Pedro Chagas Freitas escreve aos pais e alerta para a culpa: «O amor sem chantagem é muito mais bonito»

Pedro Chagas Freitas escreve aos pais e alerta para a culpa: «O amor sem chantagem é muito mais bonito», considerou.

Pedro Chagas Freitas dirigiu uma carta aos pais sobre uma fronteira que, na sua perspetiva, nem sempre é fácil de reconhecer: o momento em que o amor pelos filhos começa a transformar-se em culpa, cobrança ou manipulação emocional.

O escritor não ignora os sacrifícios associados à parentalidade. Pelo contrário, começa precisamente por reconhecer tudo aquilo que um pai ou uma mãe podem ter colocado de lado para cuidar dos filhos.

«Se calhar deste tudo o que sabias dar, se calhar trabalhaste até rebentar, se calhar engoliste sonhos, adiaste a tua vida, passaste centenas ou milhares de noites em claro, medos, doenças, contas, solidões, se calhar ninguém cuidou de ti enquanto cuidavas dos teus filhos.»

A compreensão dessa dor, porém, não significa que os filhos tenham de passar a vida a pagá-la.

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«Um filho pode amar-te profundamente; não deve ser condenado a salvar-te»

É aqui que Pedro Chagas Freitas estabelece o limite central da reflexão.

«Eu acredito em ti, eu acredito na tua dor. Só não acredito que a tua dor te dê direitos sobre a vida deles, não acredito na transformação do amor numa dívida.»

E resume a ideia numa frase direta: «Um filho pode amar-te profundamente; não deve ser condenado a salvar-te.»

Para o escritor, utilizar sofrimento ou sacrifícios passados para condicionar as escolhas dos filhos acaba por transformar a relação.

«Não uses as tuas lágrimas como algemas. Ele não tem de carregar o teu sofrimento para provar que te ama. A culpa é uma trela absurda.»

Os filhos não nasceram para cumprir o projeto dos pais

Pedro Chagas Freitas enumera depois algumas das expectativas que podem ser colocadas sobre os filhos e que, mesmo quando nascem de afeto, acabam por limitar a liberdade de cada pessoa.

«O teu filho não nasceu para corrigir nada, não nasceu para telefonar o número de vezes que julgas necessário, não nasceu para escolher o curso que te faria orgulhoso, para casar com quem te tranquiliza, para morar perto, para aparecer todos os domingos, para produzir os netos que imaginaste.»

A parentalidade surge então descrita através de uma contradição inevitável: educar alguém para ser autónomo significa também aceitar que essa autonomia poderá levá-lo para longe.

«A parentalidade é uma ironia cruel: passamos anos a ensinar alguém a caminhar; um dia, ele vai usar essa ferramenta para caminhar para longe de nós.»

Há dor nessa separação, reconhece. O problema começa quando essa dor é utilizada para provocar culpa: «Dói muito; mas não uses a dor como ingrediente para a culpa.»

«Tenho saudades tuas» em vez de «Depois de tudo o que fiz por ti»

A parte mais concreta da carta surge quando Pedro Chagas Freitas contrapõe formas diferentes de comunicar exatamente a mesma necessidade.

Em vez de «Nunca tens tempo para a tua mãe», propõe: «Tenho saudades tuas.»

Em vez de «Depois de tudo o que fiz por ti», sugere: «Gostava de estar contigo.»

E, perante uma mágoa, aconselha a dizer «Estou magoado e quero explicar-te porquê», recusando frases como «Quando eu morrer, vais arrepender-te.»

É neste ponto que deixa o apelo mais explícito: «Por favor, não faças isso.»

«Os teus filhos já terão peso suficiente»

Pedro Chagas Freitas termina sem negar aos pais o direito à tristeza ou à saudade. O que rejeita é que esses sentimentos sejam transformados numa responsabilidade dos filhos.

«Não precisas. O amor sem chantagem é muito mais bonito. Não te castigues. Não castigues o teu filho.»

E propõe uma frase que considera das mais importantes que um pai pode dirigir a um filho: «Isto é meu. Não tens de o carregar.»

O texto termina precisamente aí, na separação entre amar alguém e obrigá-lo a suportar aquilo que nos pertence.

«Os teus filhos já terão peso suficiente. Não acrescentes o teu.»

Veja a publicação AQUI.

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