Beja recebeu a sua primeira corrida com sucesso artístico e de público

Beja recebeu a primeira corrida do ano com sucesso artístico e de público, numa tarde que agradou aos aficionados que se deslocaram à praça José Varela Crujo.

O cartel e promessa de uma tarde de toiros bem passada

A tradicional Corrida de Touros de Beja, inserida na edição de 2025 da Ovibeja, realizou-se no dia 1 de maio, pelas 17h00, na Praça de Touros José Varela Crujo. O cartel reuniu três cavaleiros: João Ribeiro Telles, Francisco Palha e Joaquim Brito Paes, que enfrentaram os toiros da ganadaria Brito Paes e de Ascensão Vaz. Em praça esteve também o matador de touros Manuel Dias Gomes, numa atuação que trouxe a componente de toureio a pé esta tarde. As pegas estiveram a cargo de dois prestigiados grupos de forcados amadores: os de Vila Franca de Xira e os de Beja, numa tarde que aliou competição, tradição e celebração. A corrida contou ainda com o acompanhamento musical da Banda Filarmónica Capricho Bejense, que abrilhantou a abertura do espetáculo e os momentos de maior emoção.

O público que ganha pela diferença 

A praça estava bastante composta e com cerca de três quartos vendidos. Uma corrida com muito boa adesão do público. Aliás, tanto teve que já antes da abertura de portas, o pequeno “vale” do lado de fora que destaca a estética desta praça estava preenchido com diversos aficionados, dos mais pequenos aos mais idosos, a verem os cavaleiros da tarde a preparar os seus cavalos. 

Neste sentido, também alguns detalhes animados. A diferenciação do público não só pela idade mas também pela forma de vestir e de comportamento, até porque a seguir tudo fez romaria até à Ovibeja. Até chapéus de cowboy se viram, o que é interessante visto que é também uma componente das forças rurais mas do outro lado do oceano. Uma imagem inesperada, que mais do que moda, sugere um verdadeiro intercâmbio entre o campo americano e o campo português. Neste encontro festivo de culturas, percebe-se que o mundo rural do Ocidente, com todas as suas tradições, símbolos e formas de celebração, merece ser mantido em todas as suas vertentes.

O irreverente João Ribeiro Telles

Os cavaleiros escolhidos para esta corrida são algumas das principais figuras e sabíamos que iria ser uma tarde de competição, com todos eles frente a toiros da ganadaria Brito Paes. 

João Ribeiro Telles já nos habituou a ferros de impacto, com capacidade para construir uma tensão quase cinematográfica e que leva o público a grandes ovações. No primeiro toiro não foi diferente, até porque este entrou feroz pela praça com bravura, e não a perdeu mesmo nas investidas ao capote. 

Telles é um dos atuais mestres de interação com o público e isso mostrou-se nesta praça tão particular em que o tempo para ver estes heróis em praça. Contudo, tentou várias sortes ao piton contrário com sucesso e grande tensão para depois exaltação, com hesitação de um ferro longo no seu primeiro toiro e algumas constantes no segundo. Telles hesitou em vários ferros no final, ainda assim não baixando a qualidade apresentada nesta corrida, com um cavalo em que se notava inquietude.

Porém, Ribeiro Telles é um comunicador nato com o público e o seu estilo que vai do classicismo ao modo mais moderno num intercâmbio muito bem conseguido, conquistou os aficionados desta tarde.

Francisco Palha com verdade máxima

O segundo toiro foi para Francisco Palha, um touro que se mostrou distraído. Após o primeiro ferro, o touro despertou e voltou às suas investida, melhor no capote. 

Durante a primeira lide de Palha começa-se a notar que este público de Beja se confirma diferente. Numa mudança de cavalo surgem diversos cânticos musicais do público, no lado da sombra. Apesar de não ser a forma de estar tradicional numa corrida, há que lembrar que esta corrida é inserida no contexto da Ovibeja onde milhares de pessoas visitam a cidade alentejana, e a corrida não está inserida numa efeméride ou feira taurina. Por isso, o sentido de festejar acontece na praça de Beja, com vários espanhóis presentes a tentar fazer parecer as corridas de San Fermin, com reação positiva dos alentejanos. 

Na segunda lide, Palha esteve brilhante e foi “obrigado” pelo público a dar duas voltas à arena no final, provando que pode ser dos melhores e o destaque de uma temporada ainda a ser fabricada como esta. Nesta segunda lide, teve diversos momentos de máxima intensidade, frente a frente com o toiro, com ferros cravados à queima roupa para delírio do público. Realizou também sortes ao piton contrário, mas na sua forma elementar, em que o toiro não é “fintado” nem obrigado a se desequilibrar. Assim, foram sortes feitas com a verdade mais pura possível, e mais difícil! 

Joaquim Brito Paes demonstrou resiliência

Joaquim Brito pães cometeu alguns erros iniciais, mas o público em festa da Ovibeja não desistiu e apoiou com aplausos de forma a que ultrapassasse hesitações iniciais, levando aos seus ferros que são cravados com elegância. 

Ainda sofreu uma queda juntamente com o cavalo, num aparato que levou forcados e bandarilheiros a entrarem imediatamente em praça. E é neste momento que começa a verdadeira história do jovem cavaleiro nesta corrida.

Ajudam-no a levantar, com ele quase a não querer ajuda, e com expressão facial destemida e sem sacudir a poeira, afasta quem está mais perto de si e corre para ir buscar outro cavalo, tendo o cavalo anterior sido apanhado e levado para dentro também. 

Um público mais rigoroso poderia ter criticado aqui, mas este público percebeu a forma destemida do cavaleiro com uma resiliência incrível, e não desistiu dele. Quase de forma imediata, e com o público a dar mais uma oportunidade, com uma resiliência que só posso gabar, enfrentou o touro frente a frente. E conseguiu o seu melhor ferro da tarde: pensado, com tempo medido que criou tensão e exerceu vivacidade e alegria quando cravou. Cravou e o público foi ao rubro a torcer pelo jovem toureiro. É o que dá ser numa comemoração como esta da tarde de ontem!

No segundo toiro, Brito Paes resumiu-se a cravar ferros com um touro bem desenhado, que mais parecia um quadro pintado a óleo. 

Manuel Dias Gomes com uma atuação de arte e risco

O matador de toiros Manuel Dias Gomes assinou uma atuação sólida e elegante, destacando-se especialmente pelas verónicas bem traçadas, onde o touro humilhou com verdade. Com a mão bem firma e uma proximidade sem medo frente ao toiro, denotou um domínio nesta tarde diferente em Beja. 

A sua presença em praça trouxe variedade ao espetáculo e foi recebida com respeito pelo público, que reconheceu na sua atuação um equilíbrio entre arte e risco, assim como a dos seus bandarilheiros João Pedro “Açoriano” e Duarte Silva.

O toiro destinado ao matador Manuel Dias Gomes pertenceu à ganadaria Ascensão Vaz e apresentou características bem distintas dos demais ali lidados nesta tarde. De saída apresentou-se com investidas sérias, exigiu concentração e técnica por parte do toureiro. Permitiu momentos de ligação e expressão artística e foi um adversário digno, que valorizou a faena de Dias Gomes. 

Forcados conquistam o seu lugar numa tarde a não esquecer

Nesta tarde em Beja, os forcados foram fiéis à tradição e deram corpo a alguns dos momentos mais genuínos da corrida. O Grupo de Vila Franca de Xira apresentou-se com a firmeza e técnica que lhe é reconhecida, mostrando coesão nas ajudas e frieza nas decisões. Destaque para a primeira pega, embora exigente, foi consumada com segurança e determinação. 

Já os Forcados de Beja, perante o seu público e num ano especial para o grupo, demonstraram coragem e alma. A sua atuação foi marcada por uma entrega emotiva, própria de quem está a pegar em casa e com uma última pega rápida, mas eficaz e bem construída. 

Ganadarias: Tarde de triunfo.

O curro de touros da ganadaria de Brito Paes e o touro de Ascensão Vaz serviram na perfeição aos artistas e foi uma tarde de triunfo ganadeiro. Bem apresentados, com mobilidade, a permitirem aos artistas exibir as melhores características.

Uma tarde de toiros à antiga com muita festa

Houve momentos menos conseguidos, marcados por tempos mortos, hesitações e algum excesso de gestos coreografados que quebraram o ritmo das lides. Toques a mais, transições demoradas que levaram a uma maior duração do espetáculo.  Ainda assim, como se costuma dizer, “ainda a festa vai no átrio”, e Beja foi palco de uma verdadeira celebração popular. Sente-se no ar a ansiedade por uma temporada que se adivinha intensa, com os meses quentes do verão a prometerem mais arena, mais poeira e mais emoção. E os cartéis de Beja não serão exceção!

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