Manuel João Vieira revela susto na UCI e explica por que deixou de beber

Manuel João Vieira revela susto na UCI e explica por que deixou de beber bebidas de teor alcóolico.

Manuel João Vieira foi o convidado deste sábado de Daniel Oliveira no «Alta Definição», da SIC. Numa conversa marcada por revelações pessoais, o músico recordou o internamento que o fez temer pela vida, explicou a decisão de interromper o consumo de álcool e revisitou uma infância condicionada pela ausência dos pais.

O criador dos Ena Pá 2000 também analisou a evolução da televisão portuguesa, acusando os canais privados de terem promovido uma redução do nível intelectual dos conteúdos e considerando que o serviço público acabou por seguir o mesmo caminho.

«Só queria mais três semanas»

Manuel João Vieira revelou que esteve internado durante cerca de 15 dias, tendo passado parte desse período numa Unidade de Cuidados Intensivos. A fragilidade física e o ambiente hospitalar levaram-no a confrontar-se com a possibilidade da morte.

“Estive com uma mania que ia para o outro lado, para o hospital, e estive na UCI durante algum tempo (…) 15 dias (…) E depois fui para um outro sítio em que fiquei melhor, mas eu às tantas dizia para mim, ‘vá lá, só mais uma semana, só mais duas semanas’ (…) eu quando fui para o corredor (…) precisavam de um passador e não sei quê, aquelas coisas que se ouvem quando se vai para esses sítios. E então estava mesmo cagaçado. E então às tantas só queria mais três semanas, um mês, só para eu tentar pôr as coisas assim em ordem, não ser assim coisa de repente a apanhar-me”, confessou.

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Segundo o relato do próprio, a crise poderá ter estado relacionada com uma alteração abrupta na medicação que tomava há vários anos. Esta explicação corresponde apenas à informação que disse ter recebido durante o acompanhamento médico.

“Pode ter sido várias coisas. Eu estava a tomar comprimidos para dormir, que tomava há 10 anos. E que deixei de os tomar de repente. E disseram que foi isso que me pôs assim”, explicou.

As noites passadas no hospital

O artista manteve-se particularmente atento aos sons e às conversas que o rodeavam durante o internamento. Apesar da gravidade do momento, recordou o ambiente hospitalar com o humor peculiar que caracteriza as suas intervenções.

“Estive muito atento àquilo que se passava, sobretudo à noite, à minha volta, embora tivesse uma espécie de uma cortina à minha frente. Ouvia à minha esquerda alguém a tossir com uma tosse muito profunda (…) do lado direito, ouvia alguém a tossir mais agudamente. Depois ouvia um sujeito que se percebia que estava à esquerda, ao fundo, a gritar, ‘Júlia! Júlia! Júlia!’ E depois todos acordavam com um problema qualquer e aquilo era caótico (…) Havia uma senhora que estava à minha frente que dizia, ‘ah, eu tive uma vida muito colorida (…) muitas festas, muitas orgias, álcool, drogas (…) E o que é que a senhora fazia? ‘Eu nada, nunca fiz nada’”, contou.

A experiência representou um momento de viragem. Habituado a transformar situações desconfortáveis em matéria para as suas personagens, Manuel João Vieira reconheceu que o susto lhe mostrou de forma concreta a fragilidade da vida.

Quatro meses sem beber

Durante a recuperação, uma médica recomendou-lhe que não consumisse bebidas alcoólicas durante oito meses. O músico já cumpriu metade desse período e pretende manter a indicação até ao fim.

“Houve uma médica que me deu determinadas coisas para dormir, em que disse, ‘você, o melhor que tinha que fazer agora era não beber durante oito meses’. E eu deixei de beber. Não bebo há quatro meses e vou estar mais quatro meses sem beber (…) Agora dá-me vontade de beber um vinho tinto com um bife de lombo. É pena não conseguir”, revelou.

A relação de Manuel João Vieira com o álcool esteve durante muito tempo associada aos espetáculos. Quando passou de instrumentista a vocalista principal dos Ena Pá 2000, encontrou na bebida uma forma de combater a timidez e assumir uma presença mais teatral em palco.

“Eu acho que a personagem que eu consegui arranjar para os Ena Pá 2000 é uma personagem que consegue ultrapassar a timidez através de uma espécie de salto de teatro. Eu não era, digamos, frontman, eu estava a tocar os meus instrumentos lá atrás, portanto não tinha que fazer absolutamente nada de teatral para o público. E, a partir do momento em que sou frontman, foi preciso um salto de teatro para fazer essa personagem e mesmo assim havia alguma timidez. Eu depois recorria à bebida”, explicou.

Espetáculos sóbrio e excessos do passado

Atualmente, o artista garante que já consegue subir ao palco e interpretar as suas personagens sem recorrer ao antigo ritual.

“Agora é engraçado, tenho feito alguns espetáculos sem beber. Correm bem. Acho que já consegui libertar-me dessa necessidade absoluta de beber um copinho ou um café com bagaço antes de ir para o palco. No início dava jeito. Uma cervejinha, duas, qualquer coisa assim. Tinha que passar por esse ritual”, admitiu.

Manuel João Vieira também não escondeu os episódios de descontrolo vividos durante os anos mais intensos da noite lisboeta.

“Eu lembro-me de certa altura, vou num concerto, tenho cá além de cerveja, estava a beber uma garrafa de whisky e no fim do espetáculo um tipo do público deu-me uma garrafa de bagaço, que eu bebi bem. Portanto, eu bebia um bocado. Lembro-me de estar completamente bêbado a fazer coisas completamente estúpidas, tipo bater em carros. Lembro-me de andar em cenas de pancadaria. Lembro-me de me deitar no meio de uma estrada e ‘não saio mais daqui’. Coisas de bêbado”, recordou.

O músico afastou, na sua própria interpretação e sem apresentar uma avaliação clínica, a existência de uma dependência crónica.

“Eu tenho um beber que a primeira fase é agradável e muito social, depois chega uma determinada fase em que fico o contrário (…) Não precisei de ajuda clínica porque estranhamente nunca fiquei alcoólico (…) tenho conseguido fazer os concertos porque acho que já consegui colar esse personagem mais ou menos sem necessitar do álcool”, afirmou.

Infância marcada pela ausência dos pais

A entrevista percorreu igualmente a infância de Manuel João Vieira. O pai, o artista plástico João Vieira, afastou-se quando o filho tinha cerca de um ano e meio. Durante os primeiros anos, foi o avô quem assumiu uma função próxima da figura paterna.

“O meu pai não me lembrava muito dele porque ele foi-se embora quando eu tinha um ano e meio. Nessa época que eu estou a falar, que foi antes dos seis anos, não tinha assim, pronto, era como se fosse um tio afastado. Não me lembro muito bem dele nessa altura. Lembro-me depois. O meu avô era uma espécie do nosso pai, que vinha aos fins de semana”, partilhou.

A aproximação entre pai e filho aconteceu apenas durante a adolescência, alimentada pelo interesse comum pelas artes e pelas conversas sobre pintura.

“O meu pai não me parecia uma pessoa muito próxima. Comecei a dar-me melhor com o meu pai na adolescência. E aí existiam coisas em comum, não propriamente a pintura, mas a arte em geral. E as conversas acerca disso (…) Eu gosto muito das coisas do meu pai, mais de umas do que de outras, mas adoro a arte que ele faz. Mas é bastante distinta da que eu faço. Eu parece-me que venho mais da banda desenhada”, explicou.

A aula de pintura que ficou por dar

Manuel João Vieira e o pai chegaram a expor juntos no Algarve, através do projeto «Dois Limões em Férias». Contudo, a morte de João Vieira deixou conversas e aprendizagens técnicas por concretizar.

“Fica sempre [coisas por dizer] (…) Ficaram coisas por dizer e hoje em dia, se estivesse com o meu pai, se ele ainda estivesse vivo, eu iria fazer uma coisa que era ir ter uma aula de pintura com ele, porque ele pintava com espátula. E há várias coisas que percebo, outras coisas que eu não percebo. Técnicas, gostava muito de falar com ele”, confessou.

A mãe também esteve ausente durante parte da infância devido a um quadro grave de tuberculose, que a levou a permanecer num sanatório na Suécia. Só regressou quando Manuel João Vieira tinha seis anos.

“Isto houve sempre algum problema ali de separação (…) A minha mãe deve ter sentido qualquer coisa quando ela se foi embora. Talvez me tenha sentido solitário em relação a isso. Depois a minha mãe voltou da Suécia quando eu tinha seis anos e as coisas foram para outro grau de normalidade”, recordou.

«A televisão faz a intriga»

Além das revelações pessoais, o músico, artista plástico e docente universitário analisou a evolução dos meios de comunicação portugueses. Na sua perspetiva, a entrada dos canais privados na década de 1990 trouxe diversidade, mas provocou uma progressiva redução da exigência intelectual.

“A partir da emergência dos novos canais houve uma grande abertura, mas pouco a pouco foi havendo uma queda de nível intelectual dos mass media, que era a nossa televisão”, considerou.

O mentor dos Ena Pá 2000, Irmãos Catita e Corações de Atum acusou as estações de procurarem formatos mais simples para conquistarem audiências. Na sua opinião, a RTP também acabou por adotar essa lógica.

“Houve sempre uma grande necessidade de ir pelo lado da estupidificação das audiências. O povo é engraçadinho e pobrezinho (…) e eu acho que isso pesou muito e depois a televisão pública foi atrás das privadas”, criticou.

Manuel João Vieira relacionou esta transformação com o crescimento dos conteúdos ligeiros, da música popular produzida de forma industrial e dos programas centrados em conflitos e na exposição da vida privada.

“As vizinhas já não estão a intrigar à janela. Agora têm uma televisão que faz a intriga por elas e aquilo tudo é um mundo curioso”, ironizou.

Professor na ESAD das Caldas da Rainha e autor de várias candidaturas presidenciais satíricas, Manuel João Vieira continua a utilizar o humor, a música e as suas personagens como resposta àquilo que considera ser a perda de sentido crítico na sociedade. Depois do susto de saúde, garante que consegue fazê-lo sem o álcool que durante anos acompanhou a entrada em palco.

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