Pedro Chagas Freitas escreve aos pais «de rastos»: «Não desapareças dentro dos teus filhos», afirmou o escritor.
O escritor refletiu sobre o cansaço, a culpa e a exigência de uma parentalidade perfeita, lembrando que as crianças também precisam de adultos capazes de reconhecer as próprias fragilidades.
Pedro Chagas Freitas publicou este sábado, 29 de agosto, uma carta dirigida às mães e aos pais que vivem cansados e sobrecarregados. No texto partilhado no Instagram, o escritor defendeu que admitir o desgaste não diminui o amor pelos filhos.
«Minha cara mãe, meu caro pai: ‘amo os meus filhos e estou de rastos’. Podes dizê-lo. Estás cansado. Estás cansado de decidir o que comem, o que vestem. Estás cansado das horas, dos trabalhos de casa, das consultas, das mensagens da escola, das atividades, das febres, dos medicamentos, dos medos, das contas, das compras, das roupas que deixaram de servir», começou por escrever.
Admitir o cansaço sem questionar o amor
Para Pedro Chagas Freitas, a parentalidade não deve ser encarada como uma prova permanente de resistência. O autor descreveu a contradição entre desejar alguns minutos de silêncio e sentir imediatamente a falta dos filhos quando estes adormecem.
«‘Amo os meus filhos e estou de rastos’. Pronto: não aconteceu nada. Nenhuma criança deixou de ser amada, nenhum tribunal da parentalidade precisa de ser convocado. Ser mãe ou pai não é uma prova de resistência. É uma estupidez pensar isso. Estás de rastos e, quando eles adormecem, tens saudades deles. É isto ser mãe, é isto ser pai. Queremos que parem durante vinte minutos e, quando adormecem, vamos ver fotografias deles no telemóvel», acrescentou.
O escritor abordou também os erros que fazem parte do quotidiano familiar, desde uma refeição menos cuidada até à falta de paciência num momento de maior exaustão.
«Não te sintas culpado. Não julgues. Não te julgues. Vais falhar. Um dia, os teus filhos vão comer porcarias, noutro dia vão chegar atrasados, e noutro vais gritar quando não devias, e noutro vais dizer ‘sim’ porque não tens forças para dizer ‘não’, e noutro vais esquecer-te de alguma coisa importante, e noutro vais pegar no telemóvel quando devias estar a ouvi-los, e noutro vais estar a ouvi-los e a desejar estar a olhar para o telemóvel. Vais fazer merd*», escreveu.
«A pedagogia da vulnerabilidade»
Pedro Chagas Freitas considera que as crianças não precisam de encontrar a perfeição nos pais, mas adultos que saibam reconhecer quando falham, pedir desculpa e assumir que também precisam de descansar.
«Parabéns: és uma pessoa. A tua criança não quer pais perfeitos. Ia sentir-se uma porcaria ao lado deles. A tua criança quer adultos que peçam desculpa, que digam: ‘hoje o pai não está bem’, ‘hoje a mãe precisa de descansar’, ‘desculpa, gritei contigo e não devia’, ‘não sei’ ou ‘enganei-me’. A pedagogia está no interior destas frases: a pedagogia da vulnerabilidade. Há poucas mais importantes do que essa», continuou.
A carta terminou com um apelo para que as mães e os pais procurem apoio e não anulem as próprias necessidades em nome dos filhos.
«Meu caro pai, minha cara mãe, se estás de rastos, não precisas de alguém a dizer-te para aproveitares cada segundo. Precisas de alguém que te diga: ‘descansa quando conseguires’, ‘pede ajuda’, ‘divide’ ou ‘diz que não consegues’. Faz isso, por favor. Não desapareças dentro dos teus filhos. Eles precisam de ti», concluiu.
No final da publicação, Pedro Chagas Freitas deixou uma referência ao livro «Benjamim e os Dias Cheios de Nada».
Veja a publicação AQUI.
