José Tolentino Mendonça vence Prémio Eduardo Lourenço, na sua 21ª edição, e atribuído por unanimidade pelo Centro de Estudos Ibéricos, na Guarda, no ano em que celebra os 25 anos da sua fundação.
Alguém que “nos ensina que a fronteira é um mistério de encontro”
O nome do Cardeal José Tolentino Mendonça foi anunciado como vencedor no dia 11 de abril. “O júri reconheceu o perfil do intelectual, do humanista e do poeta que marca inequivocamente a cultura portuguesa contemporânea. Igualmente reconheceu o pensador ecuménico e do diálogo que, com a sua obra, nos ensina que a fronteira é um mistério de encontro”, pode ler-se no comunicado divulgado no dia da revelação do vencedor.
Instituído em 2004 em homenagem ao seu Mentor e Patrono, o Prémio Eduardo Lourenço distingue em 2025, na personalidade de José Tolentino Mendonça, “o valor da Educação e da Palavra como fontes de inspiração para fortalecer laços que cruzam todas as fronteiras e dos quais o diálogo ibérico tem sido exemplo”.
Um prémio que procura homenagear legados culturais e de diálogo
Destinado a galardoar personalidades ou instituições com intervenção relevante no âmbito da cultura, cidadania e cooperação ibéricas, o Prémio Eduardo Lourenço, no montante de 7500,00 € (sete mil e quinhentos euros), contou este ano com candidaturas de elevada qualidade e diversidade.
Assim, José Tolentino Mendonça junta o seu nome aos vencedores de outras edições, entre os quais se contam nomes como Maria Helena da Rocha Pereira, Professora Catedrática de Cultura Greco-Latina (2004), Maria João Pires, Pianista (2007), Mia Couto, Escritor (2011), Jerónimo Pizarro, Professor e Investigador (2013), Agustina Bessa-Luís, Escritora (2015), Luís Sepúlveda, Escritor (2016) ou Lídia Jorge, Escritora (2023), entre muitos outros.
Jubileu dos Artistas e do Mundo da Cultura como chama de esperança
Presença assídua no Vaticano, o cardeal é uma das vozes de um valor tão antiquado quanto necessário da atualidade: a esperança. Esse valor que adorna a nossa bandeira nacional, e que precisamos hoje em dia mais do que outro dia qualquer. Apesar de ser algo tradicional e chegado ao passado, é um valor que tem de voltar. Em fevereiro de 2025, José Tolentino Mendonça já tinha dito, em pleno Vaticano, que é “um bem de primeira necessidade”, aquando das comemorações do Ano Santo 2025.
O “Jubileu dos Artistas e do Mundo da Cultura”, que se realizou de 15 a 18 de fevereiro, reuniu mais de dez mil participantes inscritos de mais de 100 nações dos cinco continentes, incluindo Portugal e vários países lusófonos.
Defensor de “oportunidades criativas que permitam a todos e a cada um reavivar a esperança”
Aqui, o cardeal foi capaz de “provocar um diálogo sobre a esperança, colocá-la no centro do espaço público como um tema cultural prioritário”.
“A esperança é uma experiência antropológica global, que pulsa no coração de todas as culturas, e que dá a todas a oportunidade de dialogar, a partir da esperança. Devemos escutar o que as diferentes culturas têm a dizer sobre a esperança”, reafirmou. E para isto, é necessário dar “oportunidades criativas que permitam a todos e a cada um reavivar a esperança”, valorizando o papel dos artistas.
Biografia de um cardeal que marca a nação e o mundo
José Tolentino Mendonça é sacerdote, poeta e professor. Nasceu na ilha da Madeira e estudou Ciências Bíblicas em Roma. Vive no Vaticano desde 2018, onde foi responsável pela Biblioteca Apostólica e pelo Arquivo Secreto do Vaticano e é atualmente Prefeito do Dicastério para a Cultura e a Educação. Em 2019, foi elevado a Cardeal pelo Papa Francisco.
Para José Tolentino Mendonça, «a poesia é a arte de resistir ao seu tempo».
“A Vida em Nós”
O cardeal José Tolentino Mendonça, cuja obra mais recente, “A Vida em Nós”, foi publicada pela Quetzal em novembro de 2024, vive atualmente em Roma. Foi responsável pela Biblioteca e Arquivos do Vaticano e nomeado prefeito do novo Dicastério para a Cultura e a Educação da Santa Sé, pelo Papa Francisco.
Este seu último livro, “A Vida em Nós”, tem como sinopse: “O que significa ser cristão hoje; até onde vão os domínios da fé ou os limites da esperança; o que significam a alegria, a família, a velhice, o amor e a amizade, a imperfeição do tempo e a necessidade da beleza nas nossas vidas? Sobre estes temas, e ao longo de uma obra ensaística cuidada e atenta, José Tolentino Mendonça escreveu textos notáveis de que agora se recuperam fragmentos e passagens que nos confrontam e comovem.
Falam da presença de Deus, da Sua busca, mas também da solidão e da necessidade dos outros, das leituras que não se esquecem, da experiência da fé e da dúvida, da fragilidade, da renovação dos laços familiares – e até de Camões, «que nos deixou em herança a poesia».
No seu tom simultaneamente confessional, poético e reflexivo, estes fragmentos e aforismos da sua obra reenviam-nos para uma evidência desarmante: a de que, sem beleza (e sem inquietação), a experiência cristã permanece incompleta”.
“O amor é o caminho que nos conduz à esperança”
Em jeito de conclusão desta notícia sobre a vida e carreira de José Tolentino Mendonça, deixamos uma citação do livro “A Mística do Instante” (2014):
“O amor é o caminho que nos conduz à esperança. E isto não é um tipo de consolação, enquanto esperamos por dias melhores. Nem é, sobretudo, a expectativa do que há de vir. Esperar não significa projetar-se num futuro hipotético, mas saber recolher o invisível no visível, o inaudível no audível, e assim sucessivamente. Descobrir uma outra dimensão dentro e para além desta realidade concreta que nos é dada como presente. Todos os nossos sentidos estão envolvidos em acolher, com assombro e surpresa, a promessa que chega, não apenas num tempo indefinido do futuro, mas já hoje, a cada instante. A esperança mantém-nos vivos. Não nos permite viver macerados pelo desânimo, absorvidos pela desilusão, abatidos pelas forças da morte. Compreender que a esperança floresce no instante é experimentar o perfume do eterno”.

