Uma tarde de touros diferente em Alcácer do Sal com naipe de estrelas…em todos os aspetos.
Texto: Tiago Santos
Fotografia: André Nunes
Da última corrida proclamada à nova oportunidade em Alcácer
Quando, em junho, se anunciou, com a solenidade das coisas definitivas, que a corrida integrada na PIMEL seria a última em Alcácer do Sal, muitos aceitaram o fim como se aceita o inevitável: com memória, aplauso e nostalgia. Nessa despedida então proclamada, ficaram os triunfos de Marcos Bastinhas e Luís Rouxinol, bem como a justa homenagem a Sónia Matias, compondo um quadro de encerramento digno de uma era.
Contudo, foi aqui dito que os deuses da arte e da tauromaquia quiseram, de forma irónica e ainda por cima com a passagem do Deus do Trovão Morante por terras lusas, que houvesse ainda a última em Alcácer. Desta vez oficial, em cartaz e tudo, com essa mesma proclamação, aquando da Feira Nova de Outubro.
Pelo meio, a realidade impôs-se com menos poesia. A tempestade Kristin deixou marcas profundas em Alcácer, trazendo consigo um cenário de danos e perturbação que extravasou largamente os limites da praça e da terra. E foi nesse contexto que a tauromaquia voltou a encontrar razão de ser prática: não apenas como espetáculo, mas como gesto de resposta.
No intervalo, o empresário José Charraz entregou ao movimento “Reerguer Alcácer” o valor angariado pela corrida: 41.613 Euros. Valor recebido pela presidente da Câmara Municipal de Alcácer do Sal, Clarisse Campos, pelo vereador António Grilo e presidente da Assembleia Municipal, Gabriel Geraldo.
Uma corrida fora do comum
Com o empenho de nomes como Diego Ventura e Rui Fernandes, a cidade recebeu então uma tarde diferente. Diferente no propósito, diferente na leitura e inevitavelmente diferente na forma como será recordada.
Não foi exatamente a última. Não foi a primeira. E dificilmente poderá ser classificada como apenas mais uma. Foi, isso sim, uma corrida adicional, inesperada, movida por uma lógica que ultrapassa o espetáculo: uma causa de justiça económica, social e de valorização de um território que, depois do caos, procurou também na arena uma forma de se reerguer.
Um cartel raro, uma estreia de futuro e uma praça esgotada
A corrida de touros realizou-se em Alcácer do Sal, na Praça de Toiros João Branco Núncio, no dia 26 de abril pelas 17h. O cartel foi composto pelos cavaleiros Rui Fernandes, Diego Ventura, Gilberto Filipe, Filipe Gonçalves, João Ribeiro Telles e Duarte Fernandes. As pegas estiveram a cargo dos grupos de forcados amadores de Montemor-o-Novo e de Lisboa. Os touros pertenciam às ganadarias Herdade de Camarate, David Ribeiro Telles, Guiomar Cortes Moura, Santa Maria, Francisco Romão Tenório e Alves Inácio.
E foi, de facto, uma tarde diferente. Diferente desde logo pelo cartel: seis nomes de peso que dificilmente se reúnem com frequência em Alcácer do Sal, compondo um elenco de ambição maior do que o habitual. A esse alinhamento juntou-se ainda a presença, em estreia na praça, de Duarte Fernandes, apontado por muitos como futuro da arte e da tauromaquia, acrescentando expectativa a uma tarde que já partia carregada de intenções.
Entre entusiasmo, calor e mais uma para a caderneta de carteis alcacerenses
Diferente também nas bancadas, cheias, por completo. Porque, em rigor, esta é uma praça habituada a três quartos de lotação sólida, consistente, fiel. Mas não mais do que isso. Nem menos. Desta vez, porém, a exceção confirmou-se: casa esgotada, com tudo o que isso traz de entusiasmo.
Diferente, aliás, também por isso. Pelo número invulgar de espectadores a necessitar de assistência, numa tarde marcada pelo calor e por uma lotação preenchidíssima, como se o próprio ambiente quisesse testar a resistência de quem insistia em não perder o momento.
E diferente, claro, pelos detalhes que só estas tardes guardam: como o último forcado da tarde, Manuel Braga, a dar a volta à arena com um galo vivo na mão.
Mas talvez a maior diferença esteja, paradoxalmente, naquilo que nunca muda. Porque em Alcácer do Sal, a tauromaquia tem esta estranha capacidade de fazer de cada tarde um caso singular.

Entre regularidade, oscilação e resistência cultural
Neste sentido, a praça de Praça de Toiros João Branco Núncio voltou a encher para mais uma tarde de tauromaquia, num ambiente onde a expectativa do público se fez sentir desde cedo, compondo um cenário fiel à tradição dos “cabelos” geográficos do Alentejo que ali encontra eco.
Vista de uma perspetiva elevada, que oferece uma leitura mais abrangente, ainda que menos íntima, a corrida desenrolou-se como um quadro em movimento, onde cada intervenção foi sendo absorvida pelo coletivo com entusiasmo e aplauso fáceis. Houve, ao longo da tarde, momentos de maior intensidade, sobretudo quando a ligação entre cavaleiro e montada encontrou o tempo certo, criando instantes de harmonia que se destacaram no ritmo geral das lides.
A leitura da corrida
A matéria-prima, os toiros, apresentou comportamento variável, condicionando por vezes o brilho das lides e exigindo leitura atenta por parte dos intervenientes.
Observada de fora, ou talvez de um pouco mais acima, a corrida revelou-se como um exercício de persistência cultural, onde o espetáculo se constrói tanto no centro da arena como na forma como é recebido por quem o contempla, com o fator do reerguer algo após o caos e a tragédia. E ainda atribuiu o factor solidário à tauromaquia, que transcende as artes todas e engloba todas numa só.
Rui Fernandes, Diego Ventura e a intensidade do topo do cartel
Na frente do cartel, Rui Fernandes voltou a afirmar-se como um toureiro de forte componente estética, capaz de aliar a correção da sua equitação a uma dimensão emocional que prende o público. A sua lide constrói-se tanto na forma como na intenção, com momentos em que o desenho das sortes ganha expressão artística sem perder eficácia. Houve espetáculo, houve ligação às bancadas e, sobretudo, a sensação de uma presença pensada para marcar, não apenas cumprir.
Já Diego Ventura trouxe à arena aquilo que o distingue: intensidade e espetáculo. A sua lide vive da emoção e da proximidade, do risco calculado e da capacidade de incendiar o público. Houve momentos de grande impacto, com ferros de nota alta e uma relação muito direta com o toiro. Uma vinda inédita a Alcácer que não deixou ninguém incólume e aumentou a temperatura na praça.
Estética, emoção e espetáculo na frente da tarde
Gilberto Filipe apresentou-se num registo também ousado e recehado de difusor de alegria nas bancadas, ligado a uma dominadora escola de equitação, com o clímax da retirada da cabeçada do cavalo. O toureio de Gilberto Filipe imprimiu, uma vez mais, o seu cunho muito próprio, desafiante e imprevisível, desenhando momentos de forte intensidade frente ao touro, muitas vezes fora dos cânones mais ortodoxos.
Por sua vez, Filipe Gonçalves evidenciou entrega e vontade de afirmação. A sua lide teve momentos interessantes, sobretudo na forma como procurou ligar as sortes e imprimir ritmo, ainda que nem sempre com a mesma eficácia na execução. Destaque ainda para o par de bandarilhas final, que mal o cavaleiro empunhou levou o público ao rubro.
João Ribeiro Telles acabou por tourear o sobrero da corrida, após o oponente destinado ter sido devolvido, e o que estava “capaz” não teve a entrega desejada. A lide teve momentos de grande qualidade, sobretudo na forma como interpretou o difícil toiro, que teve de tourear face às tábuas devido à querença do animal por tábuas e, especialmente, pela porta dos curros.
O futuro anunciado e a primeira marca em Alcácer de Duarte Fernandes
Por fim, Duarte Fernandes, na sua estreia em Alcácer do Sal, deixou sinais claros de potencial e que é um dos futuros proclamados e garantidos da tauromaquia. Ainda em fase de afirmação, mostrou atitude, vontade e apontamentos de qualidade, tendo absorvido das maiores ovações da tarde. Tudo isto justifica as expectativas que sobre si recaem e o público ficou a salivar por mais do jovem cavaleiro.
Ação! Coesão, raça e diferentes desfechos na arena
Os forcados, como é habitual, trouxeram à arena uma energia distinta, feita de entrega e coesão, resolvendo as pegas com diferentes graus de eficácia, mas sempre com o reconhecimento de um público alcacerense que valoriza esse confronto direto.
As pegas estiveram a cargo de dois dos mais prestigiados grupos de forcados do país, Montemor e Lisboa, que voltaram a demonstrar a sua habitual solidez e entrega na arena.
Pelo Grupo de Montemor, destacaram-se Ricardo Batista, consumando a sua pega ao segundo intento, Manuel Carolino, que só ficou bem-sucedido ao terceiro, e Miguel Cecílio, que resolveu a lide ao segundo intento.
Já pelo Grupo de Lisboa, a atuação também foi marcada pela perseverança: Miguel Santos concretizou ao segundo intento, enquanto Miguel Nascimento e Manuel Braga consumaram as respetivas pegas apenas ao terceiro, num registo de raça e compromisso que manteve a emoção até ao último instante.
Nota final: coreografias e o espetáculo dentro do espetáculo
E, no meio de tudo isto, há ainda um espetáculo paralelo que raramente vem no cartaz, mas que insiste em marcar presença: a coreografia incansável dos fotógrafos. A “dança dos fotógrafos”, feita de cruzamentos constantes e uma dedicação quase atlética ao movimento que, vista de fora, ganha contornos de performance autónoma.
Porque, por agora, entre deslocações, ângulos e repetições, permanece uma curiosidade difícil de ignorar: a de como, no meio de tanto movimento, o resultado insiste tantas vezes em parecer… familiar.
E olhando para o futuro, não deixa de ser curioso imaginar novos modelos de contratação com os empresários taurinos. Algo como: se procura um ambiente de constante agitação junto à arena, se valoriza a imprevisibilidade nos momentos mais delicados, da pega ao trabalho dos peões de brega, ou se aprecia uma certa dinâmica adicional mesmo em contextos de emergência de atuação de bombeiros, então talvez já saiba com quem contar.




