Pedro Chagas Freitas ironiza o sistema Volta e assume falhas: “Peço desculpa”

Pedro Chagas Freitas ironiza o sistema Volta e assume falhas: “Peço desculpa”, referiu nas suas redes sociais.

Numa publicação, Pedro Chagas Freitas discute com uma máquina que teima em rejeitar garrafas. Noutra, olha para as próprias escolhas e pede desculpa às pessoas que magoou, a quem não respeitou e a si próprio. O escritor levou às redes sociais dois textos de registos diferentes, unidos pela imperfeição: primeiro, a das embalagens que o sistema não aceita; depois, a de quem admite estar longe da pessoa que gostaria de ser.

O primeiro relato parte de uma experiência quotidiana com o Volta, o Sistema de Depósito e Reembolso de embalagens. O segundo abandona o humor e entra num território mais pessoal, com a repetição de duas palavras: “Peço desculpa.”

Devolver três garrafas como quem faz uma prova de acesso

Em funcionamento desde 10 de abril, o sistema Volta cobra um depósito de dez cêntimos por cada embalagem abrangida. O consumidor recupera esse valor quando devolve a garrafa ou lata num ponto de recolha. Para ser aceite, a embalagem deve estar vazia, intacta, completa e com o código de barras legível. Estão abrangidas embalagens não reutilizáveis de plástico, metal ou alumínio com menos de três litros. Agência Portuguesa do Ambiente, Volta

Foi precisamente a quantidade de regras que serviu de ponto de partida à sátira de Pedro Chagas Freitas.

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“Vamos lá para devolver três garrafas. Saímos com a impressão de termos realizado uma prova de acesso à função pública ou à faculdade”, escreveu.

O autor enumerou as instruções que acompanham o processo: não amassar, não deformar, preservar aquilo que a máquina precisa de ler e evitar apresentar uma embalagem demasiado danificada.

É nesse ponto que passa da reciclagem para uma comparação com as pessoas.

“O Volta acredita na segunda vida das embalagens desde que a primeira tenha sido irrepreensível. Ainda bem que não aplicamos isto às pessoas: ‘Desculpe, mas só reciclamos quem chegar sem mossas’”, ironizou.

Uma garrafa rejeitada e uma fila de especialistas

A experiência continuou com a tentativa de introduzir uma garrafa na máquina. Perante a recusa, Pedro Chagas Freitas voltou a rodar a embalagem, aproximou-a mais devagar e esperou que o equipamento mudasse de decisão.

Atrás de si formou-se uma fila e, com ela, surgiram as sugestões: virar o código de barras ou colocar primeiro o gargalo.

“Fomos à Lua, criámos inteligência artificial e cinco adultos observam uma garrafa que não quer entrar num buraco”, resumiu.

A cena ganhou contornos de pequena vitória quando a máquina finalmente reconheceu a embalagem.

“A máquina aceita. Aceita-me. Sinto uma alegria adolescente. Yuppie”, escreveu, prolongando depois a celebração à medida que outras garrafas e latas eram recebidas.

O valor pago na compra pode ser recuperado após a devolução. As embalagens abrangidas têm de apresentar o símbolo do sistema e um código EAN, habitualmente conhecido como código de barras. A meta definida para 2026 é recolher 70% do peso das embalagens colocadas no mercado. Agência Portuguesa do Ambiente

A burocracia ambiental vista pelo lado do consumidor

Depois da máquina, chega o talão. É nesse momento que o escritor questiona o esforço exigido ao consumidor para concluir todo o processo.

No texto, recorda que foi necessário comprar, transportar, guardar, separar e conservar as embalagens. Seguiram-se a deslocação ao ponto de recolha, as tentativas falhadas, a espera, a receção do comprovativo e a necessidade de perceber onde poderia utilizá-lo.

“Dizem que é responsabilidade ambiental. Pode muito bem ser um pequeno emprego não remunerado”, escreveu.

A crítica não é dirigida ao propósito da reciclagem, mas ao caminho criado para lá chegar. Pedro Chagas Freitas termina com uma contradição entre o objetivo de poupar recursos e o papel utilizado para regulamentos e comprovativos.

“A burocracia pega numa árvore, faz dela papel, imprime um regulamento, talões, milhares de talões de papel, e depois cria uma campanha para salvar árvores”, apontou.

O fecho mantém o mesmo humor do início: “Longa vida ao Volta, que a minha com o trabalho que ele me dá já não deve durar muito.”

Do humor ao reconhecimento das próprias falhas

Noutra publicação, o escritor mudou completamente de tom. Sem máquinas, garrafas ou talões, Pedro Chagas Freitas começou por dirigir um pedido de desculpa a quem magoou.

“Peço desculpa. A quem magoei, mesmo que não tenha sido propositado, mas muitas vezes foi. Sou fraco, já fui mais. Já cedi mais ao mais fácil, à tentação da dor do outro para ocupar temporariamente a minha”, escreveu.

O texto prossegue com o reconhecimento de que nem sempre respeitou os outros e de que, em alguns momentos, procurou uma satisfação imediata sem medir as consequências.

“Peço desculpa. A quem não respeitei, mesmo que não tenha sido propositado, mas muitas vezes foi. Deixei-me levar, conquistar, pelo mais fácil, pela satisfação superficial, pela vitória sem sentido. Quis sentir-me melhor, e deixei o outro pior, não imaginei o que faria no outro, que estupidez”, assumiu.

Pedro Chagas Freitas pediu também desculpa por todas as vezes em que não conseguiu fazê-lo no momento certo.

“A quem não fui capaz de pedir desculpa. Por cobardia, talvez; por medo, talvez; por vaidade, talvez; por orgulho, talvez. Por pequenez, certamente”, acrescentou.

“Um dia vou ser a boa pessoa que sonho ser”

A reflexão termina voltada para o próprio autor. Depois de reconhecer o impacto das suas escolhas nos outros, Pedro Chagas Freitas admite a distância entre aquilo que é e a pessoa em que gostaria de se transformar.

“Peço desculpa. A mim, por estar a milhas de ser a pessoa que gostava de ser, que julgo que posso ser. Todos os dias, acredito, estou mais perto, mas estou sempre tão longe, tão longe. Um dia vou ser a boa pessoa que sonho ser”, concluiu.

Entre os dois textos existe uma mudança clara de escala. No primeiro, o escritor encontra humor numa máquina que exige embalagens sem danos. No segundo, reconhece as próprias “mossas” e assume que melhorar depende de responsabilidade, consciência e mudança.

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