Maria João Jones explica como Recante reinventam o cante com eletrónica

Maria João Jones explica como Recante reinventam o cante com eletrónica, em entrevista ao Infocul.pt.

Texto: Rui Lavrador
Fotografia: Diogo Nora

Projeto levou um “Alentejo eletrónico” à Casa do Alentejo em Lisboa

O projeto Recante continua a conquistar público e a afirmar-se no panorama musical português. O grupo apresentou recentemente dois concertos na Casa do Alentejo, em Lisboa, ambos com lotação esgotada.

O espetáculo, realizado a 28 de fevereiro, confirmou o interesse crescente do público por uma proposta que mistura tradição e contemporaneidade. Em palco, o grupo apresentou cante alentejano, mantendo a essência da herança musical da região.

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Após o concerto, a vocalista Maria João Jones falou sobre o momento atual do projeto e a forma como tem sido recebido pelo público.

Um projeto que nasceu sem expectativas e cresceu de forma natural

Segundo a cantora, o percurso do grupo tem sido marcado por uma evolução orgânica. A prioridade sempre foi trabalhar a música de forma genuína e ligada às raízes culturais.

“Tem estado a correr incrivelmente bem. Nós temos trabalhado sempre sem muita expectativa, porque basicamente nós optámos por fazer aquilo que realmente nos dava prazer e que realmente amamos, que é pegar na nossa herança.”

Além disso, a artista sublinha que o crescimento do projeto tem acontecido de forma natural.

“Mas sem nenhuma expectativa, só mesmo para conseguirmos cantar e tocar aquilo que realmente nos apaixona.”

Por isso, o facto de terem conseguido esgotar duas sessões em Lisboa assume um significado especial para o grupo.

“E felizmente tem corrido muito bem. A reação tem sido muito boa, mas tem sido tudo muito orgânico, o que é fantástico. E não podíamos estar mais felizes de estar aqui na casa do Alentejo, que é um marco em Lisboa do nosso Alentejo, sem dúvidas.”

Eletrónica e tradição encontram-se no cante alentejano

Uma das características mais marcantes do projeto Recante é a fusão entre o cante tradicional e elementos eletrónicos. Ainda assim, Maria João Jones garante que a base do cante se mantém fiel à tradição.

“Nós não, porque nós tentamos manter, nós temos essa modernidade, mas tentamos manter sempre a sonoridade original através da voz.”

De acordo com a vocalista, a forma de cantar continua a respeitar a tradição do cante alentejano.

“A forma como a voz é cantada não foge à original, à tradição.”

A cantora recorda ainda que a polifonia é um elemento essencial desta expressão musical.

“Por exemplo, o cante alentejano é muito conhecido pela polifonia, tal como tivemos agora aqui o grupo coral, a polifonia é o que faz trazer a alma do cante.”

Para recriar essa dimensão sonora, o projeto utiliza soluções tecnológicas que permitem manter essa riqueza vocal.

“Eu sendo só uma, a polifonia é um bocadinho difícil, o que é que nós fazemos? Introduzimos a eletrónica com vozes minhas já gravadas, não é nada feito, sou eu, fui eu que gravei e em partes que nós achamos que são partes-chave, são lançadas no backing track para dar esse toque de polifonia.”

Ainda assim, a base interpretativa permanece ligada à tradição.

“Agora, a forma como é cantada, mantemos sempre como é cantada tradicionalmente.”

Um projeto que quer aproximar novos públicos do Alentejo

Atualmente, vários projetos musicais têm explorado as sonoridades do Alentejo. Para Maria João Jones, essa tendência é positiva para a preservação cultural.

“Graças a Deus, ainda bem que o Alentejo está na moda, ainda bem que não estão a deixar morrer a nossa tradição e a nossa herança, ainda bem que existem estes projetos imensos.”

No caso dos Recante, a aposta na eletrónica surge como uma forma de aproximar novos públicos.

“Nós, o que tentamos fazer de diferente, talvez que não tenha sido feito, é mesmo realmente introduzir a eletrónica, porque acho que desta forma até conseguimos chegar a público mais jovem.”

A vocalista acredita que esta abordagem pode despertar curiosidade em quem normalmente não escutaria o cante tradicional.

“Quem se calhar não ouviria o cante tradicional do grupo coral, mas se calhar até vai ouvir Recante.”

Ainda assim, a cantora considera que o elemento mais importante continua a ser a paixão pelo projeto.

“Por isso, acho que não é nada assim de extraordinário de diferente, mas que dá o toque e o amor que nós temos a fazer as coisas acho que também se transparece cá para fora.”

Novos concertos podem surgir dentro e fora de Portugal

Depois do sucesso em Lisboa, o grupo continua a preparar novos espetáculos. Para já, existem alguns concertos privados agendados.

No entanto, Maria João Jones revela que podem surgir novidades fora do país.

“Agora, neste momento, estamos com alguns concertos privados e temos… São coisas que não posso dizer já porque não estão certas, mas talvez alguns concertos para fora do país.”

Assim, o projeto Recante segue a afirmar-se como uma proposta singular na música portuguesa, cruzando tradição e inovação numa homenagem contemporânea ao cante alentejano.

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Rui Lavrador
Rui Lavradorhttp://www.infocul.pt
Jornalista e Director Infocul.pt

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