Afonso Dubraz em entrevista: entre o Capitólio, o Plano B e a construção de um caminho próprio, “Estou cansado, mas feliz. E isso muda tudo.”
Entrevista: Rui Lavrador
Texto: André Nunes
“Não é só o concerto, é todo o caminho até lá”: O Capitólio como ponto de viragem
Dubraz terminou o ano com um concerto no Capitólio, esgotado, vários dias antes. Aquele que foi o seu primeiro grande concerto numa sala em nome próprio. Sobre a experiência, o cantor diz-nos:
“Eu sinto que ainda a estou a viver, em primeiro lugar, a experiência. Eu agora, eu acordo de manhã com um egocentrismo inabalável, em que eu dou por mim na cama a ver histórias ainda dessa noite. Porque foi efetivamente um momento muito especial.
Todo o momento, porque não é só o concerto, as pessoas pensam muitas vezes que é só aquela hora e meia em cima do palco. Mas há um conjunto muito grande de atividades, e atividades que não são feitas sozinhas, é em grupo e em equipa. Que antecedem o momento de subir a palco e que são meses de trabalho.
E que acho que tudo isso depois se encerra nessa noite, por isso há muito sentimento à mistura, não só o meu como do resto da equipa. E quando temos todo esse trabalho e depois acabamos por esgotar a sala onde vamos apresentar esse trabalho, é sempre uma troca de sentimentos muito grande e que acho que faz com que seja uma noite incrível”.
Uma nova casa: Mundos Cruzados
Afonso Dubraz passou a ser, recentemente, agenciado pela Mundos Cruzados, de André Ferreira, uma ligação que começou da seguinte forma: “Em primeiro lugar eu gosto imenso do André. Eu acho que é super importante que nós trabalhamos com pessoas que gostamos, nas várias áreas. Especialmente sendo a pessoa que me vai vender.
É ele que me vai apresentar aos promotores e pôr este projeto pelo país fora. E eu desde o primeiro momento que conheci o André, adorei. Eu acho que é uma ótima pessoa, super porreiro, super simpático, que é um vendedor nato.
Ele consegue vender areia no deserto. E eu conheci-o inicialmente por causa do Maninho. Porque o Maninho também é agenciado por ele.
E acabámos por nos conhecer através dele. E gostei logo muito dele. Na altura estava agenciado ainda, estava com outra agência.
Mas pronto, decidimos seguir também caminhos diferentes. E encontrar aqui um caminho que fosse a nível energético mais parecido com o projeto. E o André gostou muito da ideia.
E eu acho também importante que haja esse entusiasmo por parte não só de quem quer ser vendido, como de quem vende. E o André, acho que foi uma ótima escolha que se apresentou. E estou feliz por estar com ele.”
E esta nova ligação já tem projetos a serem preparados: “E o que agora temos preparados é… O que temos a preparar é uma tour para o próximo ano. Já há algumas datas marcadas. E vamos embora a apresentar isto pelo país fora.”
Plantar antes de colher
Para um “leonino egocêntrico”, como brincou de forma divertida após provocação do entrevistador, este tem sido um ano de plantação de novos temas e conceitos, ainda sem muitos frutos.
“Aliás, é por ser leonino egocêntrico que eu já tinha que corrigir agora. Ou seja, efetivamente estou ainda numa fase de plantação desde 2023.
Que este projeto já leva dois, quase três aninhos. E efetivamente ainda estou numa fase de dar, dar, dar para vir a receber mais à frente. Mas depois, quando dizes essa frase.
Certo, mas calma.
Ficou um Capitólio cheio. Há músicas na rádio. Há músicas em novelas.Há pessoas na rua que gostam imenso do teu projeto e que vêm falar contigo. E eu acho que todo este tipo de interações. Eu recuso não usar a palavra fama porque acho que odeio-a.
Mas esta parte de interações, de reconhecimento, de troca de experiências com pessoas. Estás a cantar uma música e vês as pessoas a chorar. Estás a dançar em cima do palco e vês as pessoas a dançar contigo.
Eu acho que tudo isto já são frutos que estão a ser colhidos.”, diz em relação a este ano de implementação de novas vertentes.
O jornalista que efetuou a entrevista, afirmou humoristicamente e falando de si que existem “até jornalistas que provocam aquilo que tu vais lançando”, até “sarcasticamente”.
Ao que Dubraz retorquiu entre risos: “Simplesmente, eu tenho um jornalista que odeia uma música minha chamada ‘Voodoo’. E por essa razão o meu próximo álbum é só músicas assim”.
Mas o jornalista acredita que “vai fazer uma crítica muito positiva a este disco”.
2026 e a estrada
Sobre o ano de 2026 e com preparação de digressão, Afonso revelou algumas novas ideias e novidades, com “mais músicas novas”. Também revelou como o Capitólio irá marcar a sua arte para esta digressão: “Eu acho que vai ser a base e um bocadinho porque eu quero que assim seja. Eu vejo estes concertos, em nome próprio em salas grandes, como um apresentar de um novo projeto. E acho que depois faz todo o sentido, depois dessa apresentação, levá-lo pelo país fora.
E até porque houve muitas pessoas que não puderam vir a Lisboa. Seja por questões geográficas, seja porque já não houveram bilhetes. É sempre um bom sinal.
E acho que é importante levar esta experiência também às pessoas. E para ainda mais, um dos motes do Capitólio foi apresentar as músicas novas. Músicas novas essas que fazem parte do Plano B do meu novo álbum, que é dividir em duas partes.
E por isso faz todo o sentido agora ao longo do próximo ano em que vai sair essa segunda parte, vão sair mais músicas. Ainda não sei se sai logo a segunda parte toda ou se vão saindo singles. Mas acho que é importante levar para o país fora aquilo que se fez no Capitólio”.
O Plano B: um álbum inteiro, em duas partes
“Ainda não tínhamos falado do Plano B, é verdade. Nem em off, até tenho medo de saber o que tu achas. Mas este álbum é um álbum por inteiro”, afirma o jovem cantor.
“São 10 músicas, saíram 5 agora, saem 5 depois. Eu tentei dividir as coisas ao máximo para ter uma panóplia de géneros em ambas as partes. Porque nesta primeira parte, para além de teres o clássico cliché radiofónico, o “Pedaço de Bom Caminho” e a “Voodoo”, tens depois também músicas com um arcaboiço musical um pouco maior que vai mais ao encontro daquilo que eu gosto.
Tens ali um blues anos 80, anos 90. E tens também depois aquelas baladonas mais sentidas, mais tocadas. E eu acho importante e gosto desta primeira parte do álbum por ser assim tão completo, por ter um pouco de tudo.
Ainda assim, estou muito entusiasmado para que as pessoas ouçam a segunda parte. Porque apesar desta primeira parte ter músicas, para mim, importantes como ‘Metade de Nós’, que é uma música que para mim a nível sentimental é muito forte. E o “Quer Tu Queiras ou Não”, o tal blues que eu vibro com aquilo, e em palco aquilo é uma loucura.
A segunda parte do álbum, isto eu não devia estar a dizer, que estou a ir um bocado contra o meu trabalho. Mas eu digo, acho que é verdade. A segunda parte do álbum eu acho que tem temas fortíssimos. Que não consegui lançar nesta primeira parte do álbum porque não houve tempo”.
“São mais tu?”, pergunta o jornalista, com a resposta “Médio”.
“É porque a minha questão é, o que é que sou eu? Ou seja, o que as pessoas podem dizer, é mais tu e estão a pensar no ‘Voodoo’, estão a pensar no Marido e Mulher, estão a pensar no Lado certo para errar. Ou seja, percebes é que aquilo que tu disseste da fase da plantação também tem um lado muito importante, que é perceber o que é que vai nascer dali”.
Ironia, “Voodoo” e provocações artísticas
O tema “Voodoo” lançou Afonso Dubraz para o mainstream, e o próprio intitula-a de: “Música macumbeira. Mas, ou seja, sou mais eu nos sentidos.
Tens ali umas músicas que sou muito eu, mas também tens ali muita coisa diferente. É que eu ainda estou a explorar”. Sobre o novo tema “Pedaço de Bom Caminho”, é dito que esta faixa tem um objetivo de brincar com a expressão “que dá o nome ao tema “Pedaço de Mau Caminho”:
“Tu consegues vender essa ideia na música, mas eu acho que o que está por detrás é exatamente a ironia dessa alegada ou não conquista. Sim. E perfeição, não é?
E perfeição que não existe. Certo. Ou seja, tu falas daquele pedaço de bom caminho.Como se fosse algo perfeito quando o começares a falar”, diz Rui Lavrador.
Um tema sobre a perfeição, com contornos de ironia sobre a sua inexistência: “Eu gosto sempre muito de jogar com essa questão do que é a perfeição e o facto dela não existir. E eu ainda por cima, apesar de ser leãozinho e tudo mais, eu tenho uma autoestima frágil nesse aspecto.
E acho que… Somos dois, não te preocupes. E acho que é uma muleta muito importante de percebermos que ninguém é perfeito.
Há sempre malta pior que tu e há sempre malta melhor do que tu e está tudo bem. Acho que é assim que deve ser, que é para tu também continuares a tentar ir mais longe. E eu levo muito isto a nível de narrativa para essa questão do mundo perfeito e que não é assim tão perfeito”.
Conclui: “E aí que entra a ironia, que é um dos meus estilos preferidos. E por isso sim, eu acho que o Pedaço de bom caminho é efetivamente uma música romântica e tem muito esse cunho radiofónico em que eu acho importante e acho que ficou uma música muito bem conseguida. Mas por outro lado, sim, eu tento brincar um bocado com essa ideia de o que é perfeito. Porque acho que é dificílimo tu teres um contexto em que passa uma pessoa por ti e tu dizes é isto.
E vais o resto da vida e já te imaginas num altar. Eu acho isto super bonito e eu sou muito assim. Eu apaixono-me com uma facilidade absurda”.
Evolução artística e emocional
Quando questionado sobre a evolução do “Afonso” nos primeiros cinco temas do disco, ele responde:
“Bom, o meu medo é se a evolução é positiva ou negativa porque eu olho muito para a tua cara. Tu és muito expressivo. Há ali coisas que eu sei que tu gostaste”.
“Quando tu fazes o primeiro trabalho e quando tu fazes este o Afonso enquanto homem, enquanto ser humano já não é o mesmo?”, pergunta Rui Lavrador.
“Acho que é as duas coisas. Acho que por um lado eu evoluí. Acho que são duas coisas mas tudo baseado na mesma palavra, experiência.
“Por um lado o “Barulho de Fundo” é feito por um miúdo que está a começar a conhecer o mundo da música que está a assinar pela sua primeira editora que ainda não tem fãs, além da família dos amigos e que está a começar a tentar perceber o que é que ele é. Mas já tem críticos. Mas já tem críticos [disse, provocando o entrevistador]. Está a tentar perceber o que é que ele é e se as pessoas o querem ouvir.
E há aqui uma certa insegurança que eu acho que te faz cantar mais a medo. A partir do momento em que tu começas a perceber que marcas um concerto e as pessoas querem ir, lanças uma música e as pessoas querem ouvir e tens já a editora por trás a confiar no teu trabalho e ganhas alguma autoestima eu acho que já começas a cantar de uma outra posição. Posição essa que, apesar de ser uma posição com mais substância por outro lado permite-te ser mais romântico em canções de amor mais frágil em canções de sofrimento.
Ou seja, está para os dois lados. Eu acho que isto faz com que a tua interpretação fique mais completa. E eu acho que isto nota-se, por exemplo, em temas como o “Metade de Nós”, que é um tema super pessoal acho que dá para ter uma entrega muito diferente até do “Amanhã’, do miúdo ingênuo que queria fazer aquilo da vida mas não sabia se conseguia”.
“Agora já não é isso. Agora eu tenho o meu espaço eu vou fazer uma música que não é para a rádio que é uma música altamente depressiva com um piano que não é óbvio e vou fazer esta música para mim. E eu acho que tu aqui já tens um contexto que te possibilita sentir outros tipos de coisas e interpretar de outra forma.
Por isso fico feliz que tenhas sentido isso porque eu senti muito isso a gravar este segundo álbum”.
Ansiedade, comparação e geração digital
Acerca do processo de gerir a pressa e ansiedade de “colher frutos”, Afonso afirma: “Eu acho que essa pressa para atingir objetivos sem dúvida que a tenho e acho que até mais do que pela altura do mês em que tu nasceste eu acho que é muito geracional. Eu acho que a nossa geração está com uma pressa porque eu fui a uma escola agora há uns dias para falar sobre isto”.
O entrevistador disse pensar que tinha menos idade e não pertencer à sua geração, ao que Afonso diz: “Achas que eu tinha o quê? Dezoito? Pelas letras que escrevo”. “Eu tenho 28 anos geração abaixo é que é outra”.
Mas ainda sobre geração, Afonso referiu:
“Fui a uma escola agora há uns tempos há uns dias porque o ‘Amanhã’ está a ser estudado por alguns alunos e tem sido muito giro e eu gosto muito de fazer parte disso para estar em contacto com as novas gerações e perceber o que é que eles sentem e eu sinto uma ansiedade constante e completa porque eles vivem numa realidade altamente digital em que tudo o que é publicado são as coisas boas que acontecem às pessoas.
Não há derrotas publicadas. É só vitórias. Só vitórias, só, só vitórias que as pessoas publicam.
E acho que tu começas a ir um bocado atrás disso do género ‘mas se os outros tudo o que eles têm é ótimo eu estou aqui a passar mal porque acabaram comigo ou a passar mal porque tenho um exame para o qual não me sinto preparado e aquele está no Dubai e está no Machu Picchu, aquele está apaixonadíssimo com a namorada, aquele tem um carro novo, aquele não sei o quê’ e eu acho que isto cria-te uma comparação gigantesca e que abre aso a esse contexto de ansiedade.
Selfies e Ed Sheeran
Após ouvir o entrevistador a dizer que as mensagens nas redes sociais por vezes são mais para o próprio utilizar acreditar no que está a partilhar do que os outros, Dubraz responde:
“100%! O Ed Sheeran não percebe e sente que tem de ajudar as pessoas que tiram selfies. Porque ele diz que para ele o movimento humano de virar uma câmara para ti de sorrir e tirar a foto para guardar esse momento é algo extremamente depressivo. E eu acho imensa piada ao contexto que ele faz.
Eu tiro selfies às vezes e está tudo bem porque quero guardar esse momento para mim e para depois. Acho que a coisa dele é mais o publicar a selfie e o pôr os filtros e o ‘estou feliz’. E eu percebo um bocado esse lado.
Mas isso tudo isso também faz-me sentido. Só que vê isto num panorama maior. Não é uma pessoa só estar a publicar várias vezes.
É o mundo inteiro a publicar uma coisa que são coisas infinitas. E é muito fácil de fazeres esse raciocínio. E por isso eu acho que a nossa geração vive com muita ansiedade de alcançar coisas de ter resultados para mostrar. E eu acho que aí não sou diferente tento ser de uma forma um pouco mais saudável.
Eu desligo muito esse lado comparativo. Estou a fazer o meu caminho. Estou feliz com as coisas.
Estou feliz por fazer o Capitólio e não tentar a passar mal porque o Zé da Esquina está a fazer o Coliseu. Acho que está tudo bem. Há tempo e momentos para cada coisa.
E eu vivo muito dessa ideia de o caminho, a viagem é a melhor parte. Não é tanto chegar lá. Acho que tu vais também perceber esta metáfora é que para mim a ideia de chegar a uma montanha ao cume da montanha dá-me imensa ansiedade porque já não dá para ir mais para cima e começo a olhar à volta onde é que está a próxima.
E acho que esta coisa de nós sentirmos que algo é finito a mim assusta-me imenso. E estou sempre à procura de mais e mais”.
“Ao mesmo tempo manter a identidade o que nem sempre é fácil”
O álbum tem canções completamente diferentes umas das outras com dramas diferentes em termos de intensidade mas acima de tudo a essência está lá em tudo só que apresentada de diferentes formas: “Fiquei muito feliz de terem sentido isso porque o meu objetivo era esse era fazer coisas diferentes e ao mesmo tempo manter a identidade o que nem sempre é fácil.
E acho que tu vais gostar do álbum mas só para não fugir também à questão que tu fizeste há bocado. Estou a lidar bem com a ansiedade das coisas, quero mais, quero muito mais. Já estou a pensar na próxima sala que quero fazer porque tenho a escadinha e o próximo é o Tivoli. Por isso tenho assim essa escadinha de ir de ir subir. Mas é difícil de arranjar uma data para ali.Mas pronto, quero ir ao Porto e tentar ir ao Hard Club”.
Afonso Teixeira, para lá de Dubraz
De Afonso Dubraz passamos para Afonso Teixeira, numa parte da entrevista mais pessoal.
“Quem é o Afonso Teixeira/ Dubraz? Olha, é um rapaz que sabe muito bem o que quer que sabe muito bem o que é que tem de fazer para chegar lá mas que ainda está longe. E por isso, como ainda está longe acho que consegue manter uma identidade muito própria daquilo que sempre foi que é o lado mais sonhador, o lado mais trabalhador, e que são duas coisas que eu não quero de todo perder.
Ao mesmo tempo acho que é um rapaz muito agradecido por tudo o que tem estado a acontecer agradecido por quem tem acreditado no projeto, pelas pessoas que se vão diariamente juntando e que felizmente vão sendo cada vez mais. Ao mesmo tempo é um rapaz com as suas ansiedades e os seus momentos de autoestima mais frágil. O que é normal porque foi uma mudança de vida considerável, aquilo que eu fazia e a estabilidade que eu tinha desapareceu. À medida que vão acontecendo coisas como Capitólios e isso vou sofrendo menos. São estas pequenas coisas que tu vais conseguindo começar a colher. Antes de lançar uma música nova penso sempre aquele síndrome do impostor. Antes de lançar o Plano B sofri um bocado com isso e vem sempre à cabeça”.
Pensando no seu passado como advogado, Afonso sente algo a passar por uma das maiores avenidas do país:
“Mas depois a verdade é que eu passo ali na Avenida Liberdade várias vezes e às 11 da noite olho para o escritório e estão lá os meus colegas todos a trabalhar e eu penso não estou aí a autoestima volta em força porque imagina isso pode sempre parecer pouco humilde e está tudo bem em parte até pode ser mas eu acredito mais que é factual do que pouco humilde que é eu sei que este projeto tem uma qualidade inerente não digo que é o com maior qualidade nem o com menor qualidade mas acho que tem uma qualidade inerente acho que tem boas melodias boas letras boas produções, uma banda boa ao vivo e muita gente boa atrás do projeto. Por isso é parte da muleta que eu uso para sentir que isto vai dar. Só que as coisas demoram o seu tempo e é um processo e faz parte e neste caminho vais conseguir subir mais devagar ou mais lento ou outros vão subir mais devagar ou mais rápido.
E acho que está tudo bem. Eu vou passar muito mal quando der esse passo atrás eu acho que para já tenho conseguido dado sempre passos em frente e passos sólidos há uma coisa que eu sinto que é algumas músicas do primeiro álbum que eu tenho pena de não terem resultado só que eu acho que não resultaram não foi pela falta de qualidade da música foi pela falta de visibilidade associada.
Por exemplo, o ‘Amanhã’… dói-me que não tenha sido a música que eu acho que merece ser. Se tivesses visto naquele Capitólio, foi assustador a forma com que aquele tema bate. As pessoas todas a chorar baba e ranho e aquilo foi impossível de cantar. E essa música por exemplo custa-me que não tenha tido o seu espaço, essa e o ‘Mundo Novo’.
Amor, tempo e desencontros
“Neste momento, como está o coração do Afonso Teixeira”, é lhe perguntado.
“Está bom e é uma coisa recente. Não vou falar mais disso porque depois tu começas a escrever coisas e é uma chatice mas está bom está ocupado. Está-se a ocupar. Digamos que aquele antigo clichê do rapaz em cima do palco de facto funciona.
Sempre houve fãs agora é bom porque já não é só a minha mãe a gritar és lindo já há outras pessoas a gritar. Por acaso coisa estranha em cima a minha mãe em pleno Capitólio grita ‘faz-me um neto’ e eu parei eu a cantar a tentar estar de sério e ela ‘faz-me um neto’. E eu parei e pensei eu percebi o que ela quis dizer é dá-me um neto mas de outra pessoa a dar um neto só que tu teres a tua mãe a tua progenitora a gritar ‘faz-me um neto’ é extremamente confuso”.
Sobre se tinha vontade ou não, afirma rindo-se: “Não porque eu estava eu estava eu ali eu estava em modo artista compenetrado e super profissional”.
“A intemporalidade é uma coisa que quero muito ter como natureza do projeto”
Muita da música que Dubraz faz, vai dependendo da energia emocional em cada momento. Ou seja, dependem do estado emocional: “Eu tento fazer uma coisa de um ponto de vista extremamente económico que é fazer músicas que eu sinto que são intemporais. Ou seja independentemente do estado de espírito do autor e da pólvora, a arma é tentar disparar em qualquer momento. E eu sempre tentei fazer isso com todas as minhas músicas eu acho que o “Amanhã” é intemporal, o “Mundo Novo” é intemporal, a ‘Canção do Elevador’ é intemporal, o “Marido e a Mulher” é intemporal.
O entrevistado explicou que “a intemporalidade é uma coisa que quero muito ter como natureza do projeto” e reforçou essa ideia dizendo: “eu acho que esta intemporalidade é uma coisa que eu quero muito ter como natureza do projeto”. Acrescentou que, por outro lado, “à medida que vou tendo a tal autoestima que te falei cada vez mais presente vou deixando que os sentimentos entrem e o meu estado de espírito entre de forma mais forte no processo de composição”.
Referindo-se a uma canção concreta, afirmou: “a ‘Metade de Nós’ é uma música que eu sinto que será intemporal mas é uma música que foi escrita num contexto de necessidade muito grande e que é minha”. Contou ainda que, perante opiniões externas, manteve a sua posição: “eu disse mesmo as pessoas disseram isto não está muito comercial eu disse eu não quero saber esta música é para mim”.
O entrevistado concluiu que “sim o estado de espírito está a influenciar cada vez mais a minha composição mas sempre numa perspetiva capitalista de fazer algo que seja intemporal”, explicando essa visão ao dizer: “porque eu sempre vi a música assim os artistas que eu ouço são intemporais e por isso quero fazer música também dessa forma”.
A pessoa certa no momento errado
O entrevistador começou por afirmar que “o Afonso acredita que o amor da nossa vida tem um momento certo para acontecer mesmo que nós já saibamos que será algum tempo antes”. Perante essa ideia, o entrevistado questionou: “algum tempo antes?”.
O entrevistador clarificou então o pensamento, dizendo: “sim, ou seja sentes que há uma determinada pessoa que é o amor da tua vida mas que ainda não é o tempo para acontecer acreditas nisso ou não?”. Em resposta, o entrevistado afirmou: “eu acredito imenso nisso que é às vezes pode ser a pessoa certa mas não é a altura certa da vida”.
Prosseguiu explicando o impacto emocional dessa situação, dizendo: “isso é horrível isso dói isso magoa de uma forma enorme eu sofro imenso com essas coisas quando me acontece a mim ou quando acontece a pessoas que gosto”. Desenvolvendo o raciocínio, acrescentou: “porque se tu pensares bem duas pessoas acabarem juntas a quantidade de coisas cósmicas que têm de acontecer para isso resultar é assustador”.
O entrevistado enumerou então essas circunstâncias, referindo que “vocês têm de se conhecer num mundo com bilhões de pessoas vocês têm de se encontrar e têm de se conhecer depois de se conhecerem vocês têm de estar os dois solteiros ou não mas ajuda depois de vocês estarem solteiros vocês têm de estar com a predisposição de querer ter algo e depois de estarem com a predisposição de querer ter algo vocês têm de ser compatíveis”. Concluiu sublinhando que “compatíveis com a nossa idade tu sabes bem a bagagem é cada vez maior das coisas que se trazem detrás por isso essa compatibilidade muitas vezes é posta em causa. É uma compatibilidade a um nível tão grande não só geográfico como psicológico que eu acho que é difícil acontecer. Por isso é que eu acho que nós escrevemos tanto sobre isso. Nós escrevemos tanto sobre uma perfeição que não existe e eu acho ótimo ir atrás disso sempre na esperança de nos acontecer a nós”.
“Eu acho que a advocacia volta nos momentos em que levo um não”
O entrevistado continuou a refletir que “mas sem dúvida alguma que acho que é chato isso quando achamos que pode ser a pessoa certa, mas não é o momento certo”. Explicou depois a fase pessoal que atravessa, dizendo: “eu então, que estou numa fase da minha vida em que estou focado no trabalho, ponto, às vezes tenho de dar um passo atrás e pensar, calma, percebe o que é que está a acontecer e se isto faz sentido ou não, porque estar só com a cabeça no lado da música, depois que já estás a perder uma coisa que poderia ser boa”.
Para encerrar a conversa, o entrevistador introduziu o que considerou ser “se calhar a pergunta mais complicada” da entrevista. Começou por afirmar: “não há almoços grátis, muito menos com leões”, e questionou: “qual é o momento em que a advocacia volta à tua cabeça, apesar de agora já estares a colher alguns frutos, e estares a ser reconhecido, quer pela imprensa, através das rádios, dos sites, dos jornais, quer através do público, por exemplo, agora esgotou o Capitólio, mas qual é aquele momento em que, apesar de estares a começar a ter alguns frutos do teu trabalho na música, a advocacia volta a deixar-te na dúvida?”.
Em resposta, o entrevistado afirmou: “eu acho que a advocacia volta nos momentos em que levo um não”. Desenvolveu essa ideia explicando que “sejam eles qual forem, eu acho que quando eu tento meter uma música na rádio e ela não entra, volta a advocacia. Quando eu tento escrever um verso e ele não me aparece, volta a advocacia”.
Acrescentou ainda: “quando eu meto um Capitólio à venda e tenho dúvida se ele vai escutar ou não, e convidamos meios para vir ver o concerto e eles não podem, volta à advocacia”. Concluiu que “ou seja, há vários momentos em que volta à advocacia”, sublinhando no entanto que “voltar à advocacia para mim não é mau”.
O entrevistado explicou que “a ideia de voltar à advocacia para mim não é que eu não quero fazer aquilo, porque eu gosto daquele mundo também, prefiro muito mais este, mas a ideia de eu saber que há outra coisa que eu poderia fazer, dá-me alguma calma para aceitar os não e seguir em frente até ser um sim”. Finalizou dizendo: “e por isso acho que é nestes momentos, é nos momentos de maior ansiedade e de maior dúvida, mas é bom que estes momentos continuem a acontecer, porque há muitas músicas que vêm daí”.
“Eu agora, eu olho para fotos minhas de quando era advogado, é uma diferença”
Para terminar, o entrevistador lançou a questão final, dizendo: “só mesmo para remate, tens dado algumas entrevistas nos últimos tempos, aquilo que eu te pergunto é, qual foi a pergunta que ainda não te fizeram e que tu gostavas que te tivessem feito para tu poderes responder?”.
O entrevistado respondeu começando por refletir sobre a própria pergunta: “ok, eu já estava com uma coisa na cabeça, mas como tu acrescentaste essa parte final, ou seja, dividindo a tua pergunta em dois, a pergunta que eu gostava que me fizessem é como é que correu uma arena, um dia”. Explicou depois que “uma pergunta que eu gostava que me tivessem feito implica que tenha sido algo da minha vida até agora, e essa é uma ótima pergunta”.
Acrescentou ainda: “eu acho que há uma pergunta sempre que eu gosto que me fazem e que já fizeram algumas vezes, que é se eu estou feliz, porque acho que é bom falar só disso assim mais tranquilo”. Referiu depois: “mas uma pergunta que ainda não me fizeram…”.
Perante a pergunta direta, respondeu de forma clara: “e estás? Estou. Estou feliz.” Desenvolveu esse estado dizendo: “estou super tranquilo”. Comparou o presente com o passado ao afirmar: “eu agora, eu olho para fotos minhas de quando era advogado, é uma diferença. É uma diferença”.
O entrevistado sublinhou ainda o bem-estar físico: “eu estou saudável agora. Fisicamente saudável, tipo, já não estou tão magrinho, não estou tão branco, não estou tão cansado. Ou estou cansado, mas feliz”. Acrescentou que “eu não sinto que precise de férias”, explicando: “ou seja, é bom às vezes parar, mas é uma sensação inacreditável fazer da vida algo que tu não vês como trabalho”.
Reconheceu também o peso do lugar-comum, dizendo: “eu sei que isto é um grande clichê e que irrita imenso a gente esta frase, e eu percebo, a mim também sempre me irritou”. Ainda assim, concluiu: “mas é bom quando se sente isso. Por isso sim, estou sem dúvida feliz”.
A pergunta que falta
O entrevistado começou por dizer: “vou-te dar a volta com esta. Uma pergunta que eu gostava que me fizessem, que nunca fizeram, eu acho que é simplesmente a próxima pergunta que me fizerem, porque significa que querem falar comigo, querem saber mais, que gostam do projeto, que estão interessados”. Explicou ainda que, para si, “esse tempo de antena, mais do que o tempo de antena, a vontade de me dar esse tempo, é uma coisa que me deixa muito feliz”.
Desenvolvendo essa ideia, acrescentou: “muitas vezes aqui na Warner convidam-me para certas televisões ou certos programas em que se calhar há malta que não quer ir. Mas eu sou o primeiro a dizer, são pessoas que têm uma profissão e que querem dar tempo da sua profissão, daquilo que fazem da vida, para falar comigo. Como é que se pode dizer que não a isto?”. Sublinhou depois: “e eu acho que isso é super positivo de acontecer”.
O entrevistado reforçou ainda que “as pessoas querem saber, querem falar comigo, querem estar comigo, querem dar tempo da antena. Quando não o teriam de fazer, há milhões de pessoas como eu para fazer esse tipo de conversas e este tipo de entrevistas”. Concluiu: “por isso eu acho que sim, a pergunta que eu mais quero que me façam e que ainda não me fizeram é a próxima pergunta que tu me irás fazer, hoje ou noutro dia qualquer”.
Perante isso, o entrevistador respondeu de forma provocatória: “será quando tu… eu sabia que tu ias vingar. Será quando tu lançares a segunda parte do lado B?”. O entrevistado reagiu com humor: “do quê? Do lado B”. O entrevistador esclareceu: “do lado B”. Ao que o entrevistado respondeu: “do lado B, aquela discoteca no Porto, não é?”. Recorde-se que o disco chama-se “Plano B”.
O entrevistador respondeu: “é um bom plano. Nunca lá fui”. O entrevistado retomou então:“mas sim, quando eu lançar o Plano B, a segunda parte. É para veres se eu estou atento, eu percebo“.




