Francisco Rodrigues dos Santos fala sem reservas no Dois às 10 sobre política, derrotas e mudança pessoal, esta manhã.
Antigo líder do CDS-PP regressa à televisão após afastamento da vida pública
Esta manhã, o estúdio do Dois às 10 recebeu Francisco Rodrigues dos Santos, antigo líder do CDS-PP, que se afastou da vida pública depois de o partido ter perdido representação parlamentar em 2022.
Desde o início da conversa com Cristina Ferreira e Cláudio Ramos, o antigo dirigente mostrou-se sereno, embora consciente das marcas deixadas pela derrota eleitoral e pelas tensões internas.
A relação com o passado e a derrota eleitoral
Logo a abrir, Francisco Rodrigues dos Santos resumiu a forma como encara hoje o seu percurso político. “O passado é referência, mas não é residência, na medida em que permite explicar muita coisa do nosso percurso e das nossas experiências, mas não nos captura nem nos torna reféns dele”, afirmou.
Em seguida, explicou que passou a adotar uma postura mais desprendida face aos sucessos e aos fracassos. Disse procurar ser “um bocadinho epicurista”, orgulhando-se do caminho feito, “na exata medida em que pus tudo aquilo que sou nas minhas ações e nos meus comportamentos e nunca traí os meus valores nem a minha consciência”.
Alívio após a derrota e críticas internas duras
Surpreendentemente, o sentimento dominante após a noite eleitoral não foi o desespero. Pelo contrário, o antigo líder falou numa sensação inesperada. Confessou ter sentido “uma grande sensação de alívio”, recorrendo a uma metáfora forte para descrever o ambiente interno do partido. “Utilizando até uma linguagem militar, o fogo amigo também mata”, disse.
Além disso, expôs a dureza da oposição interna. “Os principais oponentes que eu tive em congresso, quando eu venci a eleição, disseram que iriam acabar comigo mesmo que para isso precisassem destruir o próprio partido”, revelou.
As razões para o colapso do CDS-PP
Segundo Francisco Rodrigues dos Santos, o desfecho eleitoral não pode ser explicado apenas pela liderança. Falou numa “tempestade perfeita”, apontando falhas estruturais profundas. Admitiu que sentiu um sistema fechado, onde “havia um certo corporativismo no partido, uma linha que já vigorava há mais de 20 anos”.
Criticou ainda a “lógica orgânica, reativa, de impedir que houvesse renovação para preservação e manutenção de lugares”. A este cenário juntaram-se fatores externos decisivos, como ser “o único líder partidário que não estava sentado no Parlamento”, a pandemia e a falta de meios. “Tinha um partido absolutamente falido, sem qualquer recurso financeiro para apostar na nossa dinâmica”, assumiu.
Democracia, extremos e mudança de pensamento
Já ao analisar o contexto político atual, Francisco deixou uma posição clara sobre os valores democráticos. “Prefiro perder uma eleição em democracia do que perder a democracia numa eleição”, garantiu.
Sobre o crescimento dos extremismos, reconheceu uma mudança na sua abordagem. “Durante muito tempo, fui partidário daquela ideia de que com os extremistas o melhor era fingir-nos de mortos… Eu hoje acredito que não se pode debater com essas pessoas, temos que os combater no plano das ideias, nos valores e da ação política”, defendeu.
Evolução sobre o casamento homossexual
Um dos momentos mais marcantes da entrevista surgiu quando o tema do casamento homossexual foi abordado. Francisco Rodrigues dos Santos assumiu uma mudança clara de posição, citando Ortega y Gasset. “Mudar certas ideias é um sinal de inteligência, mudar valores é um sinal de perda”, disse.
De forma perentória, afirmou: “Aceito totalmente o casamento homossexual e acho que é um modelo que funciona”. Justificou a evolução com uma reflexão pessoal profunda. “Essa organização funciona, que é recheada de felicidade, que é o amor e do amor ninguém foge, e que o Estado não tem o direito de impedir que as pessoas, livremente, constituam a sua própria unidade de organização familiar”, declarou.
Família, desgaste e prioridade atual
Afastado da ribalta mediática, o antigo líder do CDS-PP garantiu que a prioridade agora é a vida pessoal. Reconheceu que “a minha família sofreu muito” durante os anos de exposição política.
Embora admita lidar bem com a crítica pública, confessou uma fragilidade. “Tenho uma grande capacidade de lidar com o desgosto e com as amarguras da exposição pública, mas quando vejo os meus em sofrimento, a mim custa mais”, disse.
Por fim, deixou uma nota agridoce sobre o apoio familiar. “Senti sempre o apoio incondicional da minha família, mas senti que eles eram muitas vezes um para-raios, um para-choques daquilo que me acontecia”, concluiu, explicando que essa é uma realidade que hoje procura evitar, focado numa vida mais reservada.
