Diogo Faro agita Passadeira Vermelha com debate sobre monogamia, humor e limites da comédia

Diogo Faro agita Passadeira Vermelha com debate sobre monogamia, humor e limites da comédia, na tarde de ontem.

Diogo Faro esteve no “Passadeira Vermelha”, da SIC Caras, e levou o painel a dois debates intensos. Primeiro, sobre relações amorosas, monogamia e novas formas de viver a vida a dois. Depois, sobre humor, privilégios e os limites que cada comediante escolhe respeitar.

Com Liliana Campos na condução, a conversa juntou Sara Norte e Carolina Ortigão num confronto de experiências muito diferentes. De um lado, Diogo Faro defendeu modelos não convencionais. Do outro, Carolina trouxe 43 anos de relação com o mesmo companheiro.

Diogo Faro defende que nem todos têm de “encaixar”

A conversa sobre relações começou com uma recusa do modelo único. Para Diogo Faro, a sociedade não deve impor a ideia de namoro, casamento e exclusividade como caminho obrigatório.

“Acho que é importante as pessoas perceberem que nós não temos que todos encaixar (…) Há várias maneiras de nos relacionarmos“, começou por defender.

Depois, o humorista explicou que não vê a relação amorosa como o centro absoluto da vida. Na sua perspetiva, uma pessoa com quem se está não tem de ficar acima dos amigos ou da família.

“A maneira como eu vejo a minha vida é uma hierarquia plana (…) Eu estar com uma pessoa atualmente, pode ser uma parceira ou um parceiro, ou o que for, essa pessoa eu nunca mais vou dizer a alguém que seja mais importante que os meus amigos ou que a minha família“, afirmou.

Para Diogo Faro, perder independência em nome de um modelo tradicional é “uma forma muito antiquada de viver“.

Sara Norte fala em egoísmo nas relações

A visão do convidado encontrou resistência em Sara Norte. A comentadora defendeu que as relações também exigem adaptação, esforço e capacidade de enfrentar dificuldades.

“As pessoas, à primeira dificuldade, arranjam logo uma coisa e arrancam. As pessoas cada vez estão mais egoístas e não sabem viver em casal“, atirou.

Sara Norte sublinhou ainda que “as pessoas quando vivem em casal têm que se adaptar“.

A intervenção trouxe para a conversa uma leitura mais crítica sobre a forma como muitos relacionamentos terminam atualmente. Para Sara, a dificuldade em ceder pode estar a fragilizar a vida a dois.

Carolina Ortigão contrapõe com 43 anos de relação

Carolina Ortigão entrou no debate com uma experiência pessoal muito diferente. A comentadora revelou que vive há 43 anos com a mesma pessoa e defendeu o valor de uma parceria construída ao longo do tempo.

“Eu estou há 43 anos com a mesma pessoa, a minha hierarquia é ele a pessoa mais importante, e ele a mim“, confessou.

Ainda assim, Carolina fez questão de afastar a ideia de posse. Para a comentadora, a relação assenta numa forte cumplicidade e numa amizade profunda.

Apesar das diferenças, o painel acabou por encontrar um ponto comum: a monogamia só faz sentido quando é uma escolha consciente.

Diogo Faro resumiu essa ideia ao defender que o compromisso não deve ser vivido como imposição.

“Nós, enquanto animais, não somos monogâmicos (…) A monogamia pode ser bonita se as pessoas aceitarem que é uma escolha que fazem todos os dias“, argumentou.

O humorista foi ainda mais longe e criticou a negação da atração por terceiros.

“‘não, eu sou monogâmico, já não tenho tesão por mais ninguém o resto da vida’, é mentira“, afirmou.

Joana Marques e o humor em debate

Na mesma emissão, o painel aproveitou a presença de Diogo Faro para falar sobre os limites do humor. O tema surgiu a propósito do espetáculo “Em Sede Própria”, de Joana Marques.

Liliana Campos perguntou ao convidado sobre as vezes em que foi alvo da rubrica “Extremamente Desagradável”. Diogo Faro assumiu a situação sem dramatismo.

“Já fui várias vezes. Faz parte, pronto“, admitiu.

O humorista garantiu ainda que Joana Marques “não fez absolutamente nada de mal“.

Com alguma autocrítica, Diogo Faro reconheceu que muitas das situações nasceram de coisas que ele próprio disse ou fez.

“Fui eu que disse disparates, porque até em fases menos fixas da minha vida, da minha carreira, disse coisas mais disparatadas ou fiz coisas mais disparatadas e ela agarra naquilo e faz a magia dela“, explicou.

Mesmo assim, confessou que ser alvo da rubrica não é fácil no momento em que acontece.

“No dia em que aquilo sai, eu não vou dizer: ‘Ah, que bom, estou super feliz’. Não. Sentes: ‘Ah, estou no ‘Extremamente Desagradável’. É mesmo desagradável“.

“Não acho graça a piadas racistas, homofóbicas, machistas, transfóbicas”

Quando a conversa chegou aos limites da comédia, Diogo Faro foi claro. O humorista não quis impor regras aos outros, mas explicou as fronteiras que escolhe para si.

“Eu não acho graça a piadas racistas, homofóbicas, machistas, transfóbicas, não me rio disso e não quero fazer ninguém rir-se de humilhar uma mulher ou fazer piadas com a cor da pele das pessoas“, defendeu.

Foi nesse ponto que Carolina Ortigão o confrontou com uma aparente contradição.

“Mas fazes piada aos ricos?!“, perguntou.

Diogo Faro justificou a diferença, considerando que os ricos não são “uma minoria oprimida”. Perante a insistência de Carolina sobre se gostava ou não de pessoas ricas, respondeu em tom de humor.

“Não, não tenho nada contra ricos, até tenho amigos que são (…) E dá-me jeito“, brincou.

Privilégio e responsabilidade nas redes sociais

Na reta final, Diogo Faro falou também do seu próprio lugar na sociedade. O humorista reconheceu que parte de uma posição de privilégio e que isso pesa na forma como comunica.

“Até na condição de ser um homem branco, não sofro de discriminação pelo meu género, nem pela minha cor de pele, nem até por ser de classe média, não me falta nada“, reconheceu.

Por isso, defendeu que quem tem visibilidade deve ter atenção às mensagens que transmite, mesmo quando estão embrulhadas em humor.

“Eu não quero veicular mensagens mascaradas de humor que sejam racistas ou contra pessoas indianas ou brasileiras (…) As mulheres [são] constantemente alvo de piadas machistas num país onde se mata tanta mulher, onde se trata de violência doméstica. Não tenho interesse nenhum em fazer humor sobre isso“, rematou.

Entre monogamia, liberdade individual, amor, comédia e responsabilidade pública, a presença de Diogo Faro no “Passadeira Vermelha” abriu uma emissão marcada por diferenças fortes, mas também por uma ideia transversal: discutir modelos de vida continua a mexer com convicções muito profundas.

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