Recante trouxeram um Alentejo eletrónico e emocional à Casa do Alentejo, em dois concertos esgotados.
Texto: Rui Lavrador
Fotografias: Diogo Nora
No Salão Nobre da Casa do Alentejo, em Lisboa, não cabia mais ninguém. Este sábado, os Recante subiram ao palco para dois concertos completamente esgotados. E o que ali aconteceu foi mais do que música. Foi memória, foi identidade, foi futuro.

Primeiro, pelas 18h30, o grupo vindo da Cuba, no Alentejo, apresentou o seu trabalho assente no cancioneiro tradicional alentejano. Contudo, não se limitou à reprodução fiel do passado. Pelo contrário, trouxe-lhe uma nova respiração.

Tradição e eletrónica: um casamento improvável que resulta
Desde os primeiros acordes, percebeu-se a intenção. A tradição casa com uma sonoridade mais contemporânea. Ainda assim, nunca perde a essência de raiz que a sustenta.
Assim, a vertente eletrónica surge como extensão do Cante. Não o apaga. Não o descaracteriza. Antes amplia-lhe o eco.

O cancioneiro alentejano tem essa força rara. Independentemente das roupagens que lhe sejam dadas, conduz-nos a lugares mais profundos da alma. Desperta emoções antigas. Mexe no que julgávamos adormecido.
E, naquela sala histórica, sentiu-se isso em cada silêncio e em cada aplauso.

Maria João Jones lidera projeto com convidados em palco
O projeto, liderado pela vocalista Maria João Jones, contou com vários convidados. Em palco estiveram António Barradinhas, David Garcez, Ana Valadas e o Grupo Coral Raízes do Cante.
Além disso, cada participação acrescentou uma camada distinta ao espetáculo. Houve momentos de contenção e outros de arrebatamento coletivo.

Destacou-se, desde logo, a estreia do tema original dos Recante, intitulado “Correio da Manhã”. A canção revelou identidade própria e apontou caminhos.
Por outro lado, houve também espaço para a interpretação de “Amar de Menos”, tema de David Garcez ainda não editado. A música foi cantada por ele e pelo grupo, num dos momentos mais intensos da noite.

“Amar de Menos”: um hino à urgência de viver e amar
Sobre “Amar de Menos”, importa sublinhar a força da letra. Trata-se de uma reflexão profunda sobre o tempo curto da vida. Um apelo a amar na plenitude.
No entanto, não se fala aqui de um amor acomodado ou de fachada. Fala-se de amar na verdadeira aceção da palavra. Amar sem fuga. Sem submissão a um status quo imposto por outros ou pelas nossas próprias crenças limitantes.

Amar como ato de liberdade. Mas também como gesto de grande generosidade.
Essa mensagem ecoou no Salão Nobre. Tocou quem ouviu. Porque, no fundo, todos sabemos que o amor é construção permanente. Uma obra inacabada. Uma aprendizagem diária.
Um alinhamento que honra o Alentejo
Ao longo dos concertos, o público percorreu um alinhamento que atravessou o imaginário alentejano:
- Fui colher uma romã
- Diz a laranja ao limão
- Pêra verde
- Amora madura
- É tão grande o Alentejo
- Acorda, Maria, Acorda
- Trigueira de Raça
- Pelo Toque da Viola
- Cuba Terra Bendita
- Ao romper da Bela Aurora
- Meu lírio roxo do campo
- Quero ir para o Altinho
- Correio da Manhã
- Gotinha de Água
- Amar de Menos
- Solidão, Ai Dão Ai Dão
- Menina estás à janela
Cada tema trouxe uma paisagem. Cada letra abriu uma janela para a planície, para o campo, para a vida simples e complexa que ali pulsa.

Recante: tradição com futuro
Por fim, ficou a certeza de que os Recante têm potencial de crescimento. O projeto revela maturidade artística e visão. Pega na tradição e oferece-lhe musicalidade de presente.
Não se trata de modernizar por modernizar. Trata-se de escutar o passado com respeito e responder-lhe com o som do agora.
E, naquela noite em Lisboa, percebeu-se que o Cante pode atravessar gerações. Pode vestir novas texturas. Pode dialogar com outras linguagens.
Mas, acima de tudo, continua a ser casa. Uma casa onde a emoção entra sem pedir licença.


