West End e “Mamma Mia!” invadem o Campo Pequeno e Lisboa ficou a cantar ABBA bem alto, ontem, dia 20 de maio de 2025. Esta passagem por Lisboa irá continuar até dia 25, domingo, e promete fazer ecoar os cânticos dos fãs de ABBA por muitos anos afora pelas paredes do Sagres Campo Pequeno. Até este edifício se irá lembrar!
West End de Londres encontra-se com Lisboa na Avenida da República
O musical “Mamma Mia!” é um daqueles musicais que todos nós conhecemos. Identificamos-mos com a história de uma rapariga que quer saber quem é o seu pai antes do seu casamento numa ilha grega. E tem de saber quem é de três homens que, com personalidades tão diferentes, têm fragmentos da sua própria personalidade. Mais do que procurar quem é o pai, ela procura um lugar no mundo e procura saber quem é. E para seguir o nosso rumo, temos de saber quem somos.
Catherine Johnson foi a dramaturga britânica que criou este arrebatador musical, após uma ideia que partiu da produtora Judy Craymer que queria contar uma história original com a discografia dos ABBA.
Convenceu os membros da banda, nomeadamente Benny Andersson e Björn Ulvaeus, e a ideia avançou para a realidade.
A estreia mundial? Essa aconteceu com êxito no Prince Edward Theatre, em Londres, a 6 de abril de 1999.
Portugal não consegue parar de cantar “Mamma Mia!” desde a estreia do filme em 2008
Ora, este musical é dos musicais mais mediáticos possíveis e imagináveis e uma produção deste tamanho em Portugal realmente diz muito do tipo de produção e do tipo de agenda que há atualmente no nosso país, com foco claro na ambição. É um musical massivo, com muitos efeitos e com grande elenco, de qualidade e quantidade.
Claro que não iremos encontrar a Meryl Streep ou o eterno 007, Pierce Brosnan, mas encontramos atores de extrema qualidade e que, para quem nunca viu o musical em palco, conseguiram trazer o filme e trazer as músicas dos ABBA para o nosso pequeno, mas entusiasta canto lusitano.
Este musical é conhecido por utilizar músicas da banda sueca, contudo, vai além da música. Reinventa o contexto das letras e os arranjos e, tal como o próprio filme, usa-as para dispositivos de narrativa, levando a uma viagem pela discografia, mas também pela Grécia e por esta história encantadora. E torna as músicas muito mais famosas do que o lançamento das músicas foram na sua data original, devido ao poder de contarem histórias com as quais nos identificamos.
[Best_Wordpress_Gallery id=”8124″ gal_title=”Mamma Mia-2025″]Ó mamma mia, que o público aderiu em força!
Logo antes da abertura das portas às 20h já apreciam visíveis fãs do musical em volta do Sagres Campo Pequeno. Umas pessoas com t-shirts do musical ou filme, outras vestidos a rigor tal como se fossem a Donna ou uma das Dynamos, com vestidos brilhantes de comemoração do casamento da filha de Donna, Sophie, e de festas de despedida de solteira.
E era de facto um festejo deste musical e da alegria que trouxe a Lisboa. Às 20h já dezenas se preparavam para entrar e sentaram-se no lugar, qual era a antecipação! Por entre todas as vozes a entrar, conseguia ouvir-se “finalmente em Portugal!” ou “eu nem acredito que vou ver”.
Assim, o West End estava instalado em Lisboa. Assim como a paisagem anímica e imagética das ilhas da costa da Grécia, iluminadas e radiantes. O calor está aí, e o musical mais ensolarado recebo-o da melhor maneira, com animação, alegria e luz.
O mar azul da Grécia espelha “lá vamos nós outra vez!” com um grande sorriso
Este foi um espetáculo com uma cenografia inteligente, interessante e adaptada ao espaço do Sagres Campo Pequeno. A cenografia remete-nos para as ilhas ao longo da costa da Grécia e não podemos estar mais contentes por estar a passar uma noite num sítio tão apetecível para se morar. Contudo, a estrela não era o cenário. E as luzes estavam também muito interessantes, mas também não eram elas. A protagonista era a música dos ABBA.
E isto nota-se logo no tema titular “Mamma Mia”. É das músicas que melhor descreve a vida e foi vibrante em palco com os corações a bater era o clímax e ninguém conseguia esperar. Um tema sobre “lá vamos nós outra vez”, mas com felicidade! A vida é assim. É tentativa e erro, tentativa e erro tentativa e erro. Falhamos e voltamos a colocar um sorriso. Brincamos connosco próprios, pensamos “lá estou eu armado em palerma” e vamos direitos às paredes e barreiras a toda a velocidade. É um erro. E depois passamos logo à tentativa.
É um hino à vida, mas sem arrependimentos, sem mágoas e sem depressões.
Tal como um outro tema dos ABBA, “Dancing Queen”, combate estes remorsos da vida. Ouvimos e quase que nos lembramos que parecem cantar para aquelas mães que não conseguiram explorar à sua vontade o mundo. Todavia, eram as rainhas de dança no seu quarto em outros tempos, a tentar apanhar músicas no rádio e gravar em cassete, à espera de conquistar o mundo e à espera de dias melhores.
O trio maravilha volta a atacar
A atriz que faz a personagem de Donna, Steph Parry, é uma autêntica bomba de talento. Faz justiça a todas as atrizes que interpretaram Donna e ainda mais a Meryl Streep. Isto porque são inegáveis semelhanças no aspeto, voz e acting.
Quanto ao resto do trio maravilha que são as Donna and the Dynamos, a girls band de adolescência de Donna, estava montada a apoteose total. Sempre que o trio estava junto em palco, Donna, Rosie e Tanya, o público imergiu ainda mais profundamente na história e música. Desde os risos que puxaram ao público, até a momentos musicais de grande qualidade coreográfica, foi aqui que o público lisboeta mais demonstrou ser fã de ABBA. Até com “Chiquitita”, com as três a cantarem em apoio mútuo, mas a animarem a Donna. Vemos nos seus olhos e ações toda a história que passaram em adolescentes e vemos a força desta amizade.
Quando finalmente vestem os figurinos da banda, ninguém ficou incólume com “Dancing Queen” ou “Super Trouper”. Nesse momento, os holofotes aqueceram palco e público, literal e metaforicamente.
Mencionando Rosie e Tanya, têm dois números musicais de grande destaque e que levaram o público a uma interação ainda maior com palmas a acompanhar o ritmo e a cantar o mais alto possível nesta noite de West End: Rosie com “Take a Chance on Me” e Tanya com “Does Your Mother Know”, onde não faltou coreografia e cenários a serem bem utilizados da melhor forma.
Os pais heróis que não sabem se são os pais
Os possíveis pais da filha de Donna, Sophie, são um trio improvável: Barry, Bill e Sam. Cada um diferente, mas que se apercebem da razão do convite para o casamento de Sophie com Sky, vibrantemente interpretado por George Maddison.
Para além de elementos cómicos que os três atores empregam, não há como negar o quão ternurento foi ver estes “pais” a cantar com a filha o tema “Thank You For The Music”.
Tal como foi incrível ver o inesquecível dueto “SOS” diante dos nossos olhos. É impressionante ver como os atores de Donna e Sam nos fazem recuar até ao seu passado amoroso, pelas dores e alegrias imensas, através da sua capacidade de interpretar letras tão fortes como “Where are those happy days?/ They seem so hard to find/ I tried to reach for you/ But you have closed your mind/ Whatever happened to our love/ I wish I understood/ It used to be so nice/ It used to be so good”. E com esta letra e esta interpretação, também nós recuamos atrás na vida e perguntamo-nos o que foi feito desses dias tão felizes que procuramos e não encontramos. E o amor perdeu-se e não sabemos como.
Os deuses lançam os dados e nós perdemos alguém querido “aqui em baixo”
Do mesmo modo que parecem não saber em “Knowing Me, Knowing You” em que simplesmente se entregam ao destino de que talvez não fossem ficar juntos, e seja o melhor.
Este poderoso dueto também nos faz mergulhar no nosso lugar no universo em “The Winner Takes It All”, espacialmente com o poder de voz da atriz de Donna, na letra “The gods may throw a dice/ Their minds as cold as ice”. Mergulhamos mesmo nesta ideia de que lá em cima dos deuses lançam os dados, jogando e apostando com os nossos destinos e perdemos alguém querido aqui em baixo. Debaixo do sol grego, pode ser isso que acontece e estamos nas mãos deles. E os deuses devem estar loucos.
Um encore de levar para a vida!
O público teve direito a um presente muito especial: um encore triunfal e cheio de alegria e vibrações daquelas que nos fazem dançar por todo o lado, mesmo quem não sabe. Os reis deste encore seriam “Mamma Mia”, “Dancing Queen” e o icónico “Waterloo”, que catapultou os ABBA para a fama em 1974.
No final disseram, a atriz Steph Parry (Donna)… agradece ao Sagres Campo Pequeno: “Espero que tenham tido um excelente tempo e vamos só tirar uma fotografia com todos os vossos telemóveis no ar, com lanterna ligada”. O público aderiu e a selfie foi tirada.
No final, toda a gente saiu do espaço a falar das suas partes favoritas. Da mais cómica, à mais intensa, à mais pesada. Acredito que pela manhã do dia seguinte, ainda se ouvem pessoas a cantarolar “Dancing Queen”.
E isto é caso para dizer: Mamma mia aqui vamos nós outra vez! E seguimos para a próxima aventura de vida. É aquilo a que este musical nos inspira. E tal como este espetáculo, vamos ansiosos por ver o que aí vem!
