Padre Ricardo Esteves fala sobre perdão e limites: «Podes perdoar e manter a distância», referiu nas redes sociais.
Perdoar alguém não significa devolver-lhe automaticamente o lugar que tinha na nossa vida. É essa a ideia central de uma nova reflexão partilhada pelo padre Ricardo Esteves, que fala sobre culpa, pedidos de desculpa tardios e a necessidade de proteger aquilo que foi reconstruído depois de uma relação ter causado sofrimento.
O sacerdote começa por separar duas coisas que muitas vezes aparecem confundidas: o perdão e a reaproximação.
«Quando alguém leva tempo demais para admitir o que fez, tu não precisas permitir a volta só porque finalmente a culpa apareceu.»
Para Ricardo Esteves, o perdão pode servir sobretudo para libertar quem sofreu de um peso que nunca lhe pertenceu.
«O perdão que concedeste serviu para tu parares de carregar uma responsabilidade que nunca foi tua. E esse teu perdão não transforma a tua recuperação em autorização para a outra pessoa aproximar-se de novo.»
Perdoar não obriga a devolver acesso
A reflexão torna-se particularmente clara quando o padre defende que é possível deixar para trás a raiva e, ao mesmo tempo, manter limites firmes.
«Tu podes perdoar e manter a distância. Podes deixar a raiva ou mágoa sair do teu dia a dia e protegeres a tua rotina.»
Isso pode significar também aceitar que determinadas pessoas já não tenham acesso à intimidade, ao cuidado ou ao espaço que ocupavam anteriormente.
«Podes lembrar o que aconteceu e decidir que aquela pessoa perdeu o acesso às tuas conversas, ao teu cuidado, ao teu afecto, à tua paz.»
Ricardo Esteves não apresenta essa decisão como vingança, mas como proteção de uma recuperação que pode ter exigido tempo e esforço.
«Um pedido de desculpa que chega tarde» pode não significar mudança
Outro ponto da reflexão centra-se na forma como surgem determinados pedidos de desculpa.
O padre deixa o alerta de que nem sempre o arrependimento tardio corresponde a uma transformação verdadeira.
«Um pedido de desculpa que chega tarde pode estar mais ligado ao incômodo da culpa do que a uma mudança real.»
E acrescenta que, por vezes, a tentativa de reaproximação acontece quando a outra pessoa percebe que perdeu um lugar, uma atenção ou um cuidado que antes tinha garantidos.
«Às vezes, a pessoa percebe que não ocupa mais o mesmo lugar, sente falta do que recebia de ti e tenta transformar a tua resposta em alívio para ela.»
Por isso, recomenda atenção não apenas às palavras, mas também ao momento em que surgem e ao comportamento que as antecedeu.
«Observa o momento do pedido, a razão do pedido e o comportamento que essa pessoa teve enquanto tu tentavas recompor-te sozinho.»
Proteger quem foi preciso recuperar
É aqui que Ricardo Esteves coloca o foco na pessoa que passou pelo processo de reconstrução.
«Quando tu voltas a ser quem eras antes daquele relacionamento enfraquecer-te, precisas proteger essa reconstrução com atitudes firmes.»
O limite, lembra, não precisa de ser compreendido ou aceite por quem está do outro lado.
«O limite que tu colocas agora não precisa agradar ninguém. Só precisas proteger a pessoa que tu lutaste para recuperar: tu mesmo!»
No entendimento do sacerdote, seguir em frente pode significar não cobrar pelo passado, mas também não reabrir portas apenas porque surgiu um pedido de desculpa.
«Perdoar por ti é seguires sem cobrar e sem devolver acesso a quem já ultrapassou o tempo certo de cuidar de ti quando sofrias só.»
A reflexão termina com uma visão do perdão ligada ao amor-próprio e à capacidade de cura.
«Perdoar é amar-te a ti próprio e revelar ao outro que o coração de cada pessoa tem as suas dores mas também tem forma de ser curado.»
Ricardo Esteves deixa, assim, uma ideia que atravessa todo o texto: há perdões que libertam sem reconciliar, desculpas que podem chegar tarde e distâncias que não são castigo, mas uma forma de preservar a paz conquistada.
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