculo e o que fez com a obra musical de Simone foi uma caldeirada sem sabor e não fará grande sucesso na memória de quem assistiu.
Carlão foi o segundo convidado em palco e o momento foi bom. Estilos díspares, unidos pela arte, uma ponte entre o passado e o futuro e o público a saber reconhecer.
Seguiu-se Edmundo Inácio, jovem que se deu a conhecer no The Voice Portugal, que cantou ‘Sol de Inverno’, de forma expressiva, com domínio vocal e uma linguagem física bastante dramática. Um bom momento no Coliseu dos Recreios.
Outro momento alto aconteceu no tema “Apenas o meu povo”. Simone deu a entrada no tema e seguidamente vários artistas começaram a cantar a partir da plateia. Henrique Feist, Ruben Madureira, FF, Sissi Martins, Marisa Liz e Áurea juntaram-se a Simone e terminaram em coro, num momento bonito, intenso e que fez o público saltar das cadeiras para um prolongado aplauso.
Ao longo do espectáculo, Simone foi desfiando alguns pensamentos, com a ajuda de um teleponto (que estava demasiado visível) e mostrou-se grata pelo carinho do público, grata pelo percurso, porém desejosa de viver o futuro longe dos holofotes do palco. É esta liberdade de fazer o que quer, quando quer e como quer, que a tornou num símbolo nacional. É um exemplo de resiliência, um exemplo para todas as mulheres e um exemplo para o futuro.
Na vida, há os que querem ser grandes artistas, mas falham como seres humanos. Simone de Oliveira fez tudo ao contrário. Foram os seus ideais que ajudaram a consagrá-la como artista. Conseguiu ser um exemplo em termos humanos e ao mesmo tempo arrebatar plateias. Foi adorada e criticada, mas fez sempre o que quis.
E é desta forma que encerrou a carreira. Um espectáculo curto, de intensidade máxima e sem despedida. Acabou a carreira e pronto. A raça que tem foi por vezes absorvida pela emoção, mas segurou-se e dominou todo o espectáculo.
Destaque ainda para Nuno Feist, o seu pianista de eleição. Ontem, conduziu magistralmente a orquestra em palco e também ele teve dificuldade em não se emocionar.
A arte emociona. Os bons exemplos emocionam. Que de Simone de Oliveira fiquemos com o exemplo da capacidade de emocionar e emocionarmo-nos. Que se pense nos “artistas” robóticos e sem alma dos quais se fazem estrelas, muitas vezes cadentes. O artista tem de o ser. Não basta parecer.
Obrigado, Simone de Oliveira. E que este país a trate bem, renovando e cantando os seus temas, como ontem pediu.
[Best_Wordpress_Gallery id=”2620″ gal_title=”Simone de Oliveira- Coliseu dos Recreios- 2022-1″]Alinhamento:
Preconceito
Declamação de poema de Fernando Pessoa
Vida
Recita poema de Ary dos Santos
Sete Letras
Dj Kamala
No teu poema
Tango Ribeirinho
Pingos de Chuva
Degrau a degrau
Recita poema de David Mourão Ferreira
Não é verdade (Com Carlão)
Apenas o meu povo (Com Henrique Feist, Ruben Madureira, FF, Sissi Martins, Marisa Liz e Áurea)
Foi assim (com Armando Ribeiro)
Desfolhada
Desfolhada.
