Opinião. Sanjoaninas: “Uma feira cuidada e marcada pelo brio da organização”

Opinião. Sanjoaninas: “Uma feira cuidada e marcada pelo brio da organização”, por Rui Lavrador.

Opinião. Sanjoaninas: "Uma feira cuidada e marcada pelo brio da organização"

Sanjoaninas 2022.

Preferi esperar alguns dias após a 3ª e última corrida de touros integrada na edição deste ano da tradicional Feira de São João, Sanjoaninas, na Terceira, Açores, para redigir este artigo.

Não o quis fazer com o fervilhar das emoções que a mesma provoca em quem tem a possibilidade de as viver por inteiro.

A organização da parte tauromáquica da feira, cabe à Tertúlia Tauromáquica Terceirense. E é por aqui que começo. É, de longe, a organização mais profissional e cuidada a que assisti em Portugal. Desde o cuidado com tudo o que envolve a parte logística de uma feira desta dimensão, ao cuidado com o público, com a imprensa (pasmem-se! Mas é uma verdade sin-e-qua-non sem a qual me recuso analisar a feira), até ao profissionalismo empregado em cada detalhe, a verdade é que tentam que nada falhe. E convenhamos, imponderáveis podem acontecer, até aos melhores. Que eu tenha tido conhecimento ou assistido, não falhou em nada importante.

Outro destaque desta feira é o brio com que as suas gentes a trazem no peito e se envaidecem ao apresentá-la ao público. Motivos de sobra para uma vaidade pura, genuína e fundamentada.

A praça está extremamente bem cuidada e tudo é preparado ao pormenor para que nada falhe. Exemplo disso é que cada corrida conta com 7 enfermeiros e 3 médicos em praça, para qualquer situação em que seja necessário actuar. A equipa de manutenção da praça está também com tudo preparado para rapidamente solucionar qualquer imponderável que aconteça, seja uma tábua de uma trincheira que se possa partir ou qualquer outro ‘problema’ que necessite de resolução rápida. Uma praça limpa, cuidada, que enche e arregala o olhar de quem ali entra.

Porém, há algo em que as associações do sector, destaque para a Prótoiro, têm de começar a olhar com mais profundidade.

Os custos a que esta feira está obrigada por cada corrida são muito superiores aos de quem organiza eventos tauromáquicos no continente. Além dos custos ditos normais (cachet, alojamento), há todo um processo logístico que tem de ser salvaguardado, desde logo o transporte dos cavalos, dos cavaleiros contratados, as passagens aéreas e outros extras.

Não seria possível, quem tem por obrigação defender a tauromaquia, olhar para o empenho dos Terceirenses na organização desta feira e tentar arranjar soluções (que podem passar por parcerias ou outros mecanismos, destes custos extra não serem tão elevados ou sobrecarregar a TTT)? A primeira coisa a fazer, será sentarem-se todos à mesa e debaterem o tema.

Uma organização não se pode ver discriminada financeiramente por uma questão geográfica. Não há portugueses de 1ª e portugueses de 2ª. Um produtor de espectáculos na Figueira da Foz, Arronches, Salvaterra ou qualquer outra localidade com tradição tauromáquica no continente, tem claramente menos custos que um produtor ilhéu. Não deveríamos olhar para esta questão, não como uma crítica ao sistema, mas como possibilidade de unificar equitativamente todos aqueles que promovem a tauromaquia? Note-se, o termo usado é equidade e não igualdade!

Se nada se fizer para defender esta equidade, então há fundamento para dizer que há portugueses de 1ª e portugueses de 2ª. E não há “amor à festa” que salve tamanha incongruência e incoerência.

Por outro lado, era uma forma de valorizar, indirectamente, uma afición muito peculiar. Uma afición que dá primazia ao touro e que acarinha o artista. O foco é o touro e com tudo o que o rodeia. Uma afición que se entrega, que oferece tudo de si aos intervenientes do espectáculo, caso qualitativamente o mesmo valorize o espectáculo e respeite o seu oponente, o touro bravo.

As Sanjoaninas são um tesouro demasiado valioso que todo o tecido tauromáquico deve cuidar. E não basta bater com a mão no peito ou no teclado de um computador ou telemóvel para afirmar “que é das mais importantes feiras do país”. É preciso que os aficionados ilhéus e os continentais, bem como os artistas e ganadeiros, sejam olhados como um só e obtenham as mesmas oportunidades de mostrar o seu trabalho, sem com isso serem prejudicados financeiramente.

Porque as Sanjoaninas apenas se podem sentir, quando são vividas por inteiro. E vivê-las por inteiro ‘obriga’ a que sintamos o pulsar e o sentir daquelas gentes. E garanto-vos, vale muito a pena. Vale a pena conhecer, vale a pena ouvir, vale a pena entender e valerá sobretudo a pena defender o seu trabalho. Porque se todos o fizermos, defendemos a tauromaquia nacional.

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