Helena Sacadura Cabral reflete sobre pais e filhos: «Já não basta amar. É preciso saber comunicar»

Helena Sacadura Cabral reflete sobre pais e filhos: «Já não basta amar. É preciso saber comunicar», considerou a escritora.

Helena Sacadura Cabral voltou às redes sociais para refletir sobre as mudanças nas relações familiares e, desta vez, colocou no centro da discussão a ligação entre pais e filhos. Num texto publicado no Facebook, a escritora e cronista fala de autoridade, autonomia, tecnologia e da dificuldade crescente em manter o diálogo entre gerações.

Sob o título “Pais e filhos: uma relação em mudança”, Helena Sacadura Cabral começa por afastar a ideia de que as diferenças atuais resultem de uma diminuição dos afetos.

“As relações entre pais e filhos atravessam hoje uma transformação profunda. Não porque o amor tenha diminuído, mas porque mudaram as circunstâncias, os ritmos de vida e as expectativas de cada geração.”

Para a autora, a família continua a representar “o lugar essencial de pertença” para muitas pessoas, mas já não funciona segundo os mesmos códigos de autoridade das gerações anteriores.

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Uma autoridade que agora precisa de ser explicada

Helena Sacadura Cabral considera que muitos pais vivem atualmente entre duas vontades: estar mais próximos dos filhos e, ao mesmo tempo, estabelecer os limites necessários.

“Os pais de hoje vivem um paradoxo. Por um lado, desejam estar mais próximos dos filhos, ouvir as suas opiniões e respeitar a sua individualidade. Por outro, sentem-se frequentemente inseguros quanto aos limites que devem impor.”

A diferença, sustenta, está também na forma como a própria autoridade parental passou a ser exercida.

“A antiga autoridade, baseada sobretudo na idade e na posição dos pais, deu lugar a uma autoridade que precisa de ser explicada, negociada e, muitas vezes, justificada.”

Uma mudança que tornou, segundo Helena, a relação entre gerações “mais dialogante, mas também mais exigente”.

Filhos crescem com referências que ultrapassam a família

Do outro lado estão os filhos, que chegam à vida adulta num contexto muito diferente daquele que os próprios pais conheceram.

Helena Sacadura Cabral lembra o peso do acesso permanente à informação, das redes sociais e da multiplicação de referências exteriores ao núcleo familiar.

“Aprendem cedo a questionar, a comparar e a afirmar a sua identidade.”

Por isso, acrescenta, nem sempre aquilo que pode ser lido pelos pais como uma atitude de rebeldia tem necessariamente esse significado.

“Nem sempre aceitam como evidente aquilo que os pais lhes transmitem, o que pode ser interpretado como rebeldia quando, muitas vezes, é apenas a procura de autonomia.”

Tecnologia aproxima e afasta ao mesmo tempo

A tecnologia ocupa uma parte significativa da reflexão.

Para Helena Sacadura Cabral, nunca foi tão fácil pais e filhos manterem contacto permanente, mas essa ligação não significa necessariamente maior proximidade.

“Nunca pais e filhos estiveram tão permanentemente ligados e, paradoxalmente, nunca foi tão fácil estarem distantes.”

A autora deixa uma imagem bastante concreta dessa realidade.

“Vivem na mesma casa, mas cada um pode permanecer fechado no seu próprio ecrã, absorvido por um universo particular.”

A convivência familiar exige, por isso, um esforço que Helena considera hoje mais consciente.

“A convivência exige hoje um esforço consciente de presença, de conversa e de atenção que antes surgia de forma mais espontânea.”

«O desafio está em não transformar essa tensão numa guerra»

Apesar de todas as alterações sociais e tecnológicas, Helena Sacadura Cabral considera que existe algo que permanece semelhante entre gerações.

“Os pais receiam pelo futuro dos filhos; os filhos desejam ser reconhecidos como pessoas independentes.”

Entre essas duas posições surge aquilo que descreve como uma tensão inevitável entre proteção e liberdade.

“O desafio está em não transformar essa tensão numa guerra, mas numa aprendizagem mútua.”

E é precisamente aí que coloca uma das ideias centrais do texto.

“Talvez a grande diferença das relações atuais entre pais e filhos seja esta: já não basta amar. É preciso saber comunicar.”

«Os filhos não serão a continuação das suas vidas»

Helena Sacadura Cabral defende ainda que a comunicação implica cedências e compreensão dos dois lados.

Aos pais deixa uma ideia muito clara:

“Os pais precisam de aceitar que os filhos não serão a continuação das suas vidas, mas pessoas com escolhas próprias.”

Aos filhos pede também uma leitura menos imediata de determinadas atitudes parentais.

“Os filhos precisam de compreender que a preocupação dos pais nem sempre é controlo; muitas vezes é apenas a forma imperfeita que o amor encontra para se manifestar.”

No final, a autora afasta também a ideia de que uma família saudável seja aquela onde não existem diferenças ou conflitos.

“Uma relação saudável entre pais e filhos não é aquela em que nunca há desacordos, mas aquela em que, apesar deles, permanece o respeito.”

Para Helena Sacadura Cabral, compreender não exige pensar da mesma forma.

“As gerações não têm de pensar da mesma maneira para se compreenderem. Basta que nenhuma deixe de escutar a outra.”

E termina colocando no diálogo aquilo que considera ser uma das maiores responsabilidades das famílias num tempo marcado pela velocidade e pela dispersão.

“Num tempo em que tudo parece acelerar, talvez essa seja a maior responsabilidade de pais e filhos: preservar o diálogo, porque é nele que a família continua a reconhecer-se como um lugar de afeto, confiança e liberdade.”

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