Pedro Chagas Freitas partilhou no Facebook um texto centrado em Guilherme, um homem de 71 anos que apresenta como alguém com uma vida de trabalho nas obras, na restauração e em fábricas. Através dessa narrativa, o escritor aborda o desgaste provocado pela pobreza, o medo e a recusa de desistir.
Publicada este domingo, 25 de outubro, a história começa com uma frase que o autor atribui a Guilherme: “Moro num país em que a pobreza está legalizada.”
O texto não esclarece se se trata de um relato factual ou de uma construção literária, nem identifica o local da ação. A narrativa acompanha uma conversa entre lágrimas, referências à chuva e uma cena em que surgem bastões e pessoas a correr.
“Só quero o que me disseram que ia ter”
Na publicação, Guilherme surge a limpar as lágrimas enquanto fala de uma vida de trabalho e de expectativas por cumprir.
“Não quero o que não mereço, nunca quis o que não merecia. Só quero o que me disseram que ia ter, mas aqui neste país, não sei se já lhe disse, a pobreza não é crime, parece que os políticos que lá estão a legalizaram”, lê-se no diálogo escrito por Pedro Chagas Freitas.
O autor desenvolve depois a ideia de que a pobreza retira mais do que condições materiais. Nas palavras atribuídas a Guilherme, o impacto começa no orgulho e na confiança.
“O que eles querem é que a malta tenha medo de ficar como eu. Nada assusta mais do que a pobreza, não sei se já lhe tinha dito. A pobreza não é o fim, mas vai-nos acabando por dentro, vai-nos levando aos poucos; começa pelo orgulho, depois leva a autoconfiança, até que, se não estamos atentos, ficamos sem nada, resta-nos pedir e ficar nas mãos de quem nos pôs assim. Mas a mim esta gente não leva. A mim esta gente não leva.”
Chuva, medo e obediência atravessam a narrativa
Ao longo do texto, a chuva torna-se uma imagem do medo e da pressão para obedecer. Guilherme recusa a ideia de procurar abrigo se isso significar deixar de resistir.
“O que eles querem é que a gente se refugie da chuva, entende? Querem que a gente tenha medo de se molhar e se refugie da chuva. O que eles querem é que nós todos sejamos cordeirinhos, e eles dizem vai e nós vamos, e eles mandam fica e nós ficamos.”
Depois desta passagem, o escritor descreve o início da chuva, o aparecimento dos bastões e a fuga das pessoas. O homem que protagoniza a narrativa mantém, porém, a vontade de ficar.
“Está a ver como todos fogem? É isto que eles fazem. Ameaçam que vem chuva, fazem chover mesmo, e as pessoas fogem dela. As pessoas preferem estar recatadas, escondidas do que molha. Mas olhe: eu prefiro estar todo encharcado do que só levemente molhado, sabe? Se é para molhar que sirva para lavar. Já não vai ser no meu tempo, mas tenho a certeza de que um dia as pessoas vão perceber que todas as águas servem para sarar. Vou morrer, fique o senhor a saber, com a esperança da revolução, e até não é uma maneira feia de se morrer, pois não?”
“Eu fico aqui onde chove”
A publicação termina com o narrador a oferecer ajuda, perguntando a Guilherme se quer companhia ou se deseja ser levado a algum lugar.
A resposta mantém a posição expressa ao longo de toda a conversa: “Deixe estar. Eu fico aqui onde chove.”
Pedro Chagas Freitas encerra o texto com uma frase curta: “E fica. E fica.”
