Adriano Pina: “Se o Fado canta a Vida, é muito redutor associá-lo apenas a factores negativos”

Adriano Pina: “Se o Fado canta a Vida, é muito redutor associá-lo apenas a factores negativos”, considerou.

Adriano Luís Pina é um tesouro do Fado. Já descoberto por uns, ainda por descobrir por muitos outros, a sua voz tem a capacidade de inebriar quem o escuta, levando o ouvinte a uma outra dimensão.

Na conhecida e tradicional Tasca do Chico, o seu ‘laboratório e onde (en)canta para que ali vai, Adriano é figura de proa.

E se Fado é tradição – vivendo de várias renovações ao longo dos tempos – então Adriano é um dos nomes que os apaixonados deste género musical devem mesmo descobrir.

Nesse sentido, em 2025 haverá novidade discográfica relativa ao fadista, Adriano de Pina concedeu uma entrevista ao Infocul.pt na qual abordou o seu percurso.

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Adriano Pina: “Desde sempre o Fado faz parte de mim.”

Quando nasceu o gosto pelo Fado?

Lembro-me que em criança via os clássicos filmes portugueses antigos junto do meu avô.  Neles o Fado estava sempre presente e penso que foi daí que nasceu esta paixão. Ouvia fado sempre que possível e passou a estar presente na minha vida. Por curiosidade, recordo que com cerca de cinco anos pedi por presente à minha avó uma colecção de cassetes de Amália que ainda hoje guardo, bem como recordo a estranheza da minha mãe ao pedir-lhe com seis ou sete anos uma cassete de Alfredo Marceneiro. Desde sempre o Fado faz parte de mim.

Há quem associe o Fado à Melancolia. Na sua opinião isto faz sentido? ou o Fado é bem mais que a melancolia?

Sendo o Fado uma canção de sentimentos, é natural que seja associado à melancolia, tal como à tristeza. Mas não vejo motivo para que não seja associado também a sentimentos de alegria, de paixão, de tranquilidade… Se o Fado canta a Vida, é muito redutor associá-lo apenas a factores negativos das vivências de quem o interpreta ou escuta.

Lembra-se da primeira vez que cantou em público? Essa experiência foi onde e que sensações teve?

Na realidade não me recordo bem da primeira vez que cantei em público visto que sempre procurei o Fado numa perspectiva de ouvinte até que comecei a frequentar algumas tertúlias e  entre amigos ia cantando amiúde. Depois comecei a frequentar algumas Casas de Fado. Sei que no início só ouvia, sempre senti muita responsabilidade no canto.Hoje quando canta é também um momento de libertação emocional?

Sem dúvida. Canto o que sinto, o que sentiu o poeta, canto o que a falar não consigo dizer. Mas, essencialmente, canto ao Fado, ao Fado de quem ouve.

Adriano Pina: “As Casas de Fado têm uma importância Maior”

Actualmente qual a importância das Casas de Fado, quer para os artistas quer para manter uma certa linhagem mais tradicional neste género musical?

As Casas de Fado têm uma importância Maior. Para os artistas, naturalmente, porque dão trabalho a uma enorme comunidade de gente que toca, canta e faz do Fado a sua vida mas essencialmente porque é nelas que se mantém o contacto directo com o público. Quanto a manter uma linhagem mais ou menos tradicional, é sem dúvida uma questão mais sensível visto que é da responsabilidade dos intérpretes escolher o rumo do seu percurso. É uma questão que, nos anos 20 do século passado, já era levantada com o início da profissionalização dos fadistas e hoje se mantém. 

Quais as reações que mais obtém do público que o ouve na casa de fado?

Fico muito sensibilizado com o público Português que continua a vir ao Fado, que se emociona com os repertórios novos e vibra com os Fados que se tornaram clássicos e, especialmente, com a quantidade de gente nova que vai ao Fado. É gratificante ver os estrangeiros enternecidos com o som da guitarra e comovidos quando se canta, é a prova de que sentem o que foi interpretado

Quais são as suas referências no Fado?

As minhas referências são sem dúvida os fadistas mais antigos, aqueles para quem o Fado não tem segredos, que criaram, que dedicaram as suas vidas ao Fado. Nomeá-los é sempre inglório porque decerto me irei esquecer de alguns. Alfredo Marceneiro, deixou um marco incontornável. A geração seguinte, Gabino Ferreira, Júlio Vieitas, depois Fernando Mauricio, Manuel Fernandes, Artur Batalha… E nas mulheres, claro, Amália Rodrigues, falar-se de Fado e não falar em Amália será sempre impossível, Fernanda Maria, Mariana Silva, Berta Cardoso, ainda no activo Maria Amélia Proença, Linda Leonardo e tantas outras… 

Adriano Pina: “Vivo uma constante evolução pessoal”

Já teve alguma experiência a cantar para alguma delas e que nos possa contar?

Tive esse privilégio, sim. Talvez o mais marcante foi o de cantar para Fernanda Maria. Toda ela é Fado, não se explica. As mãos, o olhar, o choro do peso da vida no seu canto. Cantar para esta Senhora foi um prazer, mas melhor foi que quisesse, em seguida, cantar também. Não esquecerei.

Se eu perguntar quem é Adriano Pina, o que me diria?

Há muito que me faço essa pergunta também… e sei que um dia terei esta resposta para lhe dar com maior segurança! Sendo que vivo uma constante evolução pessoal, ainda não é o momento!

Adriano Pina: “Estou a terminar o meu primeiro trabalho discográfico”

O que tem a tasca do chico de tão especial?

Penso que o que a torna assim é o facto de ser uma casa feita para nós, para os portugueses, embora seja frequentada por tantos turistas. É também o conceito, que permitiu que já saíssem de lá muitos nomes, hoje conhecidos no Fado. É engraçado o facto da Tasca do Chico ter sido inaugurada numa altura em que as tascas de Lisboa começavam a desaparecer e com a persistência de Francisco Gonçalves, se ter tornado um marco na cidade de Lisboa.

Que marca gostaria de deixar no fado e em quem o ouve?

No Fado, a marca que gostaria de deixar é que O Servi sempre da melhor maneira que pude e  que sabia. Se daqui a muitos anos alguém apreciar as minhas interpretações, o meu repertório, a minha entrega, então o meu trabalho está feito.

Por fim, quando teremos um trabalho discográfico seu e que novidades pode dar?

Ao completar os meus 10 primeiros anos de percurso no Fado, posso dizer que estou a terminar o meu primeiro trabalho discográfico. É um disco de Fado!

Reúne poemas feitos propositadamente para mim, e temas que fui recolhendo ao longo de anos de pesquisa . É um disco com uma tónica intimista, por vezes biográfica onde me propus a abordar várias vertentes do meu Ser.

Texto e Entrevista: Rui Lavrador
Fotografia: D.R.

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