Ana Arrebentinha emociona no Alta Definição ao recordar infância humilde, perda dos pais e liberdade de amar, na tarde de ontem.
Ana Arrebentinha foi a convidada de Daniel Oliveira no Alta Definição deste sábado, 6 de junho, na SIC. A humorista falou da infância na Amareleja, da relação com os pais, das perdas que a marcaram e do caminho que a levou aos palcos.
Ao longo da entrevista, a alentejana recordou uma vida feita sem luxos, mas com amor. Também falou da homossexualidade, do preconceito, da dor do luto e da forma como o humor acabou por lhe servir de abrigo.
Da Amareleja para uma vida sem vergonha das origens
Ana Arrebentinha cresceu no interior alentejano, entre o campo, a família e o trabalho desde cedo. Começou a ajudar os pais na apanha da azeitona e do melão quando tinha 12 ou 13 anos.
“Às 6 da manhã já estávamos a ir para o campo. Às 9 da manhã já estava um calor insuportável”, recordou.
Ainda assim, a dureza desses dias nunca apagou a memória afetiva da infância.
“Havia dias que me custava muito, havia dias que eu fechava os olhos e pensava assim: um dia vou morrer disto tudo que estou a passar aqui.”
Depois, Ana Arrebentinha deixou claro que essa realidade não lhe retirou felicidade.
“Fui uma criança muito feliz. Era a menina do meu pai.”
A casa simples, os banhos no quintal e o essencial
Durante a conversa, a humorista falou sem complexos das condições modestas em que cresceu. A casa da família demorou a ser construída e, durante algum tempo, não havia chuveiro nem banheira.
“A minha mãe metia-me em frente ao lume de chão que nós temos no Alentejo e tomava banho ali. De verão, o meu pai improvisava no quintal uma mangueira ligada à torneira (…) e tomávamos banho no quintal.”
No entanto, quando Daniel Oliveira perguntou se alguma vez teve vergonha, a resposta foi imediata.
“Nunca senti vergonha nem daquilo que tinha calçado, nem daquilo que tinha vestido, nem da casa que tinha. (…) Eu sabia que as minhas amigas tinham uma casa bem, tinham uma banheira, tinham tudo, mas estava o essencial, que era o amor.”
Lisboa parecia longe, mas o palco já chamava
A distância entre a Amareleja e Lisboa parecia enorme. Ana Arrebentinha contou que havia experiências comuns para muitos jovens que, no seu caso, chegaram tarde.
“Os meus pais também não iam à praia. Então havia coisas que para mim eram muito distantes. (…) Mas ao mesmo tempo havia algo dentro de mim de artista, de contar também histórias que o meu pai me contava.”
A humorista revelou ainda que viu o mar pela primeira vez apenas aos “16, 17 anos”.
Apesar disso, o desejo de contar histórias apareceu cedo. Mesmo antes de imaginar uma carreira, já procurava público.
“Eu levantava-me às 6 da manhã para ir contar histórias às pessoas no centro de saúde que é em frente à minha casa.”
Mais tarde, a vontade de rumar a Lisboa foi recebida com desconfiança por algumas pessoas. Mas isso acabou por dar-lhe força.
“Sonhava com o palco, sonhava em vir para Lisboa, sonhava ter uma carreira como artista e isso dava-me muita adrenalina, principalmente quando eu contava isto a alguém e ninguém acreditava nisso.”
Entre as frases que ouvia, havia uma que lhe ficou na memória.
“Ah, está bem, agora vai para Lisboa, agora vai ser humorista.”
O e-mail que abriu a porta da SIC
O início do percurso televisivo teve uma mistura de ousadia e urgência. Depois de uma atuação num bar em Moura, onde nem todos lhe deram atenção, Ana Arrebentinha decidiu agir.
“Metade do bar, uns estavam a beber copos, outros estavam a conversar, então a atenção não estava toda virada para mim. E aquilo revoltou-me. Então cheguei a casa e mandei um e-mail para o ‘Boa Tarde’ da SIC.”
A mensagem enviada ao programa mostrava já a confiança e o humor que a viriam a marcar.
“Dizia: ‘Olá, eu sou a Ana, tenho 17 anos, sei mais de 100 anedotas. Possivelmente vai ser mais um e-mail que vocês vão eliminar’. (…) Quase a deixar ali uma ameaçazinha. ‘Mas eu gostava muito de ir ao vosso programa’.”
A chamada da produção chegou na Páscoa seguinte. Pouco depois, entrou pela primeira vez num estúdio.
“Senti que era mesmo aquilo que eu queria fazer para o resto da minha vida.”
A morte do pai e o luto adiado
A entrevista entrou depois num território mais íntimo. Ana Arrebentinha falou da morte repentina do pai, vítima de um AVC, e do impacto dessa perda.
“Perde-se a proteção. Quando se perde um pai, perde-se a muralha.”
A notícia chegou através de um telefonema da mãe. Já no hospital, percebeu que o desfecho seria irreversível.
“Quando o vi na cama (…) a minha tia olhou para mim e disse-me assim: «Sabes que o teu pai já não vai sair daqui». E eu olhei e disse: «Sei». (…) Eu tive a sensação que ali foi quase o último suspiro que eu ouvi dele.”
Ainda conseguiu despedir-se.
“Eu agarrei-lhe a mão e disse que o amava muito.”
Contudo, o seu luto ficou suspenso. A prioridade passou a ser a mãe.
“Hoje em dia, sei que não fiz o luto do meu pai, porque me foquei na minha mãe. (…) Eu não fiz o luto, porque eu pensei: «A mim morreu o meu pai, mas à minha mãe morreu o amor da vida dela».”
As frases do pai que ficaram para a vida
Da relação com o pai, Ana Arrebentinha guardou valores ligados ao trabalho, à honestidade e à prudência. Também ficou uma frase dura.
“Ele dizia muito: «Não há amigos».”
Hoje, a humorista admite que passou a perceber melhor essa ideia.
“E ele tinha razão. Ao longo da vida, nós vamos percebendo que há muito poucos. (…) Essa foi uma das frases e «nunca dês a cara por ninguém». Porque mais tarde ou mais cedo, essa pessoa, em alguma situação, não vai dar a cara por ti.”
A doença da mãe e a violência de cuidar quem já não queria viver
Depois da morte do marido, a mãe de Ana Arrebentinha perdeu vontade de viver. A humorista recordou esse período como um dos mais duros da sua vida.
“Quando ele apareceu doente, a minha mãe desistiu de viver. A minha mãe já não queria viver. Ela disse: «Tu e os teus irmãos estão criados. Eu não estou cá a fazer nada».”
A doença rara nos rins agravou a situação. Ana assumiu um papel de cuidadora num contexto de desgaste físico e emocional.
“Trouxe uma pessoa completamente debilitada, que precisava de banho, que precisava de 10 a 15 minutos (…) de ir à casa de banho, vomitar e eu não dormia.”
O sofrimento aumentava porque a mãe, segundo contou, já não queria lutar.
“Eu puxei uma carroça que não era minha, eu queria que ela vivesse (…) e a minha mãe não queria. E é muito violento assistir alguém que já não quer viver.”
Para poupar a filha, a mãe escondia algumas informações e repetia a frase “não contem à Cristina”.
O fim chegou no hospital de Beja, depois de mais um internamento de urgência.
“Despedi-me dela. Ela já não estava consciente. (…) Agarrei-lhe na mão e fiz-lhe a última festinha na cara e disse: descansa, que eu sei que era o que ela queria.”
O abandono, a traição e o palco como salvação
A morte da mãe abriu outro período difícil. Ana Arrebentinha confessou ter-se sentido só e desiludida com pessoas próximas.
“Senti-me só e houve pessoas que me deixaram só também. E que não foram honestas comigo.”
Depois, descreveu a sensação de abandono no momento de maior fragilidade.
“Acho que no momento mais difícil da minha vida houve uma altura que me tiraram o tapete e me pisaram a cabeça. E isso dói. Teres pessoas que tu confias a apunhalar-te pelas costas não é fácil de lidar.”
A humorista chegou a isolar-se em casa, com as luzes apagadas, a chorar no sofá. Ainda assim, encontrou no palco uma forma de respirar.
“A frase ‘que o humor salva’, salva mesmo. (…) Fui acarinhada por muitas pessoas e a gratidão deles abraçou-me.”
Para Ana Arrebentinha, atuar tornou-se um lugar seguro.
“Quando estou no palco, é o único sítio que não penso no que aconteceu na minha vida. (…) É aquele momento de alívio, de felicidade.”
A liberdade de amar e o recado contra o preconceito
Ana Arrebentinha falou também da sua homossexualidade e da forma como sempre procurou viver em verdade com os pais. Quando decidiu contar à mãe, recebeu uma resposta simples.
“Cheguei lá e disse: ‘Olha mãe, tenho uma coisa para te contar. A pessoa que está comigo não é só a minha amiga’. (…) Olhou para mim e disse: ‘Fui eu que te pari’.”
A mãe pediu-lhe apenas que vivesse a sua vida de forma “normal”.
Essa confiança impediu que a intriga chegasse antes da verdade. A humorista recordou um episódio com alguém que tentou surpreender a mãe com a revelação.
“‘Vou-te contar uma coisa (…) A tua filha está com uma mulher’. E a minha mãe: ‘Eu não sei’. (…) Eu sempre contei tudo aos meus pais antes que alguém lhes fosse contar, seja o que for.”
Depois, Ana Arrebentinha deixou uma crítica direta ao preconceito.
“Parece que a homossexualidade se apanha aqui no banco do jardim. (…) Parece que é uma coisa que se pega. Isto não é uma doença. Isto somos nós. É a nossa liberdade.”
A reação depois da entrevista
Após a emissão, Ana Arrebentinha assinalou o momento nas redes sociais com uma fotografia ao lado de Daniel Oliveira.
“Está ‘fêto’. Obrigada, Daniel Oliveira. Obrigada, SIC.”
Nos comentários, multiplicaram-se mensagens de carinho. Um espectador escreveu:
“Adorei a entrevista… muito emotiva. Mas suas palavras em relação aos pais e aos sentimentos após sua morte foi mesmo isso que eu senti. Um grande abraço e tudo de bom.”
Outra mensagem elogiou a humorista de forma direta.
“Magana bonita. Que a vida seja generosa contigo, mereces muito ser feliz! Seguimos.”
Entre os comentários, houve ainda quem destacasse a determinação da convidada.
“Parabéns, linda! Adorei! És fantástica, mostte a tua determinação e o teu orgulho de seres a pessoa que és! Que grande mulher! Que história linda rodeada de tanto amor!”
E houve quem resumisse a entrevista em duas palavras:
“Um exemplo.”
No Alta Definição, Ana Arrebentinha contou uma história de origem, perda e reconstrução. Sem negar as feridas, mostrou também o lugar onde continua a regressar: o palco.

