Greve geral reacende negociações laborais e provoca divisões políticas e sociais, com o governo a (provavelmente) ter de ceder.
Após a greve geral desta semana, o debate em torno da reforma da lei laboral voltou a intensificar-se. O Governo, os sindicatos e os partidos políticos reagiram de forma distinta ao impacto da paralisação.
Governo chama UGT para retomar negociações
Antes de mais, a ministra do Trabalho convocou a UGT para uma reunião na próxima terça-feira. O objetivo passa por dar continuidade às negociações sobre o anteprojeto de reforma da legislação laboral.
Recorde-se que, antes da greve geral, o Governo já tinha reunido com a UGT em São Bento, com a presença do primeiro-ministro. Na altura, a central sindical mostrou abertura ao diálogo.
Segundo Mário Mourão, líder da UGT, havia “disponibilidade para negociar tudo, sem linhas vermelhas”. Ainda assim, deixou um aviso após a paralisação.
“A greve geral pode ser o começo de uma nova negociação, ou o começo de uma longa luta”, afirmou.
Chega afasta-se da proposta do Executivo
Entretanto, o Chega distanciou-se do anteprojeto do Governo. André Ventura criticou várias medidas, incluindo o fim das restrições à subcontratação e a possibilidade de não reintegração de trabalhadores despedidos ilicitamente.
Num frente a frente com Jorge Pinto para as presidenciais, o líder do Chega acusou o Governo de um “ataque às mães e aos pais” trabalhadores. Além disso, rejeitou um “bar aberto de despedimentos”.
Apesar das críticas, o Executivo depende do maior partido da oposição para aprovar alterações à lei laboral no Parlamento.
Impacto da greve divide leituras
Por outro lado, a greve geral originou uma forte divergência de números. Para as centrais sindicais, tratou-se de uma das maiores paralisações de sempre, com mais de três milhões de trabalhadores envolvidos.
Já o Governo minimizou o impacto, sublinhando que os efeitos se concentraram no setor público. A CIP alinhou com essa leitura, considerando o impacto “nulo ou residual” na maioria das indústrias.
Administração Pública e setor privado em funcionamento
Entretanto, o ministro das Finanças, Miranda Sarmento, reforçou a posição do Executivo. Segundo o governante, “a maioria da Administração Pública esteve a trabalhar e a esmagadora maioria do setor privado esteve a trabalhar”.
Ainda assim, admitiu a existência de “pequenas situações de serviços públicos” encerrados devido à greve.
Primeira greve geral conjunta em 12 anos
Importa recordar que esta foi a primeira greve geral, em 12 anos, a juntar CGTP e UGT. A paralisação teve como alvo direto o anteprojeto do Governo para a reforma laboral.
Após a convocação da greve, o Executivo procurou uma aproximação à UGT. Entre as medidas, propôs repor os três dias de férias associados à assiduidade e retirou a proposta que facilitava despedimentos em médias empresas.
Incidentes e detenções em Lisboa
A manifestação em Lisboa terminou com seis detenções. Estiveram em causa situações como grafittis em edifícios, agressões, resistência às autoridades e a violação do perímetro de segurança junto à Assembleia da República.
Uma minoria de manifestantes provocou desacatos, incendiando caixotes do lixo e lançando objetos contra a polícia.
Setores mais afetados pela paralisação
No setor bancário, sindicatos da UGT reportaram o encerramento de “muitos balcões” durante a greve.
Nos CTT, registaram-se “algumas perturbações pontuais em alguns centros de distribuição postal”. Das 570 lojas existentes, 563 mantiveram-se abertas.
Já na aviação, a paralisação levou ao cancelamento de cerca de 400 voos. Segundo o sindicato do setor, apenas operaram voos de serviços mínimos, com exceção da easyJet e da Ryanair.
Assim, a greve geral marcou um novo capítulo na discussão da reforma laboral, com negociações reabertas, tensão política e leituras opostas sobre o seu real impacto.
