Pedro Chagas Freitas assinalou os 95 anos da avó com uma homenagem à sua coragem, independência e capacidade de continuar depois das perdas. No Facebook, o escritor reconheceu que encontra nela um exemplo que procura seguir, embora nem sempre consiga.
A publicação foi partilhada nesta quinta-feira, 29 de outubro. Mais do que uma mensagem de aniversário, o autor descreveu a forma como a avó enfrenta o quotidiano e a comparou com os seus próprios receios.
“Hoje, a minha avó faz anos. Já são noventa e cinco, mas a minha avó é mais jovem do que eu. Mais indisciplinada, mais resistente à domesticação do tempo. Eu escondo-me atrás de horários, de tentativas falhadas de estar seguro; ela vai. Vai por onde tiver de ir. Buracos, pedras, descidas sem corrimão.”
A determinação da aniversariante surgiu também numa frase que o escritor guardou na memória: “Nunca quis que lhe asfaltassem o caminho. ‘Quem alisa demais o chão escorrega’, disse-me uma vez, a rir, depois de cair.”
As perdas que marcaram a vida da avó
Pedro Chagas Freitas recordou os familiares que a avó perdeu ao longo dos anos, incluindo o marido e um filho. Na sua descrição, o sorriso não apaga essas ausências.
“Perdeu mais do que alguma vez terei. Irmãos, pais, tios, marido, um filho, essa ferida que nunca cicatrizou, mas que ela soube costurar com o silêncio. Não fala disso. Sorri. Não é um sorriso de quem esquece; é um sorriso de quem escolheu continuar.”
O autor destacou depois os desejos simples da avó e a ligação à casa onde construiu a sua vida.
“A minha avó olha a vida da frente para trás. Não quer aplausos nem palmadinhas nas costas; quer chá quente, um cobertor, o espaço do seu sofá, a certeza de que morrerá na sua casa como viveu nela: inteira, teimosa, imperfeita.”
“O nosso medo de a perder não a convence”
A autonomia da avó foi outro dos pontos centrais da homenagem. O escritor descreveu uma mulher que reconhece o medo, mas não deixa que este determine as suas escolhas.
“Tem um medo especial: o medo dos que não têm medo de viver. Um medo que não paralisa; afina. O medo como bússola; o medo como estratégia de sobrevivência. Ao contrário de mim, que tremo só de pensar em perder o conforto da anestesia quotidiana, ela caminha contra o medo dos que a amam: o nosso medo de a perder não a convence. Não a convenceu nunca.”
Ao comparar os dois percursos, Pedro Chagas Freitas admitiu que gostaria de ter a mesma coragem. A reflexão deu origem a uma das frases centrais da publicação.
“Pode ser que eu um dia tenha a coragem dela. Ou não. Há heranças que não se podem herdar, apenas imitar. Tento todos os dias. Nem sempre consigo.”
Um exemplo que o escritor procura acompanhar
Na parte final, o autor recuperou os gestos quotidianos que associa à avó, desde o trabalho na horta até à capacidade de enfrentar as dificuldades.
“Há manhãs em que me levanto e penso: a minha avó já teria ido à horta, limpado as lágrimas, feito café, chamado o medo pelo nome. Eu, nessa altura, ainda estou a tentar sair da cama.”
A homenagem terminou com uma declaração de admiração pela aniversariante: “Tento. Às vezes, por breves instantes, consigo. Nesses instantes, sou quase digno dela.”
