Mariana Monteiro alerta para alunos impedidos de assistir a palestras sobre igualdade: “Nada é garantido”, disse.
Foto: Mariana Monteiro – Instagram
Há uma frase que atravessa a entrevista de Mariana Monteiro ao podcast Educa-te e fica a ecoar: nada é garantido.
A atriz, convidada de Rodrigo Castro numa conversa sobre educação emocional, cidadania e pequenas mudanças, falou do trabalho que desenvolve há mais de uma década junto de crianças. Porém, foi um episódio recente, numa escola, que lhe deixou maior inquietação.
Alguns alunos foram impedidos pelos encarregados de educação de assistir às suas palestras sobre igualdade de género. Para Mariana Monteiro, o caso mostra que há direitos e debates que continuam longe de estar consolidados.
“Pela primeira vez tinham sido proibidos”
O projeto infantojuvenil de Mariana Monteiro nasceu em 2015, depois do seu trabalho com as Nações Unidas. Desde então, a atriz tem levado às escolas mensagens ligadas à igualdade de género.
Dessa experiência nasceram também livros como Mariana no Mundo Igual. Ainda assim, nem todos os sinais dos últimos tempos a deixam tranquila.
“Estávamos numa escola em que pela primeira vez tinham sido proibidos de estar presente alguns alunos“, contou Mariana Monteiro.
A atriz não escondeu o desconforto perante a decisão de alguns encarregados de educação.
“Fiquei super indignada e confesso que aquilo mexeu um pouco comigo (…) parece que de repente estamos a querer converter as pessoas a uma coisa que não é pelo bem comum. Quer dizer, nós só estamos a falar de uma coisa que é para que todos e todas estejamos de facto numa sociedade mais justa“
Mais do que um episódio isolado, Mariana viu ali um aviso.
“Parece que já foram conquistadas uma série de direitos (…) de repente deparei-me com essa consciência de que nada é garantido“
A atriz que aprendeu a viver com a vulnerabilidade
Antes de chegar ao tema da educação e da cidadania, Mariana Monteiro falou também sobre a própria profissão.
A representação, explicou, obrigou-a a lidar de frente com emoções que antes escondia.
“Ser atriz é precisamente ser vulnerável. Ou seja, a minha profissão é exercer essa qualidade o tempo todo“
Depois, olhando para o início da carreira, aos 16 anos, a artista reconheceu uma mudança profunda na forma como se relaciona consigo própria.
“A minha profissão tem sido aquilo que mais me tem feito (…) desde que comecei a representar aos 16 comecei a ser muito mais vulnerável do que antes, antes escondia e reprimia muito mais“
Por isso, Mariana defende que as emoções devem ser trabalhadas de forma “super livre e honesta”.
Sensibilidade, notícias e saúde mental
A conversa no Educa-te passou ainda pela forma como Mariana Monteiro gere o peso do mundo à sua volta.
A atriz assume-se como “uma pessoa extremamente sensível”. Essa característica, que considera importante no seu trabalho, também exige limites.
Sobretudo quando as notícias e os conflitos mundiais se tornam emocionalmente difíceis de absorver.
“Às vezes também não lido muito bem com o estar muito informada, mas tento estar de maneira a que também não me afeta demasiado a minha saúde mental“
Ainda assim, Mariana não defende o afastamento total. Prefere manter-se informada o suficiente para perceber onde pode agir.
E foi aí que deixou uma leitura dura sobre quem conduz o mundo.
“Acho que o mundo é liderado por pessoas que não são boas pessoas e por boas pessoas“
Pequenas ações, impacto real
Mariana Monteiro não se apresenta como otimista ingénua. Aliás, prefere olhar para a mudança de forma realista.
Para a atriz, transformar alguma coisa não implica salvar o mundo inteiro de uma vez. O caminho, acredita, faz-se no acumulado de gestos pequenos.
“Eu acho que sim que podemos mudar sempre (…) porque eu acho que nós estamos sempre a achar que mudar é criar uma coisa muito grande (…) a mudança é o somatório de muitas pequenas transformações“
A ideia volta a surgir quando fala da responsabilidade individual.
“Eu não acredito que tenhamos o poder individual, lá está, de transformar o mundo todo, mas acho que sim nós somos responsáveis por com as nossas ações, contribuir para pequenas mudanças“
Noutro momento da conversa, Mariana reforçou a mesma visão.
“Eu acho é que a mudança é o somatório de muitas pequenas transformações. Ou seja, eu não acredito que tenhamos o poder individual, lá está, de transformar o mundo todo, mas acho que sim, nós somos responsáveis por com as nossas ações contribuir para pequenas mudanças“
Petições e vitórias que chegam por email
Entre os exemplos que deu, Mariana Monteiro destacou uma ação simples: assinar petições.
A atriz explicou que o gesto pode parecer pequeno, mas já viu resultados concretos desse tipo de participação.
“Pequena ação é o que é assinar uma petição, vou assinar a petição (…) já recebi vários emails de ‘obrigada porque já aconteceu isto e isto, obrigada pela sua assinatura, graças a esta petição conseguimos libertar alguém’“
Mais tarde, voltou ao mesmo exemplo, sublinhando que participa com frequência.
“Pequena ação é o quê? É assinar uma petição, vou assinar a petição. Eu farto-me de assinar“
E acrescentou:
“A minha assinatura atua todas juntas… eu já recebi vários emails de ‘obrigada porque já aconteceu isto’, ‘obrigada pela sua assinatura, graças a esta petição conseguimos libertar alguém’“
Um apelo contra a divisão
No final, Mariana Monteiro deixou um alerta sobre a forma como a sociedade se tem dividido.
Para a atriz, a lógica de campos opostos fragiliza a empatia e torna qualquer mudança mais difícil.
“Acho mesmo que nós temos que deixar de fazer assim nós e os outros, nós e eles, porque senão a nossa sociedade só tem tendência para se dividir mais e mais“
A mesma ideia surgiu noutra formulação, como apelo direto à união.
“Temos que deixar de fazer assim: nós e os outros, nós e eles, porque senão a nossa sociedade só tem tendência para se dividir mais“
Entre a educação emocional, a igualdade de género e a saúde mental, Mariana Monteiro deixou uma mensagem clara. A mudança pode começar em pequenos gestos. Mas, para acontecer, exige presença, atenção e menos medo de falar do que ainda incomoda.

